AVENTURAS AUSTRAIS 2017-2018 (PARTE 10)

Relato e fotos da temporada de expedições da KALAPALO EDITORA na Patagônia chilena durante o verão de 2017/18

Guilherme Cavallari segurando caveira de guanaco encontrada no caminho. Qualquer semelhança entre os dois animais é mera coincidência. Foto: Justino Pereira

A chuva no fim do dia anterior havia me deixado preocupado. Subir o Cordón Chacabuco para acampar no topo da montanha debaixo d’água seria uma encrenca e até um grande risco. Mas o dia seguinte amanheceu azul e sem nuvens. Pouca chance de precipitações. Perfeito! Eu lembrava das semanas anteriores, dos dias de bikepacking com frio, chuva e vento constante. Eu mal podia acreditar… A Patagônia é mesmo temperamental.

Subida do morro em frente à Casa de Piedra, sem trilhas, no começo do dia. Foto: Justino Pereira

Saímos todos juntos da Casa de Piedra, inclusive as três mulheres que optaram por um dia de descanso no camping. Elas iriam nos acompanhar um trecho do caminho, sem mochilas, talvez até o Lago Gutierrez. Contornamos a montanha entre a área de acampamento e o lago, subindo um pouco a encosta da elevação para evitar o charco que eu lembrava existir no pé do morro. Não havia trilhas a seguir a não ser os eventuais caminhos abertos por guanacos. Pisávamos tufos de vegetação ressequida, pedras soltas e terra batida. Arbustos espinhosos logo fizeram com que eu me arrependesse de não ter levado minhas polainas de cordura. Resolvi deixá-las na barraca com Adriana para diminuir o peso da mochila. Eu dividiria barraca com o Rodrigo por uma noite.

Seguindo trilhas intermitentes de guanacos morro acima, pisando em pedras soltas e furando as canelas em espinhos… Foto: Rubens Bueno Ribas

De cara, um pequeno acidente acrescentou tempero à aventura… A velha bota de trekking do Sergio soltou a sola! E parte dos dois pés das botas da Carla também começaram a descolar! Duas semanas antes, eu havia esquecido 10 m de um cordim ultrarresistente, um cabo náutico na verdade, na Casa de Piedra quando passei por ali de bike. Quando dei pelo esquecimento, no acampamento West Winds, próximo da sede do PARQUE PATAGÔNIA, pedi ao chefe dos guardas-parque que enviasse uma mensagem via rádio para a Casa de Piedra pedindo que o cordim fosse recolhido e guardado para mim. Quando retornei à Casa de Piedra, dessa vez caminhando desde a entrada da RESERVA NACIONAL LAGO JEINIMENI o simpático o guarda-parque de plantão veio logo perguntando se eu era “o brasileño Guilherme”. 

Botas remendas são o exemplo máximo de trilheiros casca grossa e que usam o equipamento “até o osso”, literalmente… Foto: Rodolpho Ugolini Neto

— Tenho sua cordinha comigo! — acrescentou ele.

Entreguei o cordim para o Sergio, que passou horas amarrando a sola do calçado e depois reforçando a amarração com muito Silvertape. O resultado ficou impressionante, embora meu pessimismo garantisse que a gambiarra não duraria um dia. Tudo bem. O Sergio tinha um par de sandálias Crocs, que poderiam ser usadas em trekking em caso de emergência. Nem tudo estava perdido. Silvertape também resolveu o problema da Carla.

Reunião na cozinha da Casa de Piedra, onde decidimos dividir o grupo, quem quisesse descansar um dia ficaria no camping, da janela podíamos ver a montanha a subir. Foto: Rodolpho Ugolini Neto

Subimos e descemos o morro em frente à Casa de Piedra até chegarmos próximo ao acesso oeste para o lindo Lago Gutierrez. A mulherada voltou para o acampamento antes de chegar ao lago, depois de algumas horas de caminhada. Lentamente, contornamos a margem norte do lago, sempre ganhando altitude em direção aos cumes distantes do Cordón Chacabuco. O progresso era custoso. A trilha de guanaco que seguíamos era irregular e intermitente, o terreno instável e a inclinação mais íngreme do que qualquer um de nós gostaria.

Subida íngreme e sem trilha do Cordón Chacabuco, com o Lago Gutierrez abaixo. Foto: Rodolpho Ugolini Neto

Pensando em cortar caminho e para evitar que descêssemos até quase a margem do lago, sugeri ao grupo que subíssemos ao lado de uma ravina, traçando uma diagonal na direção exata do nosso destino: o topo onde eu sabia que havia uma linda lagoa onde poderíamos acampar. Com isso, deixamos de seguir o caminho que eu já conhecia e passamos a explorar uma região da montanha desconhecida para nós.

Não demorou a coisa ficou complicada.

Cordón Chacabuco, com o Lago Gutierrez logo abaixo e, ao fundo, as montanhas na borda do Campo de Gelo Continental Norte. Foto: Rodolpho Ugolini Neto

Não havia trilha e nosso caminho foi cortado pela gande erosão da ravina que acompanhávamos. Subimos mais um pouco e nos metemos dentro de garganta por onde corria um riacho de água gelada. Rodolpho tinha a mochila mais leve e subia forte, então foi promovido a “batedor”. Sua função era encontrar um modo de chegarmos próximo ao topo da montanha contornando os obstáculos naturais que dificultavam nosso progresso. Num determinado momento o cara sumiu! Eu gritava seu nome e não tinha resposta. Assobiei e nada! Imaginei que o vento impedia que ele ouvisse meus chamados e tentei relaxar. Eu tinha que continuar incentivando o resto do grupo a subir. O terreno pedregoso escorregava debaixo de nossos pés e a perspectiva de encontrar um beco sem saída logo adiante era aterrorizadora.

As águas geladas do Lago Gutierrez, que no dia seguinte tivemos que enfrentar… Foto: Rubens Bueno Ribas

De repente Rodolpho apareceu acima de nós, depois de ter escalado uma fenda na rocha. Ele estava num terraço cerca de 20 m mais alto que nós. Impossível para ele descer. Impossível para nós subirmos. Marcamos encontro no topo da nascente do riozinho que seguíamos. Sergio e eu chegamos juntos ao riacho que corria por uma garganta estreita. A garganta era nossa única chance de sair daquela encrenca. Sergio não pensou duas vezes e começou a escalar os degraus do rio, com água molhando tudo, suas botas remendadas, meias, calças, mãos, tudo! O cara não estava nem aí para nada, era como se ficar todo molhado numa montanha da Patagônia fosse um piquenique no parque. Desconforto zero! Respirei fundo e segui seus passos. A água parecia recém-saída da geladeira!

Conseguimos sair da enrascada e logo nos reencontramos com Rodolpho, que foi imediatamente demitido da função de “batedor”. Encontrar um caminho só para ele, impossível do resto do grupo seguir, não era parte de sua descrição funcional… Ele ficou chateado por sentir que havia “falhado com o grupo”, mas eu brinquei com ele que não havia falhas nem erros, estávamos todos ali aprendendo com a situação. E era verdade.

Alto do Cordón Chacabuco, mas não no topo, de onde não teríamos essa vista. Lago Gutierrez, Valle Chacabuco e a borda do Campo de Gele Continental Norte. Foto: Rubens Bueno Ribas

Já estávamos na metade da tarde, já havíamos caminhado por mais de cinco horas e, segundo meus cálculos, naquele ritmo teríamos ainda mais cinco horas até o local de acampamento. Não chegaríamos no topo do Cordón Chacabuco com luz natural e tinha gente visivelmente bem cansada no grupo. Com a ajuda do Rodrigo, que seguia forte, encontramos um terraço de pedras bom para acampar e juntei o pessoal.

Viscacha (Lagidium viscacia), pequeno roedor com carinha de personagem de desenho animado, habitante do Cordón Chacabuco. Foto: Justino Pereira

— Não precisamos chegar a lugar nenhum — anunciei. — Podemos acampar aqui se quisermos e encerrar o dia. Não faz sentido continuarmos se não for a vontade de todos. O importante é estarmos bem e mantermos o bom-humor. Se alguém estiver cansado além da conta, é só dizer, sem constrangimentos, e paramos por hoje. Não é votação! Não é o desejo da maioria! Se um de nós quiser parar, todos nós vamos parar!

Gostei de ver que dois companheiros tiveram a coragem de dizer que estavam muito cansados e preferiam parar. É mais fácil fazer de conta que somos mais fortes do que realmente somos, bancarmos os heróis por pressão do grupo, em vez de assumir nossos limites.

Montamos acampamento num patamar fantástico, de frente para a imensidão do Valle Chacabuco, muito acima do Lago Gutierrez, com vista inclusive para algumas montanhas brancas de neve e gelo do Campo de Gele Continental Norte. Um lugar onde, muito provavelmente, nunca ninguém acampou antes!

Nosso acampamento na encosta do Cordón Chacabuco, com as montanhas geladas do Campo de Gelo Continental Norte ao fundo. Foto: Rodolpho Ugolini Neto

A saga continua no próximo capítulo!

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