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THE WILD PLACES / ROBERT MACFARLANE

“O pensamento, assim como a memória, reside tanto nos objetos externos quanto nas regiões mais recônditas do cérebro humano. Quando os correspondentes físicos do pensamento desaparecem, o pensamento – ou suas possibilidades – também se perde. Quando florestas e árvores são destruídas – incidentalmente ou deliberadamente – vão com elas a imaginação e a memória. W. H. Auden sabia disso: “Uma cultura”, alertou ele em 1953, “não é melhor que suas florestas”. (*)

Esse trecho do premiado livro THE WILD PLACES, do britânico Robert Macfarlane, resume muito o espírito da obra. Macfarlane partiu numa viagem pessoal em busca dos lugares selvagens que restavam na Grã-Bretanha. Percorreu a Inglaterra, Escócia e Irlanda. Como guia, usou a literatura antiga e contemporânea, textos produzidos na Idade Média por monges reclusos e narrativas de montanhistas e aventureiros recentes. Poesia, filosofia e literatura serviram de bússola e de carta topográfica

Numa praia deserta de uma ilha isolada, alcançada no veleiro de amigos, o autor dormiu sem barraca na areia e ficou hipnotizado com a luminescência das algas microscópicas no mar. No topo de uma montanha congelada, em pleno inverno escocês, ele sentiu a limpidez do ar afiado e o caráter desumano típico da natureza realmente selvagem. Numa travessia em trekking por charcos, pântanos e margens não definidas de rios transbordados, viveu o desconforto aparentemente sem sentido do contato íntimo com o ambiente selvagem nos tempos modernos. E todo o tempo ele não deixava de se maravilhar.

O texto mantém, ao logo da obra, a característica peculiar de mesclar clareza com poesia. Macfarlane domina a língua inglesa como o marinheiro que produz os nós e os laços mais complicados na escuridão da noite e depois os desfaz em movimentos displicentes.

Aos poucos, a noção de “natureza selvagem” – que o termo inglês wild define de forma mais simples – vai mudando aos olhos do autor. Cada vez mais livre da bagagem humana de preconceitos, expectativas e críticas, que a exposição aos desconfortos do não-urbanizado permite, Macfarlane enxerga o natural com outros olhos. Perto do fim do livro, ele escreve:

“Restam poucas criaturas selvagens na Grã-Bretanha e na Irlanda. Muito poucas, relativamente, no mundo. Perseguindo nosso propósito de civilização, empurramos milhares de espécies para a beira do abismo da extinção e milhares de outras abismo abaixo. Essa perda também é nossa. Animais selvagens, assim como lugares selvagens, são valiosos para nós justamente porque não refletem nossa imagem. Eles são irreconciliavelmente diferentes de nós. Os caminhos que eles seguem, os impulsos que os movem, pertencem a outra ordem. O olhar fixo da foca, o giro aéreo do falcão, essas coisas são selvagens. Admirando-as, tomamos consciência momentânea de um mundo que trabalha além do nosso, apesar do nosso. Um mundo operando em padrões e propósitos que nós não compartilhamos. Essas criaturas, enfim realizamos, obedecem a vozes inaudíveis para nós”. (*)

Macfarlane passa por um lento e sutil processo de transformação pessoal ao longo de sua exploração, que seu texto expõe e explica de maneira simples e profunda, precisa e poética. De repente, o selvagem também passa a ser encontrado em terrenos baldios, praças públicas, nas rachaduras do concreto das calçadas, no vento e no olhar de uma criança. A intervenção destrutiva do ser humano no planeta apenas afasta momentaneamente a natureza, que permanece à estreita, pronta para retornar. Nada está irremediavelmente perdido.

Nem preciso dizer que gostei da obra. Quem me conhece, mesmo que superficialmente e à distância, sabe o quanto tudo isso diz respeito a mim. Procurar minha natureza interior na natureza exterior sempre foi meu norte. THE WILD PLACES acrescentou um modelo de delicadeza à minha jornada, à minha busca pessoal. Acrescentou também a sensação de não estar sozinho.

E como disse o poeta inglês T. S. Eliot, também citado por Macfarlane no livro:

“Não devemos cessar de explorar
E o final de toda exploração
Será chegar ao ponto de partida
E conhecer o lugar pela primeira vez”. (*)

(*) Traduções de Guilherme Cavallari

THE WILD PLACES
Robert Macfarlane
2007
Granta Books
340 páginas
ISBN 9781847080189