AVENTURAS AUSTRAIS 2017-2018 (PARTE 12)

Relato e fotos da temporada de expedições da KALAPALO EDITORA na Patagônia chilena durante o verão de 2017/18

A legião de brasileiro caronistas, retirantes no pampa patagônico, diante do transporte hippie dos nossos bem-feitores. Foto: Juliana Kreutzkamp.

O dia seguinte trouxe a possibilidade de descanso e almoço na sede do PARQUE PATAGÔNIA, com muita cerveja e a rodada prometida por Rodolpho pra toda a gangue, se a sorte sorrisse para nós. Teríamos que conseguir carona para cruzar os 27 km pela estrada de terra que corta o Valle Chacabuco — uma loteria, afinal éramos 9 pessoas com grandes mochilas cargueiras… A estratégia adotada foi deixar os mais lentos saíram mais cedo, em duplas, e os mais rápidos por último. Se saíssemos todos juntos espantaríamos qualquer chance de transporte motorizado gratuito. Marcamos encontro no restaurante na sede do parque, quem chegasse primeiro esperaria até o último moicano chegar. Se ninguém conseguisse carona, chegaríamos todos mais ou menos juntos ao fim de uma longa caminhada.

Dieter Kreutzkamp fez essa foto do nosso grupo em frente ao seu caminhão.

Sergio e eu ficamos por último e paramos no estacionamento da Casa de Piedra para conversar com o casal de veterinários chilenos que havíamos encontrado na trilha do Valle Avilés, dias atrás. Os caras eram muito animados e a conversa rendeu, com todo mundo trocando experiências patagônicas. Éramos como quatro crianças discutindo brincadeiras num parque de diversões, nenhum dos quatro com menos de 50 anos de idade… Quando o papo finalmente terminou, estávamos pelo menos meia hora atrás de todo mundo.

Suzi sendo visitada por um guanaco curioso na estrada do Valle Chacabuco. Foto: Justino Pereira

Sergio disparou na minha frente. Durante toda a travessia ele era sempre o último da fila, acompanhando os mais lentos por puro companheirismo, carregando ainda a mochila mais pesada. Acho que nem ele sabia direito o levava nas costas. Eu sabia. A caveira de guanaco que encontramos no caminho até o Lago Gutierrez, dois dias antes, foi parar dentro da mochila dele. “Um presente para a minha filha de 11 anos…”, explicou Sergio. E fiquei imaginando o quarto da menina, se talvez ainda tivesse bonecas e bichinho de pelúcia pra fazer companhia àquela caveira… Confesso que gostaria de ter tido um pai assim, que me trouxesse caveiras de guanaco de presente… Lembrei da primeira página de um dos meus livros favoritos: NA PATAGÔNIA, de Bruce Chatwin, quando ele apresenta a Patagônia através da lembrança de um pedaço de couro pré-histórico de Milodón, que um tio marinheiro havia trazido do fim do mundo…

Dieter Kreutzkamp fez essa foto do volante do caminhão, de sua casa sobre rodas invadida por brasileiros. A loira é Juliana. 

Passamos por um grande motorhome com placa da Alemanha estacionado na beira da estrada, a frente apontada para a direção que caminhávamos. Pensei que aquela fosse talvez uma das únicas potenciais caronas que encontraríamos no dia, mas fiquei quieto. Meia hora mais tarde, encontramos Adriana e Carla sentadas debaixo da sombra de pequenas árvores, elas descansavam e comiam seus lanches de trilha sem muito entusiasmo. Ninguém aguentava mais a dieta de castanhas salgadas e frutas secas açucaradas. Eles esperavam o tal motorhome alemão passar. Adriana já havia feito o contato com o casal que viajava no caminhão e a carona já estava negociada. Quem leva dois pode muito bem levar quatro, pensei. E segundos mais tarde o caminhão apareceu na estrada. Era um Mercedes 1113, daqueles velhos que ainda circulam pelo Brasil, com o capô arredondado, transformado em casa 4×4. Um casal de alemães septuagenários percorria a América do Sul a bordo. Ao volante vinha um senhor de cabelos bem grisalhos e rabo de cavalo. Um velho hippie.

Caminhão motorhome dos alemães estacionado na beira da estrada no Valle Chacabuco. Foto: Justino Pereira

Como prometido, eles pararam para pegar as brasileiras e, meio contrariados, aceitaram pegar os dois barbudos também. Sergio e eu sentamos na boleia, Adriana e Carla sentaram em torno da mesa de refeições do motorhome, todo de madeira clara por dentro, ao lado da anfitriã. Imediatamente todo mundo começou a conversar.

Dieter Kreutzkamp (http://www.dieter-kreutzkamp.de/), dá voltas ao mundo há mais de 40 anos e escreve livros contando suas aventuras. Ele já tem mais de 40 livros publicados. A esposa, Juliana Kreutzkamp, é sua companheira inseparável desde 1969. Em 1970 os dois cruzaram a África numa Kombi. Fiquei impressionado e, obviamente, senti uma forte identificação com ele. Mesmo sem nunca tê-lo visto antes, entendi que tínhamos muito em comum.

Íamos conversando animados, Dieter falando sobre seus dois caminhões motorhome, aquele que ele dirigia e outro que ficava no Alasca, quando vimos um casal de mochileiros caminhando com esforço no meio da estrada. O sol estava forte e havia poeira no ar. Sergio e eu já havíamos combinado que desceríamos da boleia para caminhar até a sede do parque, daríamos nossos lugares ao casal. Perguntei a Dieter se ele poderia deixaria o casal entrar nos lugares que nós ocupávamos e ele respondeu: “Não se preocupe, cabe mais dois, eu acho…”. Quando nos aproximamos dos caminhantes o rosto do Justino se iluminou em dúvida e esperança. Acho que ele imaginou que via uma miragem… Juliana não foi imediatamente receptiva, ao abrir a porta comentou: “Isso aqui não é um ônibus, é minha casa!”. Mas segundos depois estava entretida com os novos passageiros.

Suzi caminhando no Valle Chacabuco, calor e pó por 26 km se não rolar carona. Foto: Justino Pereira

Minutos mais tarde, Rodolpho apareceu no horizonte e já adiantei a Dieter que dessa vez eu e Sergio desceríamos para dar lugar a mais esse brasileiro molambento. Rodolpho parecia em transe, caminhando com determinação e quase fora de si. Mais tarde ele comentou que estava numa espécie de estado hipnótico e que estava decidido a chegar caminhando até Ushuaia… Não duvido. Ele subiu a bordo. Juliana só disse: “Mais um?”.

Interior do caminhão motorhome dos nossos bem-feitores alemães. Foto: Rodolpho Ugolini Neto

Quase no topo da subida mais longa do dia, depois do caminhão se esguelar montanha acima, Rubens e Rodrigo apareceram na estrada. Os dois estavam visivelmente quentes e suados depois da escalada. Eu fui logo anunciando: “Esses são os últimos, Dieter! Eu prometo!” E ele começou a rir. Juliana também riu lá do fundo, quando ouviu do marido: “Tem mais dois, querida!”. Acho que ela já estava se acostumando a ver sua casa virar um pau de arara de retirantes brasileiros no pampa patagônico.

O mapa na lateral do caminhão indica, em cores, todos os países visitados pelo casal Kreutzkamp em seus 40 anos de volta ao mundo. Foto: Rodolpho Ugolini Neto

Do hippie-móvel high tech, fomos direto para o luxuoso bar e restaurante do PARQUE PATAGÔNIA. Comida de verdade e boa cerveja nos esperavam! Depois de oito dias de rusticidade, até os banheiros do parque pareciam suntuosos e extravagantes. Vimos nossos rostos queimados de sol e sujos de pó em espelhos pela primeira vez em oito dias. Que susto! Que alegria!

Acampamos no camping West Winds, a três quilômetros da sede do parque, onde os preparamos para a etapa final da travessia: subir à base do Cerro Tamanguito (1.461 m) e descer até a RESERVA NACIONAL TAMANGO, que cruzaríamos para chegar à cidade de Cochrane e o ponto final de nossa aventura.

Jantar no quiosque do camping West Winds, na sede do Parque Patagônia. Foto: Rodolpho Ugolini Neto

A história continua no próximo capítulo! Falta pouco pra terminar… 

PARA LER OS DEMAIS CAPÍTULOS DESSA NARRATIVA, ACESSE MEU BLOG

Guilherme Cavallari e a KALAPALO EDITORA contam com o apoio das marcas: