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CAPE WRATH TRAIL… A CEREJA DO BOLO

gui 12/11/2015 0

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Terminada a Cape Wrath Trail, o roteiro de trekking de 420 km de extensão cruzando as Highlands escocesas que fiz em 22 dias, voltei ao ponto de partida, a Fort William, para recuperar equipamento deixado para trás. Uma vez aqui,  decidi subir o Ben Nevis.

Com 1.344 m de altitude, essa montanha é o ponto culminante de toda a Grã-Bretanha e um importante destino de turismo aventura. Seu nome original é Beinn Nibheis, que em galês da Escócia significa “montanha maliciosa”, ou “montanha venenosa”. E hoje entendi o porquê.

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Guilherme Cavallari usou equipamento SPOT nessa expedição.

Acordei às 5h da manhã, faltando mais de duas horas para o nascer do sol nessa época do ano, e comecei a caminhar às 6h35 em direção à montanha. Da pousada onde estava hospedado até o início da trilha eram apenas 4 quilômetros.

Foi uma delícia caminhar sem mochila, para variar. Eu parecia flutuar. Levei comigo apenas um pouco de comida, meio litro d’água numa garrafinha PET, máquina fotográfica, aparelho de GPS e o rastreador SPOT que não me deixa passar incógnito. Tudo dentro de uma bolsa estanque pendurada de um ombro por uma fita simples.

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Ainda escuro, o começo da caminhada foi iluminado pelos postes de Fort William e pelos faróis dos eventuais carros. Quando o céu começou a clarear, o lusco-fusco matinal emprestou mistério aos arredores… Aquela enorme sombra adiante seria o Ben Nevis? O vulto que passou entre os arbustos era um cachorro? E esse negócio mole em que pisei agora era barro ou bosta?

Com a chegada da luz natural, vi que o piso da calçada estava forrado de folhas secas das árvores. Um macio carpete de cores outonais.

Entrei na trilha e percebi que a subida seria moleza, pelo menos no quesito navegação. O caminho era largo e bem pisado, ladeado por pedras enfileiras caídas da própria montanha. A subida era constante e não muito íngreme, acessível a praticamente qualquer um. Mas a altitude da base da montanha era de 39 metros acima do nível do mar, o que significava que eu subiria 1.300 metros até o topo.

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Perto da metade do caminho, começou a ventar forte e frio. Nenhuma surpresa, topos de montanhas são assim mesmo. Passei rápido por duas pessoas subindo. A trilha ziguezagueava suavemente, ora a favor do vento, ora contra.

Perto do cume a cor das pedras ficou mais escura, quase negra e havia neve por todo lado. O branco realçando o preto das pedras. Grandes totens de pedras empilhadas ajudavam na navegação. Lá embaixo, alguns vales estavam incendiados pelos raios do sol, escondido atrás de nuvens para mim.

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Vi uma minúscula porta, que parecia porta de frigorífico em morgue, numa espécie de casinha suspensa em pedras. Um abrigo de montanha para duas ou três pessoas, calculei. Fui investigar e era isso mesmo. Entrei para comer algo e sair do frio. Para entrar no cubículo tive que apoiar as mãos na neve do solo e minhas luvas inglesas – que deveriam ser impermeáveis – ficaram ensopadas e imediatamente geladas.

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Nos dez minutos que passei no abrigo, comendo migalhas de pão preto alemão com queijo cheddar escocês, o tempo virou de vez. Uma grande e pesada nuvem de chuva cobriu o pico do Ben Nevis e a temperatura despencou muitos graus. O vento gelado e molhado parecia ter dentes.

Em segundos meus dedos estavam congelados e eu sentia dores agudas. Meu rosto parecia queimar. Bateu um pouco de desespero e antes mesmo de fazer uma “foto de cume” comecei a descer a montanha correndo como quem viu assombração.

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Guilherme Cavallari usou roupas SOLO nessa expedição.

Na descida cruzei com cerca de dez pessoas espalhadas que subiam a encosta lentamente, a maioria com um sorriso no rosto. Nem parei para conversar. Eu queria sair dali o mais rápido possível. Para mim mesmo eu comentava: “Eles não têm ideia do que vão encontrar lá em cima…”

Já perto da base novamente, comecei a rir de mim mesmo. Tanto esforço para subir, só para querer descer correndo… “Será que eu não sabia o que encontraria lá em cima?”

E a resposta a gente só encontra depois e subir a montanha.