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SHACKLETON’S FORGOTTEN MEN / LENNARD BICKEL

Shackletons forgotten men (capa)A Imperial Trans-Antarctic Expedition (1914-1917) – ou Expedição Imperial Trans-Antártica, em português –, liderada pelo irlandês Ernest Henry Shackleton, foi imortalizada pela saga do Endurance, o veleiro de três mastros que ficou preso no gelo do Mar de Weddell, no noroeste da Antártica.

O plano de Shackleton nessa empreitada era cruzar a Antártica do Mar de Weddell ao Mar de Ross, no sul do continente, via o Pólo Sul – um feito épico que só foi realizado em 1955-58 pelo explorador inglês Vivian Ernest Fuchs, com apoio do neozelandês Edmund Percival Hillary (o primeiro homem no topo do Monte Everest ao lado do sherpa nepalês Tenzing Norgay em 1953). E mesmo assim, essa bem-sucedida expedição polar da década de 1950 usou veículos motorizados como meio de transporte.

Para conseguir cruzar o continente gelado a pé e puxando trenós, Shackleton precisava de uma equipe de apoio no Mar de Ross para montar estações de reabastecimento no terço final da travessia, quando os expedicionários já estariam no seu limite físico e emocional. A mesma estratégia utilizada por Fuchs mais de 30 anos depois. Havia, portanto, duas expedições independentes durante a Imperial Trans-Antarctic Expedition e o livro SHACKLETON’S FORGOTTEN MEN, do escritor inglês Lennard Bickel, narra a desastrosa aventura da expedição de apoio sediada no Mar de Ross, liderada pelo capitão Aeneas Mackintosh a bordo do veleiro Aurora, com um total de 28 tripulantes.

Apesar de bem conhecida, acho que vale a pena relembrar a “Expedição Endurance”, como a aventura de Shackleton ficou mais conhecida…

Depois de ver seu navio preso no gelo antártico por mais de oito meses, com a perspectiva de esmagamento do casco de madeira devido à imensa pressão do gelo e decorrente naufrágio, Shackleton ordenou que o navio fosse abandonado. Acampados no gelo flutuante, Shackleton e seus 27 companheiros passaram mais de cinco meses sobrevivendo com muito esforço, boiando a deriva numa gigantesca jangada branca, até conseguirem aportar na isolada Ilha Elefante usando os três barcos salva-vidas do defunto Endurance. Começou então a saga de James Caird, o pequeno barco baleeiro de 22,5 pés (6,85 m de comprimento), de convés aberto, remos e um pequeno mastro para vela, que durante 16 dias enfrentou um dos mais perigosos mares do planeta, percorreu 800 milhas náuticas (1.300 km) e finalmente chegou à Ilha Geórgia do Sul, onde havia uma estação baleeira e alguma chance de resgate.

Para escrever SHACKLETON’S FORGOTTEN MEN, o inglês Lennard Bickel entrevistou na década de 1970 o último sobrevivente do grupo de terra da “Expedição Aurora” – Richard Walter “Dick” Richards – e usou os diários de outros integrantes para completar lacunas na história. Por sorte, em 1981, o diário de Arnold Patrick Spencer-Smith, o pároco da expedição, apareceu num leilão em Londres e foi arrematado pela National Library of Australia (a Biblioteca Nacional da Austrália) e foi em seguida revendido, pelo mesmo valor, ao Scott Polar Institute.

Mais que uma simples narrativa cronológica dos fatos, SHACKLETON’S FORGOTTEN MEN consegue reconstruir situações dramáticas, delinear as personalidades dos protagonistas e descrever com exatidão e emoção a rotina de sobrevivência dos 10 homens esquecidos no gelo por dois anos.

Depois de desembarcada, a equipe de terra do Aurora, liderada pelo capitão Mackintosh, se instalou na famosa “Cabana de Scott” (Scott’s Hut, em inglês) no Cabo Evans, na Baía MacMurdo – palco das principais expedições polares do começo do Século XX.  Como o Aurora estava a apenas algumas dezenas de metros de distância, preso no gelo e ancorado por diversas amarraras, Mackintosh não ordenou que equipamentos e mantimentos fossem descarregados. Numa noite especialmente tempestuosa, ventos de furacão destroçaram e arrastaram o gelo da baía para longe, levando consigo o navio e todos a bordo para o alto-mar.

Isolados, incomunicáveis, sem mantimentos e sem equipamentos adequados, Mackintosh e seus nove companheiros passaram a vasculhar as instalações abandonadas por expedições anteriores até encontrar o mínimo que precisavam para sobreviver e cumprir sua missão. Numa atitude heróica, estóica e quase suicida, a equipe de terra executou a tarefa encomendada por Shackleton e passou 199 dias transportando e armazenando alimentos e combustível por toda a extensão da Grande Barreira de Gelo do Mar de Ross, numa extensão de mais de 600 km só de ida, num local descrito como “inferno branco”.

Três dos dez integrantes do grupo de terra morreram durante essa expedição. Todos os membros que participaram da instalação dos pontos de reabastecimento que Shackleton usaria em sua travessia– que nunca aconteceu – padeceram de escorbuto, a doença deflagrada pela falta de Vitamina C, presente em alimentos frescos. Em todo o tempo na Antártica o grupo não conseguiu tomar banhos ou trocar de roupas. Eles se alimentaram quase que exclusivamente da caça de focas.

Segundo o próprio Shackleton: “nenhuma história de empenho humano é mais notável do que a narrativa dessa longa marcha.” O que faz de SHACKLETON’S FORGOTTEN MEN um livro que não pode faltar na estante dos amantes e entusiastas da história da exploração polar.

SHACKLETON’S FORGOTTEN MEN
Lennard Rickel
2001
Adrenaline Classics
Thunder’s Mouth Press and Balliett Fitzgerald
244 páginas
ISBN 9781560253068