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CAMINHOS DA MANTIQUEIRA FILME DOCUMENTÁRIO / GALILEU GARCIA JR.

Eu estava com a cabeça no sul do Brasil, só pensava em terminar o mapeamento do Guia de Trilhas Serra Geral (BluGrama) (LINK PARA MATERIAL SOBRE O LIVRO NO SITE), quando tocou meu telefone… Um cara chamado Galileu Garcia Jr me convidava para participar de um documentário sobre a Serra da Mantiqueira…“Tenho seu livro Guia de Trilhas cicloMANTIQUEIRA”, disse ele entusiasmado. “Adorei o livro, a viagem que você fez, o projeto… Você com certeza é um apaixonado pela Mantiqueira como eu… Quero que você participe do meu projeto!”. E seguiu explicando que se tratava de um documentário sobre um lugar, uma região, focando em seus personagens…

De cara eu disse “sim”. Com podia não participar? A Serra da Mantiqueira faz parte das minhas primeiras recordações de aventura… Eu devia ter 15 ou 16 anos quando subi pela primeira vez a Pedra do Baú com seis amigos da minha idade. Nenhum de nós tinha experiência prévia em montanhismo. Bivacamos no topo sem sacos de dormir, sem cobertores, sem capa de chuva, mal agasalhados, sem água ou comida suficiente – só balas e bolachas (coisa de moleque). Choveu a noite toda. Relâmpagos batiam na pedra e nos davam pequenos (e grandes) choques. Ficamos todos literalmente de “cabelos em pé”. Passamos um medo desgraçado, com frio, fome e sede. Fiquei traumatizado? Não, absolutamente. Fiquei contaminado depois disso… Viciado em aventura.

Num segundo momento, depois de desligar o telefone e combinar minha viagem a Campos do Jordão para encontrar a equipe de filmagem (o Galileu providenciou um carro com motorista para vir me buscar em casa e me trazer de volta, com bicicleta e tudo, verdadeiro tratamento de estrela de Hollywood!), comecei a pensar se era justo eu ser tratado como “personagem da Mantiqueira”…

Passei muitos anos visitando a região, cada vez mais apaixonado. Quando trabalhei como assessor de marketing na Secretaria Estadual do Meio Ambiente, em 99, a única boa recordação que guardei da época foi um chalé à minha disposição no Horto de Campos do Jordão. Frequentei o parque quase todos os finais de semana por meses. Pedalei até enjoar da região (como se isso fosse possível!) e nunca tomei um chocolate quente melhor na vida do que aquele servido no restaurante do Horto… Nem na Suíça!

Lembrei da primeira vez que fui de bicicleta (fiz isso mais de uma vez) da minha casa, no bairro do Sumaré, em São Paulo, até Campos do Jordão pela Ayrton Senna, Dutra e depois pela Serra Velha. Fomos eu e um amigo, Bill Presada. Saímos tarde, pegamos um pouco de chuva, era inverno e fazia muito frio. Anoiteceu e nós estávamos ainda em Monteiro Lobato. Não tínhamos faróis nas bikes, pegamos uma entrada errada e fomos parar em São Francisco Xavier. Exaustos e hipotérmicos, fomos abrigados pelo Posto de Saúde local. Tomamos canja de galinha sentados em macas de hospital, enrolados nos cobertores emprestados de uma ambulância – gentilezas de uma enfermeira caridosa.

Em outra ocasião aluguei com minha mulher, Adriana, uma casinha rural em Gonçalves por um mês. Era verão, fazia um calor brabo e eu descia quase todo dia pelo Serrano para tomar sorvete em São Bento do Sapucaí… E depois subia tudo de volta, claro.

Noutro verão, nós alugamos um chalé em Maringá, bairro de Visconde de Mauá. Acho que foi quando fiz yoga pela primeira vez na vida. Novamente a bike estava comigo e eu explorei a região o quanto pude. Lembro de ter fotografado uma procissão de músicos na Festa de Reis na cidadezinha de Santo Antônio. Parecia que eu estava em outro tempo, anos luz de São Paulo.

Em 2001, fui de mountain bike com um amigo, Claudio Bessa, numa tandem (bike dupla) com um trailer acoplado, da Serra da Cantareira até Petrópolis para escalar o Dedo de Deus. Pedalamos por 21 dias boa parte da Mantiqueira… Nazaré Paulista, Piracaia, Joanópolis, Monte Verde, São Bento do Sapucaí, Delfim Moreira, Passa Quatro, Itamonte, Bocaina de Minas, Santa Rita de Jacutinga, Conservatória, Vassouras, Miguel Pereira e Petrópolis. Choveu quatro dias sem parar na Serra dos Órgãos quando nós chegamos e terminamos não subindo o Dedo de Deus. Mas no caminho escalamos a Pedra do Picú, a Pedra do Baú, a Pedra do Guaraiúva, fizemos cascading em Passa Quatro, remamos caiaques na represa de Nazaré Paulista e finalizamos a aventura com a travessia Petrópolis-Teresópolis em 8 horas e meia, por total falta de tempo.

A lista de experiência na Mantiqueira continua e vai longe, com o mapeamento das principais travessias em trekking na região e culmina, em 2010, com a produção do Guia de Trilhas cicloMANTIQUEIRA – um roteiro que criei de 30 dias e 1.168 km de trilhas, de Extrema a Ibitipoca, ida e volta por caminhos alternativos diferentes. Até o recente lançamento o Guia de Trilhas Serra Geral (BluGrama), esse foi por dois anos “o maior roteiro de cicloturismo e mountain bike do Brasil”.

Bem, talvez no final eu tenha histórico suficiente na Mantiqueira para participar de um documentário… Sei lá.

Fazer parte desse documentário, Caminhos da Mantiqueira, foi um prazer cheio de recordações. O produto final, que só assisti meses depois de lançado, ultrapassou em muito minhas expectativas – se eu tinha alguma. A decisão do diretor, de fazer uma abordagem da Serra da Mantiqueira a partir de seus personagens, não poderia ter sido mais acertada. Não que a região não ofereça qualidade e quantidade suficientes de paisagens exuberantes para produzir um longa-metragem, longe disso. Na verdade fica difícil escolher os lugares mais bonitos para captar imagens na Mantiqueira. Eu sei por que já tentei. Mas a riqueza humana é sempre mais inesperada, está mais escondida, reservada, e sua descoberta resulta em mais espanto, mais impacto, maior felicidade. Galileu foi mais que um pesquisador, foi um antropólogo desbravador, um arqueólogo de tesouros humanos escondidos.

A Serra da Mantiqueira, por guardar algumas das montanhas mais altas do Brasil, por dividir estados de muita importância na história nacional, é repleta de passado e de histórias. Sua geografia dificultou a colonização da região e manteve comunidades isoladas por muito tempo. Ilhas culturais se formaram e foram preservadas junto com a natureza local. O elo de ligação entre essas comunidades de etnia tão distintas – alemães, italianos, portugueses, índios, quilombolas – foi sempre o tropeirismo. O resultado, que vemos hoje, é um caldeirão multicultural fervente e criativo de verniz caipira. O filme deixa isso claro, transparente.

Algum outro entrevistado no documentário disse algo que eu sempre pensei e já cheguei inclusive a comentar por aí… Que a Serra da Mantiqueira é uma região tão peculiar que chega a ser independente. É exatamente assim que eu vejo, assim que sempre senti. Por isso lanço aqui a proposta… Que se concretize uma congregação alternativa, humanitária, orgânica, artística, livre, aventureira, ecológica, ecumênica na região… Que se forme a República Independente da Mantiqueira – onde a araucária, a viola, o céu azul, a mata verde, um rio cristalino e uma bicicleta (substituindo a mula tropeira), figurem no brasão oficial! Eu me candidato a Faxineiro Oficial! Trabalho voluntário, remunerado apenas com pinhão!