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FIRE ON THE MOUNTAIN / EDWARD ABBEY

FIRE ON THE MOUNTAIN coverEdward Abbey é uma figura mítica nos Estados Unidos. Intelectual, filósofo, poeta, professor universitário, trabalhador braçal, vagabundo profissional, aventureiro, escritor de romances autobiográficos e fantasiosos, ensaísta, ativista ambiental, provocador cultural, crítico social e metido a cowboy, ele criou e solidificou um tipo de literatura reverenciada até hoje como única e genuína em seu país: a não-ficção criativa e fantasiosa.

Perseguido e atacado nos Estados Unidos durante o longo período da Guerra Fria como “possível inimigo do país”, o anarquista (anti-governo), anti-religião, anti-militarização, anti-desenvolvimento industrial, anti-capitalismo, anti-totalitarismo e anti-rótulos Abbey colecionou inimigos, livros publicados e uma longa ficha no FBI.

Fiel às suas raízes e história, Abbey adotou o batido slogan “Vá para o Oeste!” como antídoto à padronização e pasteurização do povo americano imposto pelo modelo sócio-econômico pós- Segunda Guerra Mundial. Nada muito diferente do que fez, por exemplo, Jack Kerouac – autor do clássico livro “beatinik” ON THE ROAD – e tantos outros insatisfeitos, artistas ou não. Na cultura estadunidense, o oeste sempre representou liberdade e autonomia.

Abbey é considerado o “pai dos movimentos ambientalistas”, como o Earth First!, e seu mais famosolivro, THE MONKEY WRENCH GANG (link para resenha aqui no site), é praticamente um panfleto didático para a “guerrilha verde” e o “ativismo ambiental de emboscada”, recheado de bom-humor e personagens inesquecíveis.

Embora nascido no estado da Pennsylvania, na costa leste dos Estados Unidos, Abbey adotou o estado do Arizona como residência e é considerado nos Estados Unidos como um dos escritores que melhor retratou o “verdadeiro, embora moribundo, espírito do mítico oeste”.

O livro FIRE ON THE MOUNTAIN – terceiro romance de Abbey, lançado em 1962 – narra a vibrante história de um velho fazendeiro no estado de New Mexico, quase na fronteira com o México, que se vê acossado a acuado por forças governamentais que querem tomar sua pequena e pobre propriedade. O período deve ser entre o fim da década de 50 e o começo da década de 60, a Guerra Fria está a todo vapor e o Departamento de Defesa precisa do deserto para realizar testes de mísseis balísticos anti-soviéticos.

O velho fazendeiro, John Vogelin, representa valores antigos e anacrônicos de respeito à terra, à história, às tradições e à simplicidade, incompatíveis com o desenvolvimento, o enriquecimento e a segurança nacional. Os Estados Unidos viviam o rebote da Grande Depressão e faturavam em cima da destruição causada pela Segunda Guerra Mundial. Uma ex expansão econômica jamais vista na história da humanidade. “O crescimento pelo crescimento é a ideologia da célula do câncer”, criticava Edward Abbey.

Mas como diz a contracapa de FIRE ON THE MOUNTAIN… “Um velho osso-duro-de-roer é como um puma: se você o encurrala num canto, ele não entrega os pontos sem lutar”.

FIRE ON THE MOUNTAIN é um livro maduro de um escritor com uma mensagem a passar. O narrador da história é um menino de 12 anos de idade, neto de John Vogelin, que passa as férias de verão brincando de caubói no rancho da família e se vê apaixonado. Tudo à sua volta parece tão verdadeiro e tão repleto de beleza que só pode ser fantasia. O enredo se desenvolve entre revelações sublimes e decepções infames. Fantasia e realidade se mostram incompatíveis e complementares, crescer é um processo doloroso.

No horizonte da narrativa estão as Rocky Mountains, as Montanhas Rochosas que cortam os Estados Unidos de norte a sul, dividem as bacias hidrográficas dos oceanos Atlântico e Pacífico, separam passado e futuro, realidade e fantasia, apartam o empirismo funcional da costa leste da promessa de liberdade e autossuficiência do oeste norte-americano. Não coincidente esse trecho das Rochosas é chamado de Thieves’ Mountains – as “Montanhas dos Ladrões” – que o personagem Lee Mackie, o estereótipo do caubói de Abbey, questiona:

“A terra pertence a alguém? Cem anos atrás ela pertencia aos Apaches, os pioneiros vieram e roubaram a terra dos índios. A ferrovia, os latifúndios pecuaristas e os bancos tentaram roubá-la dos pioneiros. E agora o governo quer roubar essas terras. Esse lugar sempre foi povoado de ladrões! Por isso a montanha ganhou esse nome. Daqui a cem anos, quando nós estivermos mortos e esquecidos, a terra ainda estará aqui. A mesma terra sem valor, torrada de sol, ressecada e coberta de areia e cactos de sempre. E algum outro ladrão vai cercá-la e berrar ao mundo que ela pertence a ele”.

FIRE ON THE MOUNTAIN apresenta muito do universo de Edward Abbey, um misto de beleza e crueldade, angústia e paixão. Um desses pequenos livros que causam grandes surpresas.

Fire On The Mountain
Edward Abbey
1962
Perennial / Harper Collins Publishers
182 páginas
ISBN 9780380714605