THE SIX MOUNTAIN-TRAVEL BOOKS / ERIC SHIPTON

Eric Shipton (1907-1977) é um dos grandes nomes do montanhismo mundial. Inglês, nascido no antigo Ceilão, atualmente Sri Lanka, explorou a região do Karakoram entre Paquistão, Índia e China, conquistou o Monte Kenya da África, participou das expedições ao Monte Everest na década de 30 e, em 1951, explorou e mapeou a geleira Khumbu, onde hoje fica o Acampamento Base do Everest do lado nepalês, e o Colo Sul. Esse mapeamento inclusive solucionou o problema de rota de ascensão, possibilitando o sucesso da expedição de 1953, que levou Edmund Hillary e Tenzing Norgay ao cume do Everest.

Famoso por organizar e executar expedições de baixo orçamento, com poucas pessoas, usando o melhor que a tecnologia da época dispunha e antagônico ao estilo militar da época, de “sitiar e atacar a montanha”, Shipton foi retirado da direção da expedição ao Everest de 53. Seu estilo de montanhismo leve e rápido, utilizando inclusive escaladores de etnias locais, não combinava muito com a mentalidade aritocrática do Alpine Club e da Royal Geographical Society, que gerenciavam as expedições ao Himalaia na época. Depois disso, ele voltou sua atenção e energia para a Patagônia, onde conseguiu ser o primeiro (liderando uma equipe de quatro pessoas) a cruzar o Campo de Gelo Norte e o Campo de Gelo Sul.

Esse maravilhoso livro de 800 páginas, mapas, ilustrações e fotos em preto e branco, é o compêndio dos seis livros de montanhismo escritos por Shipton, entre eles Land of Tempest, que narra as expedições realizadas na Patagônia entre 1957 e 1966. Foi esse livro que terminei de ler.

Eu já estive em vários dos lugares visitados por Shipton e seus companheiros nessas expedições e pude comparar suas descrições com minha experiência. Muita coisa mudou e, ao mesmo tempo, pouca coisa mudou… A grande diferença agora é o acesso. Hoje existe a Carretera Austral, a Ruta 7, interligando toda a Patagônia chilena. Na época de Shipton todo acesso era feito por mar ou em deslocamentos por terra por precários caminhos de gado.

Shipton, como eu ou qualquer aventureiro minimamente sério hoje em dia, era entusiasta da tecnologia disponível para aventura. Ele descreve tecidos especiais, “quase impermeáveis”, modelos de trenós para puxar equipamento sobre o gelo que ”tomavam poucas horas para serem montados e desmontados”, barracas leves “com menos de 40 quilos”, calçados, cordas, fogareiros “eficientes que ocasionalmente explodiam e incendiavam barracas” e toda a parafernália que ainda hoje usamos em expedições. É engraçado ler como quatro aventureiros de ponta, em uma expedição de travessia do campo de gelo patagônico, usavam uma barraca de lona e varetas de ferro, para três pessoas, pesando 40 quilos e, mais engraçado ainda, ler que quando o mal tempo os segurava dentro da barraca por vários dias consecutivos, eles passavam o tempo fumando cachimbos! Imagine a poluição lá dentro!

Mas a Patagônia de Shipton persiste. Suas descrições das caminhadas de aproximação às montanhas e campos de gelo são idênticas a algumas travessias em trekking que fiz recentemente, por regiões ainda pouco visitadas na imensa região. Algumas de suas descrições casam perfeitamente com minha percepção de determinados lugares, como na sentença: “… the forest here was altogether different. There was a strange feel about it, eerie but not unfriendly, although it belonged to another geological age, or perhaps to a Hans Andersen story”. Em português: “… as florestas aqui são completamente diferentes. Havia nelas uma sensação estranha, lúgubre, mas não ameaçadora, como se elas pertencessem a outra era geológica ou, talvez, a um conto de Hans Andersen”.

Perfeito! Exatamente o que senti, por exemplo, ao cruzar a parte alta da Reserva Nacional Tamango em janeiro último, caminhando sozinho por 14 horas entre bosques sombrios e charcos infestados de pernilongos vorazes. Havia desconforto, mas não dava medo. Eu receava (e ao mesmo tempo desejava ardentemente) encontrar um puma, vi inclusive pegadas e senti o cheiro azedo da fera, mas não teria ficado surpreso se encontrasse um dinossauro.

Muitos dos roteiros percorridos por Shipton, desde a subida ao Monte Everest até as travessias dos campos de gelo patagônicos, são hoje possíveis aos turistas de aventura como você e eu. Isso se deve ao avanço tecnológico e a facilidade de acesso. Voar até o Nepal hoje é tão fácil quanto era voar dentro da Europa para Shipton. O equipamento que Shipton usava (e que ele descreve minuciosamente) tornava os deslocamentos lentos, cansativos, desconfortáveis e temerosos. Hoje, temos à nossa disposição artefatos como roupas e calçados de alta tecnologia, tefelonia celular e satelital, Global Positioning System (GPS) com cartas topográficas atualizadas, sistemas de captação de energia solar, ligas leves de metal e fibra de carbono na composição de quase todo item de equipamento, enfim, infinitamente mais do que Shipton e outros exploradores, não faz muito tempo, jamais sonharam.

Ler narrativas como essas, do The Six Mountain-Travel Books, serve de consolo e inspiração. Consolo, quando pegamos tempo ruim, nos molhamos, sentimos frio, passamos desconforto e até perigo. Basta então lembrar como tudo era muito mais difícil há pouco tempo atrás. Inspiração, ao apreciarmos um estilo de vida simples e comprometido, mesmo diante de adversidades muito maiores do que aquelas que enfrentamos hoje. Um tempo em que desafios físicos e psicológicos eram encarados como elementos fundamentais na formação do caráter. Hoje em dia, o lema parece ser o inverso: quando mais conforto e comodidade, melhor. Resta saber que tipo de caráter essa filosofia de vida criará.

The Six Mountain-Travel Books
Eric Shipton
Bâton Wicks / The Mountaineers
1999
800 páginas
ISBN 9780898865394 – 53800