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AVENTURAS AUSTRAIS 2017-2018 (PARTE 2)

gui 08/02/2018 0

Relato e fotos da temporada de expedições da KALAPALO EDITORA na Patagônia chilena durante o verão de 2017/18 

Scott Scale 710 Plus de Guilherme Cavallari no Valle Exploradores. Bolsas de guidão e selim Ortlieb, bolsa de quadro Aresta.

Ricardo Bueno de Paula, um mineiro de 46 anos, residente em Brasília (DF) há quase 30 anos, foi meu companheiro nessa viagem de bikepacking pela Carretera Austral. Nós só nos conhecíamos por e-mail, até que ele escreveu dizendo estar interessado na EXPEDIÇÃO TRANSPATAGÔNIA BIKEPACKING. Como era preciso avaliar seu condicionamento físico, checar seu equipamento e entender seu perfil psicológico, combinamos que ele participaria de uma viagem de mountain bike pela Serra da Mantiqueira comigo no feriado de Corpus Christi, um treinamento que rolou de 15 a 18 de junho, chamado de BIKEPACKING MANTIQUEIRA 2017. Para essa cicloviagem de quatro dias e 200 km de extensão usamos meu livro GUIA DE TRILHAS CICLOMANTIQUEIRA, que traz toda a Serra da Mantiqueira mapeada para cicloturismo em mountain bike.

Ricardo Bueno de Pala, 46 anos, na partida para o treinamento Mantiqueira Bikepacking 2017, realizado em junho no Refúgio Kalapalo.

Bikepacking é um nome novo para uma atividade antiga: viajar de bicicletas por trilhas e acampar selvagem de forma autossuficiente. A diferença é que, de cinco ou seis anos pra cá, surgiram novas bolsas, novas bikes e uma série de equipamento e tecnologia que tornaram a atividade mais viável, mais acessível, mais segura e mais versátil. No CURSO DE BIKEPACKING que ministro regularmente abordo com profundidade o tema do equipamento, assim como as questões de acampamento selvagem de mínimo impacto ambiental, de navegação, de primeiros socorros e explico um pouco sobre de técnicas de pilotagem.

Alunos do CURSO DE BIKEPACKING realizado regularmente no REFÚGIO KALAPALO.

Aos interessados em conhecer um pouco mais sobre bikepacking, sugiro a leitura dos textos BIKEPACKING: ACAMPAMENTO ULTRALEVE, onde aponto as formas e o equipamento disponível no mercado; BIKEPACKING: A MARCHA DA VOVOZINHA, onde explico a relação ideal de marchas para esse tipo de atividade; BIKEPACKING: TIPOS E ESTILOS, onde escrevo sobre as principais tendências mundiais; BIKEPACKING: KIT DE MECÂNICA DE EMERGÊNCIA, onde explico em detalhes as ferramentas e peças sobressalentes que devem ser levadas numa viagem e, finalmente, BIKEPACKING: INTRODUÇÃO E CONCEITOS.

Kit básico de mecânica de emergência, conforme mostrado no texto do blog e ensinado no CURSO DE BIKEPACKING.

A primeira grande dúvida de qualquer novato no cicloturismo internacional acho que é “como faço pra despachar a bike no avião”? E essa é uma pergunta muito importante. No livro MANUAL DE MOUNTAIN BIKE & CICLOTURISMO dediquei uma página inteira, a última da publicação, só para isso. Vale a pena checar! Mas, resumidamente, é preciso desmontar tudo o que pode ser quebrado no transporte, proteger tudo com embalagem resistente e tornar o volume a ser despachado firme e sólido. Voando pela LATAM, de São Paulo a Santiago do Chile tive que pagar uma taxa adicional, especial para bicicletas, de U$ 50. Depois para voar de Santiago a Balmaceda — o aeroporto mais próximo da cidade de Coyhaique, de onde nossa aventura começou — tive que pagar mais U$ 30. No voo de volta a São Paulo paguei apenas U$ 50 pelas duas pernas, mas isso parece estar relacionado com os trâmites de imigração e alfândega. Ou seja, despachar a bike custou U$ 130 totais. E por estar desmontada e bem embalada, o equipamento chegou inteiro.

Guilherme Cavallari no Valle Exploradores. Foto: Ricardo Bueno de Paula.

Escolhi pedalar nessa aventura uma SCOTT SCALE 710 PLUS, uma mountain bike de alumínio, disponível no Brasil, de traseira rígida, com aros 27.5 e pneus de 2.8 polegadas sem câmaras (tubeless). Essa é a melhor bike que já tive para expedições e não me imagino mudando de equipamento tão cedo! Os pneus mais largos, que permitem calibragem de ar baixa por não terem câmaras de ar, oferecem mais aderência, mais conforto, mais segurança e não acrescentam arrasto. Eu quase não percebo que estou mais “emborrachado” do que o normal. Seria possível até para excluir a suspensão dianteira — e esse inclusive será meu próximo passo com essa bike. Estou usando um kit de bolsas de guidão e de selim da marca alemã ORTLIEB, totalmente estanques (mais do que impermeáveis porque podem ser submersíveis), e uma bolsa de quadro da marca brasileira ARESTA EQUIPAMENTOS, de Florianópolis, que não é à prova d’água. Também não penso em mudar essa combinação tão cedo.

Guilherme Cavallari e sua Scott Scale 710 Plus com bolsas de guidão e selim Ortlieb e bolsa de quadro Aresta.

Na bolsa de guidão levo todo meu acampamento, com barraca, saco de dormir e isolante térmico inflável. Tudo compacto e ultraleve. Estou usando um quilt (um saco de dormir em formato de coberta, sem zíper ou capuz) chamado EMBER (EB-II) da marca australiana SEA TO SUMMIT. Meu isolante térmico é o ULTRALIGHT INSULATED também da SEA TO SUMMIT. Sobra espaço na bolsa de guidão para guardar ainda a toalha de banho, o kit de higiene pessoal e um reservatório vazio de água com capacidade de 4 litros. Essa bolsa de guidão tem uma bolsa de acessórios, comprada separadamente, onde carrego lanterna, pilhas, baterias, celular desligado, monóculo, cobertor de emergência, máquina fotográfica compacta, cuia de comer, colher, canivete e mais uma ou outra tralha pequena. Coisas que quer ter à mão a qualquer hora. Na bolsa de selim vai toda minha roupa e a panela de titânio de 1,3 litros cheia de comida. Na bolsa de quadro vai o fogareiro e toda a comida para uma semana de viagem. Carrego ainda uma pequena bolsa com todas as minhas ferramentas amarrada ao quadro da bike e uma garrafa de combustível.

Quilt EB-II e isolante ULTRALIGHT INSULATED da marca australiana disponível no Brasil SEA TO SUMMIT. Quilt é um tipo de saco de dormir sem zíper e sem capuz, mais leve, mais compacto e tão eficiente quanto um saco convencional. 

Flow 35 Drypack

Tem gente que se recusa terminantemente a usar mochilas na bike. Eu não tenho esse preconceito. Muito pelo contrário, adoro usar sistema de hidratação e não me importo de pedalar com 3 litros d’água nas costas. Acho que passar sede é pior do que o peso. Levo na mochila também a jaqueta, a calça comprida e as luvas impermeáveis, o lanche de trilha, uma camiseta seca e às vezes um corta-vento. Estou usando uma mochila estanque da SEA TO SUMMIT chamada FLOW 35 DRYPACK, que não troco por nada. Minha segunda opção seria uma DEUTER TRANSALPINE 30.

O Ricardo optou por um sistema de transporte de equipamento improvisado, que uso no CURSO DE BIKEPACKING e que ensinei a ele para nossa viagem BIKEPACKING MANTIQUEIRA 2017. Ele usou duas bolsas estanques BIG RIVER de 20 litros da SEA TO SUMMIT amarradas à bike por fitas também SEA TO SUMMIT chamadas ACCESSORY STRAPS de 20 mm de largura. Funciona superbem e é muito mais barato do que qualquer bolsa importada de guidão e de selim. Bikepacking também é improvisação.

Ricardo e eu nos encontramos em Coyhaique no dia 26 de dezembro de 2017 e passamos dois dias na cidade comprando comida e combustível, verificando o equipamento e arrematando os detalhes finais antes da partida. Nosso objetivo era pedalar até a cidade de Cochrane, mais ao sul na Carretera Austral, usando meu GUIA DE TRILHAS CARRETERA AUSTRAL como referência, e explorar o Valle Exploradores e o Valle Chacabuco no caminho. A intenção era pedalar entre 600 e 700 km e acampar selvagem todas as noites. Nós tínhamos 12 dias para isso.

Bikes prontas, equipamento completo, suprimentos adquiridos e apropriadamente embalados, nossa pequena expedição de bikepacking pela Patagônia chilena estava pronta para zarpar…

A história continua no próximo capítulo.

Até breve!

Guilherme Cavallari e a KALAPALO EDITORA contam com o apoio das marcas: