AVENTURAS AUSTRAIS 2017-2018 (PARTE 13)

Relato e fotos da temporada de expedições da KALAPALO EDITORA na Patagônia chilena durante o verão de 2017/18

Reunião de navegação. Olhar o mapa, conferir a bússola, encontrar referências geográficas e discutir estratégias. Parte fundamental de qualquer expedição de verdade. Foto: Carla Britto

Do camping West Winds, subimos a montanha em direção ao Cerro Tamanguito (1.461 m). Nosso destino imediato era a baixada no relevo entre o Cerro Tamanguito e o Cerro Tamango (1.712 m), um passo de montanha visível do fundo do vale que nos levaria para o outro lado da elevação, em direção às margens do Lago Cochrane. Nosso objetivo era cruzar a RESERVA NACIONAL TAMANGO e, como o camping estava a cerca de 500 m de altitude e o Lago Cochrane a 150 m, teríamos uma subida dura e uma longa descida a vencer.

A montanha que subimos, vista do camping West Winds, no Parque Patagônia. Foto: Carla Britto

Uma trilha bem marcada e bem cuidada nos levou até as Lagunas Altas, umas das principais atrações naturais do PARQUE PATAGÔNIA. Cada um subiu no seu ritmo e nos encontramos todos perto do topo, para comermos algo depois de mais de duas horas de subida ininterrupta. Como sempre acontece nessas situações, quanto mais subíamos mais bonita ficava a vista. Nosso esforço era recompensado a cada passo com toda a magnitude do Valle Chacabuco, pontuado de referências já familiares.

Num folheto impresso que encontrei na loja de artesanatos do restaurante do PARQUE PATAGÔNIA, descobri que havia uma trilha nova que descia de uma minúscula lagoa perto do passo de montanha até a Laguna Cangrejo, um importante marco geográfico na RESERVA NACIONAL TAMANGO. Das duas outras vezes que eu havia feito essa travessia — uma delas durante a EXPEDIÇÃO TRANSPATAGÔNIA, que gerou o premiado filme-documentário TRANSPATAGÔNIA e o livro TRANSPATAGÔNIA, PUMAS NÃO COMEM CICLISTAS —, não havia trilha alguma nesse trecho e tive que abrir o mato no peito. A existência dessa trilha me deixava aliviado e triste ao mesmo tempo. A caminhada seria mais fácil e divertida, mas parte da emoção parecia estar perdida.

Grupo discutindo estratégias no passo de montanha entre o Cerro Tamango e o Cerro Tamanguito. Foto: Carla Britto

 

Passos de montanha costumam ter um ambiente de anticlímax, de superfície lunar. Geralmente são regiões assoladas por vento, neve e clima inóspito onde nenhum tipo de vegetação cresce e onde não se vê sinal de vida. Nossa experiência entre o Cerro Tamango e o Cerro Tamanguito não foi diferente. O lugar parecia um deserto monocromático que o céu parecia refletir. Nuvens cinzentas se misturavam à terra pedregosa e também cinzenta. Até as lagoas que pontilhavam a região pareciam estéreis. E provavelmente eram. Água que eu evito beber. Navegamos cautelosamente por esse terreno porque um pequeno erro de cálculo poderia nos afastar da cabeça da trilha que procurávamos. Chegamos até a dividir o grupo em dois, para não correr o risco de perder o caminho.

As lagoas no passo de montanha pareciam estéreis, embora cristalinas. Água que evito beber… Foto: Carla Britto

No final, foi bem fácil encontrar o começo da trilha. Mais fácil ainda segui-la enquanto cruzávamos áreas de bosques sempre verdes, trechos que normalmente estariam alagados mas que se encontravam estranhamente secos, sempre ladeira abaixo. A vegetação dessa encosta de montanha às margens do grande Lago Cochrane, que em sua metade argentina é chamado de Lago Pueyrredón, é completamente diferente de tudo o que já havíamos visto até então na travessia. O bosque era mais verde, mais úmido e mais denso. A terra mais úmida também. Havia mais musgos e líquens presos nas árvores, que pareciam mais apertadas umas contra as outras. Desde a primeira vez que caminhei por essas trilhas, em 2010, quando estava mapeando o GUIA DE TRILHAS CARRETERA AUSTRAL, sempre tenho a mesma sensação de estar sendo observado, de haver sempre um puma à espreita analisando minha passagem. O bosque tem essa característica de parecer “assombrado” e cada um tem seus fantasmas…

As “barbas de velho” é um tipo de musgo que cresce pendurados nas árvores e coleta umidade do ar. Bosques ficam com aparência “assombrada” por conta de sua presença. Foto: Rodolpho Ugolini Neto

Decidimos acampar às margens da Laguna Cangrejo, que antigamente era chamada de Laguna Tamanguito e não sei porque mudou de nome. Famílias de patos nadavam em fila indiana no lago, cristalino nas margens e de águas geladas. Encontramos uma velha área abandonada de acampamento com duas latrinas ainda em condições de uso. Antigamente havia um quiosque de acampamento no local, mas agora só restavam os postes da estrutura de madeira. Reparei em como meus companheiros de aventura estavam todos mais rápidos e desenvoltos na montagem do acampamento. Pareciam todos profissionais com décadas de prática. Dava orgulho de ver.

Laguna Cangrejo, antiga Laguna Tamanguito, na Reserva Nacional Tamango, onde acampamos. Foto: Rodrigo Simão Barbosa
Resquícios do quiosque de acampamento encontrado na Reserva Nacional Tamango, onde acampamos. Foto: Rodrigo Simão Barbosa

O dia seguinte seria nosso último dia de trekking, o final da travessia, e era impressionante olhar para trás e lembrar de tudo o que havíamos vencido juntos… Os quilômetros, os obstáculos, os diferentes climas, relevos e vegetação. Mesmo faltando ainda um longo dia de caminhada, já dava pra sentir o gosto da vitória na boca… E um pouco de saudades daquilo que deixaríamos para trás.

A história está chegando ao fim… 

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