AVENTURAS AUSTRAIS 2017-2018 (PARTE 11)

Relato e fotos da temporada de expedições da KALAPALO EDITORA na Patagônia chilena durante o verão de 2017/18

Fez muito frio durante a noite e de manhã, às 7h em ponto, enquanto eu fazia o café da manhã, lembrei de olhar o pequeno chaveiro-termômetro que carrego pendurado na mochila: 0˚C. Em todo recipiente de água havia uma nata de gelo. As barracas tinham uma película de geada. Deve ter feito -4˚C na madrugada, fácil! Mas ninguém passou frio.

Fina camada de gelo sobre capa de mochila, formada durante a noite mais fria da travessia. Foto: Rodolpho Ugolini Neto

Descer a montanha e voltar pelo mesmo caminho que fizemos para subir até ali pareceu fácil demais e o Rodolpho sugeriu que devíamos contornar o Lago Gutierrez. Todos concordaram. Lembrei o grupo rapidamente que estaríamos explorando uma região desconhecida e, nesses casos, qualquer coisa pode acontecer. Mas o plano parecia sólido e fácil de executar… Uma suposição que nos custaria bastante esforço.

Guilherme Cavallari, na encosta do Cordón Chacabuco, apontando o caminho a seguir contornando o Lago Gutierrez. Foto: Rodolpho Ugolini Neto

Ladeira abaixo, não suamos as camisetas. Chegamos à margem do Lago Gutierrez e começamos a contorná-lo no sentido horário. Não demorou e tivemos que caminhar pela água, porque matas ciliares de calafate impediam nosso progresso por terra. O dia estava lindo, glorioso, e a água gelada refrescava o calor do sol. Parecia um passeio num parque. Paramos para comer numa praia de pedrinhas claras, apreciando os diversos tons de azul do lago, muito profundo e extremamente transparente. Esqueletos de guanaco lembravam que ali havia pumas, acostumados a caçar suas presas enquanto elas bebem água.

Lago Gutierrez, de águas transparentes e geladas num glorioso dia de sol. Foto: Rodolpho Ugolini Neto

Contornamos a margem norte do Lago Gutierrez e abandonamos sua extremidade leste para acessar o Valle Chacabuco. Na minha cabeça, bastaria descermos outra ladeira, parecida com aquela que havíamos subido logo em frente à Casa de Piedra, e estaríamos em casa. Foi quando chegamos à beira de um abismo de talvez 200 m de desnível, tão vertical que dava vertigem. Lá embaixo estava a área de camping onde pretendíamos passar a noite, com banho quente nos esperando. Era como se fôssemos condores sobrevoando a Patagônia. Tudo parecia pequeno e distante do alto, embora muito nítido. Impossível descer por ali!

Ribanceira de detritos soltos que alguém sugeriu descer… Um tropeço e chegaríamos em pedaços lá embaixo. Foto: Rodolpho Ugolini Neto

— Vamos ter que contornar a montanha — anunciei. — Preparem-se para muitas horas de caminhada!

A desilusão foi geral. Já havíamos caminhada algumas boas horas no dia e a perspectiva de caminhar muitas horas mais, com a chance de nos perdemos um pouco no processo, afetou cada um de modo diferente. Rodolpho, em especial, ficou abatido. Ele vinha forte, puxando a fila, brincando que a primeira rodada de cerveja na sede do PARQUE PATAGÔNIA era por conta dele, dizendo que já sentia o gosto do suco de malte e, de repente, ficou mudo e nitidamente abatido. Rodrigo e Rubens tentaram, desesperadamente, encontrar uma forma de descer o precipício e queriam cortar caminho a qualquer custo. Foi preciso que eu agisse como um líder ditador para que eles não prosseguissem com o plano.

Precipício de onde avistamos o Valle Chabuco, inacessível aos nossos pés cansados. Foto: Rodolpho Ugolini Neto

— Não vamos arriscar nossas vidas — determinei. — A chance de acidente é grande demais!

Rubens e Justino, que foram os que mais se cansaram no dia anterior, quando caminhamos apenas 9 km totais, de repente se encheram de energia. Um tipo de resignação calma e segura tomou conta deles. Era como se dissessem “se precisar caminhar até à noite, estou pronto!” Achei interessante. Cansaço e desânimo estão mais associados a estados mentais do que físicos. Aqueles que aparentavam ser os mais fracos, podia facilmente ser os mais fortes. Sergio não se abalava, como sempre. Pensei com meus bastões de caminhada que ele simplesmente não sabia a diferença entre conforto e desconforto, que no fundo tudo estava bem não importava a circunstância. Minha admiração por ele só crescia. Sem barraca, o mais velho do grupo, com a sola da bota em frangalhos e atada por dezenas de nós, sempre por último na fila pra fazer companhia aos retardatários, sempre de bom-humor, sempre pronto pra ajudar. Impressionante!

Eu estava mal-humorado. Meia hora antes, já no topo de uma elevação e a pelo menos 100 m verticais do Lago Gutierrez, percebi que estava sem água no sistema de hidratação. Como deixei aquilo acontecer? — eu perguntava a mim mesmo, incrédulo. Tínhamos água sem fim à nossa disposição e eu simplesmente esqueci de checar minha reserva. Idiota! — eu criticava a mim mesmo. Fiz um levantamento geral e tínhamos menos de 2 litros de água entre os seis caminhantes. Idiota! — eu repetia.

Guilherme Cavallari sem uma gota d’água na mochila e toda aquela água lá embaixo… Foto: Rodolpho Ugolini Neto

Pra evitar que alguém ficasse extremamente desidratado, propus que recolhêssemos toda a água num único recipiente, que ficaria comigo, para que cada um pudesse dar um gole de 3 segundos a cada 15 minutos. Isso impediria constrangimentos do tipo “não pedir água para não prejudicar o companheiro”. O rodízio de goles e a divisão do patrimônio serviu para unir o grupo. Caminhávamos próximos uns dos outros e todos sabiam que estávamos juntos no mesmo barco.

Momento em que parte do grupo chegou à água e pode matar a sede… O restante do grupo despencou ladeira abaixo feito cabrito atrasado. Foto: Rodolpho Ugolini Neto

Na verdade, havia muita água disponível. O Lago Gutierrez estava a apenas 100 m verticais e talvez 500 m de distância de nós, mas descer até a margem mais próxima acrescentaria horas de caminhada ao nosso dia. Onde estávamos, próximos do topo da montanha que dividia o Valle Chacabuco do Lago Gutierrez, era possível caminhar sem grandes obstáculos. Na beira d’água nós teríamos mata de calafate, bloqueios de grandes pedras, ausência de praias para caminhar. O ideal seria fazer “navegação por curva de nível”, expliquei aos companheiros. Manter uma determinada altitude e, assim, circundar a montanha com menos esforço físico, sem subir ou descer desnecessariamente.

Fazíamos “navegação por curva de nível” para economizar energia, sempre mantendo distância da margem do lago. Foto: Rubens Bueno Ribas

Tomando pequenos goles a cada 15 minutos, fizemos bom progresso. Mas num trecho em que buscávamos a melhor maneira de contornar uma ravina rasgada na lateral da montanha, Sergio e Rubens acabaram chegando à margem do lago. Vê-los, lá de cima, saciando a sede foi demais para o resto do grupo e todo mundo despencou montanha abaixo. Fizemos uma pausa. Os mais corajosos inclusive nadaram na água gelada. Eu só molhei as mãos, o necessário para encher meu sistema de hidratação até a boca!

Camping Casa de Piedra, no Valle Chacabuco, parte do Parque Patagônia e nosso porto seguro. Foto: Rodolpho Ugolini Neto

Contornamos a montanha e fizemos uma travessia sem trilha por uma área de desbarrancamento, com pedras instáveis e precárias de todos os tamanhos debaixo dos nossos pés e de nossas bundas. Alguns tiveram que vencer o obstáculo sentados. Evitamos um riacho de profundidade questionável e chegamos à estrada que corta o Valle Chacabuco. Estávamos eufóricos e vitoriosos! Caminhamos quase 12 horas e mais de 21 km por terreno difícil, com 800 m acumulados de subidas. Ninguém reclamou, ninguém se lamentou, ninguém estressou. Justino, nosso enxadrista e filósofo de plantão, resumiu magistralmente a experiência:

— Foi uma bosta, mas foi muito bom!

Comemoração depois de mais de 12 horas de trekking e mais de 20 km por terreno difícil, quase sempre sem trilhas. Foto: Rodolpho Ugolini Neto

A história continua no próximo capítulo!

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