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OFF THE MAP: BICYCLING ACROSS SIBERIA / MARK JENKINS

OFF THE MAPEm 1989, o escritor norte-americano Mark Jenkins juntou-se a um grupo de esportistas russos e americanos para cruzar de bicicleta toda a extensão da então União Soviética. Essa foi a primeira travessia de bike do país. O projeto nasceu como um filme-documentário, mas foi o livro de Jenkins – OFF THE MAP: BICYCLING ACROSS SIBERIA – que contou a história.

O primeiro contato que tive com o trabalho de Jenkins foi nas páginas da revista americana Outside – inspiração da sucursal brasileira Go Outside, que já publicou matérias minhas –, onde ele manteve por anos uma coluna chamada The Hard Way. Seus textos inclusive serviram de guia para a coluna Vida Dura que mantive por algum tempo na extinta revista Aventura e Ação.

Durante quase 5 meses e por 12.000 km, Jenkins e seis outros ciclistas – um americano, uma americana, dois russos e duas russas – pedalaram da cidadezinha de Nakhodka, vizinha de Wladivostok (que todo mundo que já jogou War vai se lembrar), às margens do Mar de Okhotsk, até São Petersburgo (que na época chamava-se Leningrado) à beira do Mar Báltico.

No começo a equipe de cinema que filmava o documentário acompanhou o grupo, assim como repórteres russos, uma escolta policial e carros escuros com homens mal-encarados em ternos amarrotados. Agentes da KGB, a polícia secreta soviética.

O livro é dividido em três partes. A primeira parte serve de introdução do narrador e dos personagens – os outros seis ciclistas – e vai até onde a estrada termina. A segunda parte narra um trecho de 1.200 km sem estradas, onde os aventureiros foram obrigados a empurrar suas bicicletas por um mar de lama e água pestilenta, um pântano que ocupa boa parte da fronteira com a Manchúria chinesa, conhecido em russo simplesmente como balota. A terceira parte leva o grupo do fim da balota ao fim da viagem.

Esse foi o primeiro livro de Jenkins e é um bom livro. A estrutura da narrativa lembra os exercícios de criatividade propostos em aulas de literatura prática (não que eu já tenha feito alguma dessas aulas!) e deixam claro que o autor é iniciante. Truques disseminados por James Joyce em Ulisses e depois empregados por William Falkner, como escrever parágrafos inteiros sem pontuação quando descrevem pensamentos, não faltam no texto. Mas os personagens são sólidos como as próprias bicicletas que pilotam e a paisagem… Bem, a paisagem é a Sibéria.

Jenkins é americano e o cenário é soviético e esse é o problema fundamental na narrativa. Falta imparcialidade. Todo o tempo o autor deixa claro que tudo está errado na União Soviética e, embora não toque no assunto, enquanto pedala, o país se dissolve. As referências aos Estados Unidos e em especial ao cenário de pradaria idílica do Estado de Wyoming, onde Jenkins nasceu e vive até hoje, dão a falsa impressão de paraíso que contrasta de forma artificial com a Sibéria soviética. Falta imparcialidade.

Falta também ao texto visão histórica, informação cultural, abordagem psicológica. Faltam elementos da grande literatura russa e sobram elementos da pequena literatura de revistas dos Estados Unidos. Por exemplo, quando o grupo visita a cidade de Krasnoyarsk ficamos sabendo que aquela é “uma cidade fechada a estrangeiros há mais de 70 anos”, mas ficamos sem saber por quê. Se durante um almoço num restaurante nada funciona – garçons não servem, cozinheiros não cozinham, porteiros não abrem portas, menus não descrevem o que há para comer – ficamos com a impressão que o correto, o esperado, o justo seria tudo funcionar e que nos Estados Unidos tudo funciona. Sim e não. Quem já viajou pelo EUA com certeza já viveu a experiência de ser atendido, eficientemente, por máquinas disfarçadas de seres humanos. Replicantes de carne e osso. E assim por diante…

Jenkins, entretanto, faz justiça às babushkas – as avós russas – que dão o toque de humanidade sem o qual o livro deixaria de fazer sentido. Roliças, extravagantes, incansáveis e generosas, essas senhoras de mãos trabalhadoras trazem cheiros, texturas, sons e cores à narrativa como nenhum truque literário consegue. Elas são a alma da história.

OFF THE MAP é um bom livro e Jenkins é um bom escritor. Uma viagem de bicicleta através da Rússia – seja ela czarista, comunista ou neocapitalista – é sempre uma viagem pelo maior país do planeta, pela maior extensão contínua de terra existente no globo. E isso basta para emprestar força ao livro. No entanto, frustrada ou não, a tentativa do comunismo foi um ato de ousadia e coragem tão grande quanto a Revolução Francesa ou a Independência dos Estados Unidos. Ali nasceu e vivei Dostoievski, Tchekhov, Pushkin, Tolstoi, Maiakovski e Gogol – escritores que transformaram a língua escrita no mundo. A União Soviética uniu – à força – etnias distintas e distantes e ricas de história e cultura… Mas, infelizmente, nada disso chega às páginas de OFF THE MAP.

Off the Map: Bicyclig across Siberia
Mark Jenkins
1992
254 páginas
ISBN 9780688095468