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EDWARD ABBEY, A LIFE / JAMES M. CAHALAN

EDWARD ABBEY A LIFE book coverO problema de ser iconoclasta nos Estados Unidos é que existem ícones demais! Nem o Império Romano no auge da sua dominação mundial exportou tantos modelos e padrões – de vestimenta, alimentação, diversão, economia, política, comportamento, religião, pensamento, etc., etc., etc. – como a terra do Tio Sam. Colonização cultural? Não. Marketing comercial mesmo. Mas o país também produziu – em escala infinitamente menor, é verdade – alguns bons exemplos de contracultura e ácida crítica interna. Poucos com a dimensão e abrangência de Edward Abbey.

Nascido no interior do estado da Pensylvannia em 1927, na conservadora costa leste dos Estados Unidos, filho de um proletário comunista e de uma professora do ensino fundamental, Abbey não demorou a adotar para si o lema norte-americano de busca de liberdade e independência: “Vá para o oeste!”. Aos 15 anos, viajou por três meses de carona, durante as férias escolares, em direção ao Oceano Pacífico. A mítica terra dos caubóis e a vida de vaqueiro apresentavam, através de livros e filmes, um modelo de vida simples e verdadeira num mundo em rápida transformação. Mais um modelo!

Abbey viveu um período agitado da história de seu país. A Depressão da década de 1930, o horror da Segunda Guerra Mundial na década de 1940 (ele serviu no exército do pós-guerra na Itália atrás de uma escrivaninha) e a explosão industrial e econômica das décadas de 1950 e 1960, deixaram suas marcas no jovem tímido e inteligente, alto e atlético, sensível e irrequieto demais para não questionar o mundo à sua volta. Desde sempre, ele identificou na natureza um equilíbrio que transcendia a história e adotou – além do álcool do sexo – a vida ao ar livre como um de seus “vícios” ou “antídotos”.

Seus dois livros mais famosos – Desert Solitaire e The Monkey Wrench Gang, ambos com resenhas aqui no site – mesclam, de forma distinta, seus vícios e suas paixões. Desert Solitaire apresenta Abbey como protagonista numa espécie de “diário de guarda-parque”. Abbey trabalhou por décadas como guarda-parque em diversas áreas de proteção ambiental por todo o país. Suas descrições do mundo natural são fortes e quase líricas, dessas que transformam qualquer momento num evento inesquecível, mas ao mesmo tempo banais e simplesmente humanas. Ele é capaz de descrever o pôr do sol mais sublime e terminar a cena mijando num arbusto.

The Monkey Wrench Gang é uma ficção grotesca e picaresca, uma comédia juvenil e cáustica, uma crítica social sem pudor ou censura. Uma arma carregada nas mãos de uma criança. O enredo apresenta um grupo eclético e incongruente – que mistura um médico alcoólatra e cínico, uma jovem e sexy judia de New York perdida no oeste, um mórmon polígamo guia de rafting no Grand Canyon e um veterano do Vietnam meio psicopata e meio herói – que se junta para fazer justiça com as próprias mãos e vingar a natureza, vítima da expansão econômica a qualquer custo. The Monkey Wrench Gang causou alvoroço nos Estados Unidos e inspirou o surgimento do movimento ambientalista radical Earth First!, considerado como terrorista pelo FBI.

Abbey foi também um grande ensaísta. Suas muitas coletâneas de crônicas, a imensa maioria autobiográfica, tratam de temas nacionais complexos e delicados como a imigração ilegal, o movimento de libertação da mulher, o uso de propriedades públicas por rancheiros criadores de gado, o comércio irrestrito de armas de fogo e a função do escritor na sociedade, entre outros. Mas, do seu jeito, ele sempre terminava “mijando no arbusto”.

O livro EDWARD ABBEY – A LIFE, do pesquisador e escritor norte-americano, especialista em literatura irlandesa, James M. Cahalan, propõe desmistificar o mito Edward Abbey. Tarefa difícil. Como grande parte da extensa obra de Abbey é “autobiográfica com liberdade artística” e ele não tinha pudor em escrever, ou viver, não faltam mitos, lendas e fatos bizarros em sua história. Quanto, por exemplo, de “pesquisa de campo” o autor de The Monkey Wrench Gang precisou realizar para escrever a obra? Quanto de sua narrativa autobiográfica é fantasia? E mesmo na morte ele alimentou a imaginação de seu público. Assim que ele morreu, em março de 1989, quatro amigos transportaram seu corpo dentro de um saco de dormir na caçamba de uma picape – segundo instruções detalhadas do próprio Abbey – e enterraram seu corpo no meio da natureza selvagem. O local do sepultamento ilegal permanece até hoje um mistério.

James Cahalan fez um trabalho magnífico com esse livro. Não dá para saber se ele já era fã de Abbey antes de produzir sua biografia, mas fica claro no texto o quanto de admiração foi posto no papel. Em vez de tentar desconstruir o mito com a realidade, Cahalan usou a realidade para justificar o mito. Edward Abbey deixou uma forte marca, com seus livros e atitudes, que transcendem a geração com conviveu com ele.

Frasista célebre, Abbey gostava de dizer que “o crescimento ilimitado é a ideologia da célula do câncer”. Outras de suas frases imortais são:
“A natureza selvagem não precisa de defesa, precisa de mais defensores”.
“Um mundo sem espaço aberto seria uma prisão universal”.
E a melhor de todas:
“Como vencer o sistema? Faça sua própria cerveja, destrua a pontapés sua TV, mate sua própria carne, construa sua própria cabana e mije da varanda quando você bem entender”.

Leia também a resenha de Fire On The Mountain aqui no site, também de Edward Abbey.

Edward Abbey, A Life
James M. Cahalan
2001
The University of Arizona Press
358 páginas
ISBN 9780816522675