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THE HEART OF THE FOREST / ADRIAN COWELL

THE HEART OF THE FOREST“Uma noite, enquanto balançávamos em nossas redes, pensei sobre o significado da nossa expedição. Pensei em como este planeta sempre manteve lugares remotos e não mapeados onde pudemos situar nossos sonhos fantásticos. Alguns poucos centímetros em branco num mapa onde cidades perdidas, dinossauros vivos e montanhas de ouro podiam existir na imaginação. Pontos em que – até onde qualquer um sabia – tudo isso podia de fato existir. E nosso objetivo era destruir essa tradição. Nós lutávamos na floresta para proclamar a conquista sobre o maior de todos esses “espaços em branco” e sobre o maior de todos os sonhos. Morte à floreta! Morte às lendas! Morte ao último El Dorado!”

Essa passagem do livro THE HEART OF THE FOREST, do premiado cineasta Adrian Cowell, resume bem o espírito e o tema abordados pelo texto. Cowell (1934-2011) participou da expedição ao Centro Geográfico Brasileiro de 1957/58, liderada pelos irmãos Cláudio e Orlando Villas-Bôas. Uma expedição ao nada. Uma expedição ao centro de tudo.

Para entender melhor o livro, é preciso conhecer um pouco da história… E tudo começou em 1943, quando os irmãos Villas-Bôas – Orlando, Cláudio e Leonardo – ingressaram na Expedição Roncador-Xingu para explorar uma gigantesca área não mapeada no meio do Brasil. Em pouco tempo os Villas-Bôas tornaram-se líderes da investida contra a floresta e, apadrinhados por Cândido Mariano da Silva Rondon (conhecido como Marechal Rondon), passaram a se preocupar e a lutar pela “Questão Indígena”.

Quando Adrian Cowell chegou ao Xingu para filmar a Expedição ao Centro Geográfico Brasileiro, Brasília estava em plena construção e o então presidente da república, Juscelino Kubitschek, estabelecera como meta principal o desenvolvimento do interior do país e a descentralização do poder. Nesse contexto, a floresta amazônica representava o maior de todos os obstáculos ao desejado desenvolvimento nacional e seus habitantes – índios de diferentes etnias – eram pedras no sapato.

A expedição em si durou pouco mais de um mês, mas como seu início tardou mais de nove meses, Cowell terminou permanecendo isolado no Xingu por quase um ano. Tempo suficiente para que ele deixasse de pensar na “Questão Indígena” e passasse a vivê-la, como já faziam os Villas-Bôas.

THE HEART OF THE FOREST narra com delicadeza poética e sensatez antropológica a aproximação do “civilizado” com o índio. Dia a dia, noite a noite, chuva a chuva, caçada a caçada, o inglês é obrigado a se “indianizar” para sobreviver às agruras da floresta. Vencidos os problemas de adaptação física e psicológica – fome, sede, calor, desconforto, medo – surgem os problemas de caráter filosófico. “Como ajudar o índio sem transformá-lo?”. “Como não transformar o índio e mesmo assim ajudá-lo a enfrentar o inevitável choque com o civilizado?”. Perguntas até hoje sem respostas.

Depois de escrever THE HEART OF THE FOREST e produzir uma série de documentários sobre a América do Sul para BBC de Londres durante essa viagem, Cowell voltou ao Brasil e filmou, de 1967 a 1969, a expedição dos Villas-Bôas que fez contato com a tribo de índios isolados Paraná ou Krenakore. Os livros e documentários produzidos dessa segunda experiência – The Tribe that Hides from Man e Kingdom in the Jungle – ganharam prêmios pelo mundo todo.

Cowell foi fundamental na conscientização internacional sobre os problemas do desmatamento da floresta amazônica e do genocídio das populações indígenas. Amigo dos Villas-Bôas, tornou-se amigo também de Chico Mendes e lutou até seus últimos dias de vida pela preservação ambiental e cultural de áreas remotas.

THE HEART OF THE FOREST é um livro tocante, repleto de imagens, sons e silêncios que explicam, sem tentar explicar, a complexa dinâmica da vida na maior floresta do planeta. Um texto isento e, ao mesmo tempo, engajado. Um trabalho escrito com o coração e os olhos bem abertos.

The Heart of the Forest
Adrian Cowell
1961
238 páginas