AVENTURAS AUSTRAIS 2017-2018 (PARTE 8)

Relato e fotos da temporada de expedições da KALAPALO EDITORA na Patagônia chilena durante o verão de 2017/18

Balsa Tehuelche, que conecta Puerto Ingeniero Ibañez e Chile Chico pelo Lago General Carrera. Foto: Rodolpho Ugolini Neto

Com as mochilas prontas e abarrotadas, partimos de Coyhaique de ônibus até Puerto Ingeniero Ibañez, às margens do grande Lago General Carrera. Uma viagem de 116 km pela Carretera Austral que durou cerca de 2 horas. Depois disso, foram mais quase 2 horas numa grande balsa até a cidadezinha de Chile Chico, onde passamos uma noite hospedados em chalés perto da margem do lago. Foi estranho refazer todo o trajeto confortavelmente sentado no ônibus, lembrando com uma pouco de saudade e uma ponta de preguiça todo o esforço que fiz pra vencer tudo aquilo de bicicleta poucos dias antes.

Incrível nascer do sol em Chile Chico, antes do início da travessia. Foto: Carla Britto

Uma van nos levou, no dia seguinte, pelos 60 km por estrada de terra até a entrada da RESERVA NACIONAL LAGO JEINIMENI, onde reencontrei Cesar e Benjamin, os dois guarda-parques que me receberam em outubro de 2012, seis anos antes, no primeiro mês da EXPEDIÇÃO TRANSPATAGÔNIA. Cesar me reconheceu imediatamente e comentou que “agora não havia neve no caminho”, em referência ao manto branco que cobria tudo naquela minha primeira visita. Era verdade, agora tudo estava verde.

Lago Jeinimeni, no primeiro dia da travessia, uma caminhada não tão curta até o Lago Verde. Foto: Rodolpho Ugolini Neto

Cesar causou um certo alvoroço em nosso grupo, dizendo que por conta de um inverno rigoroso, com muita neve, o degelo ainda não havia terminado por completo e os rios estavam grandes. Segundo ele, um dos rios que nós deveríamos atravessar pela água estava fundo e caudaloso. Nossas mochilas seriam submersas. A água chegaria na altura das axilas das mulheres. Depois que ele disse isso, reparei que havia vários olhos esbugalhados de medo à minha volta. 

Todo o grupo na administração da Reserva Nacional Lago Jeinimeni. Foto: guarda-parque Cesar

Fiquei atônito. Como aquilo era possível? Eu já havia feito essa travessia duas vezes e não me lembrava de nenhum rio tão fundo! Imediatamente, o guarda-parque correu até um depósito de material e trouxe grandes sacos pretos de lixo para todo mundo. Uma improvisação eficiente que deixaria o conteúdo de nossas mochilas totalmente protegido da água. Perdemos alguns minutos esvaziando as mochilas e embalando tudo em plástico, enquanto eu questionava mentalmente se aquilo seria realmente necessário. Acho esses pequenos contratempos engraçados, embora possam parecer falta de planejamento, eles mostram que expedições são imprevisíveis e surpreendentes, impossíveis de serem totalmente antecipadas. Improvisação e flexibilidade são essenciais. 

Alguns rios eram fáceis de cruzar e no começo ninguém queria molhar os pés. Foto: Rodolpho Ugolini Neto

Caminhamos 12,5 km, beirando bosques e margeando o Lago Jeinimeni, em direção à ponta leste do Lago Verde, até uma área de acampamento que eu não conhecia. Nas duas travessias anteriores, fiz acampamentos selvagens em locais não identificados como áreas de camping. Parei para dormir onde dava. Dessa vez, faríamos tudo dentro das normas do parque. O local de acampamento era simples, com apenas uma latrina e uma espécie de quiosque de piquenique. Esse espaço de três paredes e coberto foi inclusive a salvação do Sergio… No caminho até a reserva, ainda na van, ele ficou muito sério de repente e resmungou alguma coisa tipo: “tô enroscado!”.

— O que foi, Sergião? — perguntei preocupado.

— Esqueci as varetas da barraca no albergue em Coyhaique!

— Não brinca!!!

—É sério.

Primeiro acampamento, na Reserva Lago Jeinimeni, às margens do Lago Verde. Foto: Rodolpho Ugolini Neto

Ficamos alguns segundos em silêncio. Eu ouvia as engrenagens na minha cabeça funcionando furiosamente, tentando encontrar uma solução para o problema. Lembrei que havia trazido um toldo de nylon ultraleve da Sea to Summit, uma cobertura usada para dormir em redes penduradas em árvores, que eu pretendia usar como abrigo para cozinhar nos acampamentos em caso de chuva.

— Eu trouxe um toldo de bivaque, fica tranquilo! E se for preciso, você pode dividir barraca com alguém do grupo. Tem várias pessoas sozinhas em barracas para duas pessoas…

— Prefiro dormir no bivaque — retrucou Sergio. — Não quero tirar a privacidade de niguém…

— Fica tranquilo!

Placa indicando a entrada para a clareira no bosque onde fica o Refúgio Valle Hermoso. Foto: Rodrigo Simão Barbosa

Montamos nosso primeiro acampamento e cozinhamos o jantar usando a comida mais pesada que tínhamos: macarrão instantâneo e latas de atum. Tirar peso das mochilas era a ordem do dia! Sergio dormiu debaixo da cobertura do quiosque de piquenique, debaixo também do toldo esticado onde faltavam telhas no telhado. No final, ele não ficou pior instalado do que nenhum de nós. 

Cenas de erotismo selvagem… Todo mundo de roupa de baixo atravessando água gelada…Brrrr!!!  Foto: Rodolpho Ugolini Neto

O próximo dia nos presenteou com uma das vistas mais bonitas de toda a travessia: o Paso la Gloria e o cenário do Lago Verde (o mesmo onde acampamos na noite anterior) visto de cima. Realmente estupendo! Parecia pintura! Do alto da montanha, que custou suor para escalar, pude apontar aos demais aventureiros a caminhada final do dia, que nos levaria para dentro do Valle Hermoso. Eu imaginava como a cabana da área de camping estaria por lá… Da última vez faltava metade do telhado no barraco…

Lago Verde e a entrada do Valle Hermoso, vistos do Paso la Gloria. O cenário parece artificial… Foto: Rodolpho Ugolini Neto

Fizemos os 9,7 km em cerca de cinco horas, com uma longa parada para o almoço. Subimos e descemos o Paso la Gloria mais rápido do que eu havia previsto, mas custamos um pouco mais pra chegar ao acampamento. Os rios não estavam tão altos quanto o guarda-parque havia antecipado e nossas mochilas não chegaram nem perto d’água. Fiquei um pouco desapontado. Teria sido interessante, do ponto de vista didático, acrescentar essa experiência de cruzar rios caudalosos e potencialmente perigosos na travessia. Mesmo assim, os rios causaram um pouco de ansiedade ao grupo e optamos inclusive por cruzá-los apenas de cuecas e calcinhas, para poupar nossas calças compridas. Essa estratégia durou apenas dois dias na trilha, provocando uma situação engraçada… Depois de mais uma travessia “em roupas íntimas”, cruzamos com três jovens chilenos caminhando na direção oposta à nossa. Paramos para trocar informações: os brasileiros em volta dos chilenos, que respondiam as perguntas e olhavam nossa falta de pudor com o canto dos olhos, visivelmente desconfortáveis e provavelmente imaginando se aquilo era moda no Brasil… 

Refúgio no Valle Hermoso, onde preparamos e fizemos nossas refeições. Foto: Rubens Bueno Ribas

Algumas centenas de metros depois de cruzar a foz do rio Jeinimeni no Lago Verde, olhei pra trás e vi o Sergio no fim da fila, caminhando sem os bastões de caminhada. “Cadê seus bastões?”— gritei pra ele. Sergio parou, deu meia volta e recruzou o rio. Os bastões tinham ficado espetados no chão, onde ele baixou a mochila das costas para tirar as botas e a calça comprida. Eu estava de olho no Sergio. Quando ele pedalou a Carretera Austral sozinho depois de fazer dois treinamentos comigo, esqueceu o cartão de crédito dentro do caixa eletrônico logo no começo da viagem. Dias mais tarde, um brasileiro que ele encontrou no caminho fez o favor de sacar dinheiro e entregar a ele, enquanto a esposa do Sergio, no Brasil, fazia uma transferência bancária para a conta do bom samaritano. O engraçado foi que esse bem-feitor era o sobrinho ciclista de um vizinho meu aqui na Mantiqueira… Um dia, quando eu estava no começo de uma viagem de bicicleta, encontrei outro biker num mirante. O cara perguntou: “Você não é o Guilherme Cavallari? Eu conheci um amigo seu, o Sergio. Eu emprestei dinheiro pra ele na Patagônia…”. E contou toda a história. Mundo pequeno… 

Toldo de bivaque Sea To Summit usado pelo Sergio durante a travessia, montado com dois bastões de caminhada. Ótimo para ilustrar que barraca não é item essencial em nenhuma travessia. Foto: Rodrigo Simão Barbosa

Encontrei o acampamento no Valle Hermoso bem melhor estruturado. Havia até uma latrina e a velha cabana de tábuas e piso de terra batida tinha um telhado novinho em folha. Um luxo! Montamos nosso acampamento e nos instalamos para dormir duas noites. Sergio usou o barraco-refeitório como dormitório e fico bem acomodado. No dia seguinte faríamos uma caminhada exploratória até uma geleira num vale que desemboca no Valle Hermoso — o Valle Vestiquero. Mas isso é assunto para o próximo capítulo! 

Até breve!

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