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THE MONKEY WRENCH GANG / EDWARD ABBEY


094268818xO famoso escritor inglês Aldous Huxley, autor da consagrada crítica social, Admirável Mundo Novo, escreveu que “haverá, na próxima geração ou na seguinte, um método farmacológico de fazer as pessoas amarem sua servidão e produzir ditaduras sem lágrimas, por assim dizer, criando então um tipo de campo de concentração sem dor para sociedades inteiras, determinando que as pessoas terão sua liberdade arrancadas mas ficarão felizes por isso, porque elas serão distraídas de qualquer desejo de se rebelar através de propaganda ou lavagem cerebral, ou ainda, de lavagem cerebral através de métodos farmacológicos. E essa parece ser a revolução final”.

Huxley viveu de 1894 a 1963 e foi testemunha consciente de grandes revoluções sociais, em especial a Revolução Bolchevique de 1917, que impôs a ditadura do proletariado e possibilitou mais tarde o surgimento do Bloco Soviético, que dividiu o mundo em duas metades antagônicas durante boa parte do Século XX. Huxley chegou a admirar as mudanças sociais logradas pelos soviéticos, mas depois se desiludiu, como aliás quase todos os comunistas conscientes.

O Best-seller da década de 70, The Monkey Wrench Gang, pouco tem a ver diretamente com a Revolução Comunista, mas tem absolutamente tudo a ver com a citação de Huxley mencionada acima.

O autor norte-americano Edward Abbey é considerado por alguns pensadores o herdeiro direto, apesar de um tanto “oblíquo”, dos filósofos ambientalistas dos Estados Unidos Henry David Thoreau e John Muir. Thoreau é considerado por muitos como “o pai da ecologia moderna” e Muir “o cavaleiro paladino dos parques nacionais”. Abbey por certo tinha verve ambientalista, defendia a preservação ambiental de áreas selvagens, mas pregava em seus livros métodos de guerrilha e terrorismo, com franco uso de violência se necessário, para alcançar o fins propostos. Isso ajudou muito a estigmatizá-lo como uma espécie de guru espiritual de uma “Al-Qaeda verde” com uma forte dose de preceitos morais (se isso é possível).

O enredo do livro é bastante simples e auto-explicativo. Um grupo de quatro amantes da natureza, de origens e passados bastante distintos, se encontram e se conhecem durante uma viagem de rafting no centro-oeste norte-americano e decidem “fazer algo em defesa da natureza”.

Esse é o ponto de conversão com a citação de Huxley.

Um médico de cinquenta anos cínico, uma jovem enfermeira de beleza estonteante, um mórmon polígamo pai de três famílias e um veterano da Guerra do Vietnã, traumatizado, fortemente armado, treinado para matar, destemido, alcoólatra, boca-suja e briguento, se juntam em uma estranha companhia e partem para a ação.

O cenário de suas aventuras é a região do cânions do Rio Colorado, próximo à quádrupla divisa dos estados de Utah, Colorado, Novo México e Arizona, o deserto rochoso e cinematográfico que Edward Abbey escolheu para viver. Suas armas são dinamite, líquidos inflamáveis, marretas e, claro, chaves-inglesas, que em inglês são chamadas de “monkey wrenches”. Sabotagem às máquinas utilizadas pelo sistema para a transformação do ambiente natural em riqueza, prosperidade e conforto, para citar alguns argumentos da máquina capitalista, é a palavra de ordem.

Abbey é um escritor talentoso, cheio de recursos, imaginativo, engraçado e, acima de tudo, capaz de análise crítica e consciência filosófica. Mesmo lidando com personagens caricatos em um cenário de história em quadrinhos, ele consegue fazer com que personalidade, história pessoal, motivações e questionamentos pessoais não se percam na ação. Seus personagens não se tornam planos ou monocromáticos. A narrativa é envolvente e surpreendente, existe suspense, humor e crítica social inteligente. Se o livro tem uma característica que pode ser apontada como “fraqueza” é, talvez, seu caráter juvenil. Mas nem isso é negativo.

The Monkey Wrench Gang fez enorme sucesso na década de 70 e o termo “monkeywrench” passou a ser usado como sinônimo de ações violentas de sabotagem em defesa do meio ambiente. O livro influenciou o surgimento de grupos de eco-terroristas e ativistas ambientais “com atitude” nos Estados Unidos que, mais tarde, se espalhou pelo resto do mundo.

Thoreau, que escreveu o célebre manifesto da “Desobediência Civil” e influenciou diretamente Mahatma Gandhi, Leon Tolstoi e Martin Luther King, com certeza não aprovaria alguns dos métodos propostos por Abbey nesse livro, mas, voltando à citação de Huxley, uma vez vivendo a “revolução final”, uma vez dentro da “ditadura sem lágrimas” e já anestesiados pela “propaganda e lavagem cerebral”, é fácil enxergar na violência a única saída. Ou talvez fique difícil encontrar outra forma de se rebelar ativamente…

A edição de capa dura que eu tenho é comemorativa dos dez anos de publicação da obra e apresenta, além de um capítulo surreal, onírico e psicodélico extraído por Abbey na versão original, também traz várias gravuras do famoso ilustrador R. Crumb.

The Monkey Wrench Gang
Edward Abbey
1975
358 páginas
ISBN 9780942688184