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HIGH MOUNTAINS AND COLD SEAS / J. R. L. ANDERSON

Capa HIGH MOUNTAINS AND COLD SEASH. W. Tilman, ou Harold William Tilman, ou simplesmente Bill Tilman, como ele ficou mundialmente conhecido, pode ser considerado o mais completo explorador do século XX. Um título que, caso estivesse vivo hoje, ele provavelmente rechaçaria com desdém e pouco caso. Filho de um bem sucedido negociante de açúcar inglês, Tilman entrou muito jovem para uma academia militar e, aos dezessete anos ainda, foi lutar no front da Segunda Guerra Mundial. Sobreviveu a quase três anos de batalhas como oficial de artilharia, uma função em que a média de tempo que alguém nessa função sobrevivia era onze dias. Foi ferido, se recuperou e retornou ao front e duas vezes condecorado por bravura.

Depois da guerra, Tilman decidiu viver na África, onde conheceu Eric Shipton, com quem montou uma sólida e eficiente parceria em montanhismo que durou quase duas décadas. Escalou o Kilimanjaro, Monte Quênia, Kibo, Mawenzi e cruzou a África de lesta para oeste de bicicleta em 1933. Algo até então inédito.

A partir de 1934, escalou no Himalaia pela primeira vez, quando fez o reconhecimento e mapeamento da montanha Nanda Devi, de 7.816 m de altitude. Nos anos seguintes fez o reconhecimento da via norte do Everest, conseguiu chegar ao cume do Nanda Devi com o escalador britânico Noel E. Odell (última pessoa a ver Geoge Mallory e Andrew Irvine ainda vivos, escalando em direção ao cume do Everest, em 1924), liderou a expedição britânica ao Everest em 1938.

Lutou na Segunda Guerra Mundial, novamente como oficial de artilharia, na França, Índia, Iraque e norte da África. Ofereceu-se como voluntário para treinamento como paraquedista (e foi aceito, aos 44 anos de idade) para em seguida serviu, por dois anos, como líder de guerrilha na Albânia e no norte da Itália até o fim da guerra. Foi novamente condecorado e é herói da cidade italiana de Belluno.

A partir de 46 voltou à ativa como montanhista e escalou e explorou áreas remotas e não mapeadas no Paquistão, Afeganistão (onde foi preso como espião pelo exército local), China e Nepal. Foi cônsul britânico em Myamar (antiga Burma) e, aos 55 anos, desistiu de escalar as montanhas mais altos do planeta para tornar-se um velejador e explorador pelos mares.

Com seu mais famoso barco, o veleiro de madeira de 44 pés Mischief, navegou o Atlântico até a Patagônia, cruzou para o Pacífico pelo Estreito de Magalhães, embrenhou-se pelos canais chilenos e cruzou o Campo de Gelo Patagônico Norte, ida e volta, do mar até o Lago Argentino. Um feito até então inédito. Velejou a costa da Groenlândia, Islândia, diversas ilhas no Círculo Polar Ártico e Antártico, sempre buscando montanhas remotas, isoladas, de acesso quase impossível, para escalar, explorar e mapear. Naufragou dois veleiros em águas geladas.

Em 1977, aos 79 anos de idade, depois de ancorar brevemente no Rio de Janeiro, Tilman e a tripulação do veleiro de aço Em Avant, capitaneado por Simon Richardson, desapareceram no oceano em rumo às Ilhas Falkland (Malvinas, para os argentinos).

Esse fantástico livro, escrito pelo montanhista e um dos muitos companheiros de escaladas de Tilman, John Richard L. Anderson, narra com inspiração, sensibilidade, conhecimento e muito respeito a vida (longa e rica) de um homem que se destacou, com humildade e sem alardes, em tudo que fez. A herança que Tilman e Shipton deixaram para o montanhismo é reverenciada por escaladores de várias gerações depois deles.

“Qualquer expedição séria pode ser planejada no verso de um envelope”, é uma das mais célebres frases de Tilman. Um exemplo clássico da simplicidade e objetividade que marcaram sua vida. Depois do modelo de eficiência demonstrado por Shipton e Tilman, como a parceria ficou conhecida, as expedições às montanhas mais altas do mundo nunca mais foram as mesmas. Antes, eram necessários centenas de carregadores e animais de carga para que meia dúzia de montanhistas pudessem arriscar o cume. Depois, bastavam dois escaladores e mais dois sherpas-escaladores para qualquer pico ser conquistado. Shipton e Tilman foram pioneiros em enxergar nos sherpas escaladores parceiros e não simplesmente ajudantes de segunda ordem. Um dos sherpas introduzidos e treinados por eles, aos dezenove anos de idade, foi Tenzing Norgay, que em 1953 chegou ao cume do Monte Everest ao lado de Edmund Hillary.

Tilman escreveu 15 livros com narrativas de suas aventuras, tanto nas montanhas quando no mar, todos considerados clássicos da literatura do gênero.

Tenho Tilman como modelo e fonte de inspiração. Nos cursos que ministro (trekking, mountain bike e cicloturismo) sempre cito seu exemplo e conto um pouco de sua história de vida, mesmo antes de ter lido essa biografia. Assim como ele, acredito que para participar de expedições e viagem de exploração e aventura, “basta colocar a botas e sair”. Essa foi a resposta que Tilman deu a uma cadete, numa palestra em uma escola militar, quando perguntado como alguém podia começar na aventura.

Cold Mountains & Cold Seas – a biography od H. W. Tilman
J. R. L. Anderson
1980
The Mountaneers (editor)
366 páginas
ISBN 0898860083
www.mountaineersbooks.org