AVENTURAS AUSTRAIS 2017-2018 (PARTE 9)

Relato e fotos da temporada de expedições da KALAPALO EDITORA na Patagônia chilena durante o verão de 2017/18

Paramos diante da boca do Valle Vestisquero em dúvida. Uma espécie de ilha verde, um bosque denso cercado de água, dividia o rio em dois braços e nós não sabíamos se deveríamos seguir pela direita ou pela esquerda. Um sueco solitário que encontramos algumas centenas de metros antes, com uma mochila do tamanho de um fusca, nos orientou para seguir pelo caminho da direita. Fomos pela esquerda. O cara parecia tão acabado, surrado e abatido, que suas instruções deveriam ser lidas ao inverso…

Já no terceiro dia da travessia o grupo estava mais autoconfiante e desenvolto, seguros de suas capacidades de vencer obstáculos. Foto: Rodolpho Ugolini Neto.

Como esperado, não havia trilha. Caminhamos ora na margem pedregosa do rio e ora em trilhas de animais abertas na mata ciliar. Encontramos um huemul adulto (Hippocamelus bisulcus) morto ao lado do rio. O bicho era grande e forte, com a parte traseira do corpo devorada por condores, que cavaram uma caverna em suas entranhas. Mas não havia marca de ataque de puma no pescoço, o que deixou dúvidas sobre como ele havia morrido.

Huemul morto ao lado da trilha, sem marcas visíveis de ataque de puma. Ele pode ter morrido afogado, levado por uma enxurrada. Foto: Carla Britto.

Chegamos sem grandes dificuldades até a pequena geleira e à lagoa formada pela água de degelo. Fizermos uma longa pausa de almoço e contemplação, sem pressa de voltar pra casa. Havíamos pensado em seguir adiante, até uma segunda lagoa mais acima no vale, mas desistimos. O caminho não seria fácil e com certeza não seria tão bonito. O sueco havia seguido adiante e encontrado um beco sem saída. Voltamos ao acampamento no Valle Hermoso pelo mesmo caminho, cada vez mais indiferentes às travessias de rio. Era nítido que o grupo ganhava mais confiança e desenvoltura a cada dia.

Pequena geleira no fundo do Valle Vestisquero, cujas águas desenbocam no Rio Jeinimeni. Foto: Rodolpho Ugolini Neto.

Depois de mais uma noite acampados em torno do Refúgio Valle Hermoso, seguimos caminho pelo Valle Avilés em direção ao PARQUE PATAGÔNIA. Demoramos para encontrar a trilha que sobe ao Paso Avilés e nos embrenhamos no mato seguindo trilhas abertas por animais. Os arbustos de calafate, famosos por suas frutinhas deliciosas e espinhos impiedosos, logo se tornaram íntimos de todos nós. “Calafate!” era um aviso comum, indicando terreno intransponível ou apenas potencialmente doloroso.

Aventureiros no fundo do Valle Ventisquero, no terceiro dia da travessia. Foto: Justino Pereira.

No bosque de árvores frondosas que compõe o topo do Valle Avilés, cruzamos com casal de jovens franceses que seguiam na direção oposta à nossa. Eles pareciam confusos. O cara disse que teríamos que cruzar dois rios com água acima da cintura, mas não sabia dizer exatamente onde os rios estariam ou em que ponto do vale essas travessias aconteceriam. Achei estranho, não fazia sentido. Mais tarde um pouco, cruzamos um animado casal de veterinários chilenos de meia idade, também caminhando na direção oposta. Segundo eles, a trilha estava muito bem marcada e na única travessia de rio, que eu lembrava bem, a água não chegaria aos nossos joelhos. Isso fazia mais sentido pra mim. Esses encontros com outros trilheiros devem ser sempre encarados com reserva. Nem sempre as informações trocadas são corretas e o que é difícil para uma pessoa pode ser fácil para outra, e vice-versa. O ideal é não precisar dessas informações obtidas no caminho e saber ouvir com senso crítico.

Esse (ou essa) não é um guerreiro islâmico fundamentalista pronto para se explodir… Os mosquitos e tábanos (mutucas patagônicas) eram vorazes e perniciosos e picavam através das roupas. Foto: Justino Pereira.

Fizemos um acampamento selvagem às margens do Rio Avilés, ao lado de uma cabana desmoronada por um vendaval, que também derrubou uma árvore. Nós já estávamos na área do PARQUE PATAGÔNIA e não dispúnhamos de muitas opções de local para acampar. O terreno era acidentado e a vegetação densa. Mas imagino que no futuro próximo essas áreas estarão melhor estruturadas, com banheiros e afins, como é o padrão do parque. Um avanço em conforto, com certeza, mas também uma perda em aventura.

Dentro da cabana no Valle Hermoso podíamos desfrutar de algum conforto, do fogo e da proteção contra vento, mosquitos, tábanos, chuva e sol. Foto: Rodolpho Ugolini Neto.

No dia seguinte, terminamos de descer o longo Valle Avilés e chegamos ao fundo do monumental Valle Chacabuco, onde acampamos numa área conhecida como Casa de Piedra. Enquanto descíamos, o clima estava feio no Chacabuco e nós seguíamos diretamente para dentro da cortina de chuva. Nuvens cor de chumbo pareciam ameaçar inundar tudo. Era assustador. Mas tivemos sorte e a água só nos atingiu quando já estávamos próximos do acampamento. A expectativa de banho de água quente e um local fechado e protegido para cozinhar manteve o grupo tranquilo. A Casa de Piedra é uma área de camping “nível 5 estrelas”, onde eu havia dormido enquanto pedalava no treinamento de bikepacking dias antes.

Acampamento no Valle Avilés, ao lado da cabana desmoronada onde, em travessias anteriores, pude usar como cozinha. Foto: Rodolpho Ugolini Neto.

No jantar dessa noite, expus ao grupo as possibilidades para os próximos dois dias. Não conseguiríamos subir e descer o Cordón Chacabuco em direção à Laguna Guagua, como eu havia feito com o treinamento EXPEDIÇÃO PARQUE PATAGÔNIA em 2014. O cronograma estava apertado demais e isso poderia comprometer a fase final da aventura, quando deveríamos cruzar a RESERVA NACIONAL TAMANGO. Em vez disso, propus que subíssemos o Cordón Chacabuco, acampássemos no topo da montanha e voltássemos para a Casa de Piedra no dia seguinte. Um bate e volta que possibilitaria inclusive que uma parte do grupo ficasse descansando no acampamento. As três mulheres do grupo decidiram ficar e os homens optaram por encarar a montanha. E os dois dias seguintes acabaram sendo a maior “roubada” da viagem, dessas que a gente chora quando está fazendo, mas dá muita risada lembrando depois…

Trilha cortando o longo Valle Avilés em direção ao Valle Chacabuco. Foto: Justino Pereira.

Mas isso fica para o próximo capítulo!

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