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2007, 28 agosto – jornal O ESTADO DE S. PAULO

V6 – Viagem & Aventura – terça-feira, 28 de agosto de 2007

Uma expedição (e muito cansaço!) sobre duas rodas

Em 26 quilômetros de trilha em Piranapiacaba, nossa repórter pedalou, carregou a bike – e até pediu carona

Camila Anauate PARANAPIACABA

Corra para a academia e matricule-se no spinning, ou você ficará ofegante antes mesmo de terminar esta aventura. Até aqueles que não se consideram sedentários (estou nesse grupo) sofrem um bocado para pedalar 26 quilômetros em terrenos irregulares de terra, lama e pedras. Não que a trilha seja difícil – inclui apenas 467 metros de subidas (longas e puxadas, é verdade) e duas descidas íngremes. Há mais trechos planos e pequenas elevações.

Mas sem um bom preparo físico fica difícil encarar o roteiro de bicicleta por Paranapiacaba, que está mapeado no volume 5 da coleção Guia de trilhas enCICLOpédia (Editora Via Natura; R$ 21), lançado na semana passada. O autor-ciclista, Guilherme Cavallari, de 44 anos, indica: “Spinning é o melhor treino para ganhar ritmo.”

Claro que saber passar as marchas (bike de pelo menos 24 marchas e suspensão dianteira, por favor!) e algumas técnicas de mountain bike facilitam a aventura sobre duas rodas – mas se você, como eu, parou no tempo da Caloi Ceci, não tenha dúvida: o esforço vale a pena.

Capacete, luvas e óculos são itens básicos, assim como a bermuda acolchoada. Água, muita água para buscar energia. Tudo pronto? Respire fundo e curta os lugares para onde só uma bike pode levar você.

Cavallari nos guiou na trilha. Um detalhe importante: o carro da reportagem seguiu parte do trajeto, por precaução.

TRECHO 1

A trilha começa antes da linha do trem, na entrada de Paranapiacaba. Após cruzar os trilhos, ali está um dos trechos mais bonitos do percurso: a mata atlântica contorna toda a estrada. É incrível estar tão perto de São Paulo (55 quilômetros) e respirar ar puro, sentir o cheiro de mato. Flores colorem o caminho. Tudo para ver e sentir antes da primeira subida pesada. Depois dela, o seu corpo ficará mais concentrado em superar seus limites físicos.
Para quebrar o ritmo, uma parada estratégica. Depois, vem uma estrada de terra bem fechada à direita. Ali fica uma pequena vila – mais uma desculpa para recuperar o fôlego.

De volta à rota original, uma descida bem íngreme leva à entrada de Paranapiacaba pela parte baixa. Ótima oportunidade para conhecer a vila inglesa. Outra subida longa e os primeiros sinais de cansaço – e percorremos apenas cerca de 5 quilômetros até então. Hora de pegar carona no carro da reportagem (lembra?), mas por poucos metros.

A partir da cidade, a pedalada leva até a charmosa Vila Taquaruçu, com uma igrejinha e lojas de artesanato indígena. Mais uma parada estratégica.

TRECHO 2

O trecho seguinte à Vila Taquaruçu tem vegetação mais aberta, com uma descida bem radical – aqui, equilíbrio e freios travados evitam uma queda. Fora isso, o trecho, com cerca de 6 quilômetros, é simples. Mas, depois de mais de 10 quilômetros, a fadiga está acumulada. E nada impede outra (curta) carona no carro. Porque o que vem depois é praticamente impossível.

TRECHO 3

Aqui carro não passa. A trilha é fechada, e a lama faz até bicicleta atolar. Estamos em um trecho mais técnico, que exige experiência. Simplificando: já que você está na lama mesmo, vale descer da magrela e carregá-la na mão. O trecho de apenas 2 quilômetros parece infinito. Já se passaram quase 17 quilômetros e desafiar mais uma subida deslizando é difícil. Mas vale refletir: quando você entraria em uma mata fechada assim? É hora de mentalizar coisas boas.

TRECHO 4

Reta final, mais 8 quilômetros fáceis. Pena que aqui a pedalada é por inércia. O cenário, de vegetação mais aberta, é parecido com o do trecho 2. Há muitas pedras no caminho, o que dificulta a passagem. É preciso parar e tomar o que resta de fôlego. Depois de quase 23 quilômetros pedalando, o carro da reportagem reaparece para o resgate. Desisto dos últimos 3 quilômetros de estrada.
Pedalando forte, a trilha pode ser feita em até duas horas. Mas eu completei em quatro, sem descontar as paradas estratégicas. Pelo menos assim dá para curtir o passeio. E pensar que Paranapiacaba é apenas a trilha mais fácil do guia…

Animou? Encontre o roteiro ideal para o seu fôlego
Confira outras dicas do Guia de trilhas enCICLOpédia:

LEVE: Ubatuba 1 (volume 3). Percurso de 14,7 quilômetros pela mata atlântica, com três cachoeiras para se refrescar durante o caminho. Apesar de curta e sem dificuldade, prepare-se para passar o dia lá.

MODERADA: Itu 2 (volume 1). São 26,17 quilômetros com subidas curtas e pouca sombra.

DIFÍCIL: Serra Negra 1 (volume 4): uma volta de 46,8 quilômetros com mais de 1.000 metros de subidas íngremes.

PARA EXPERTS: Mairiporã 2 (volume 5): nada menos do que 70,04 quilômetros pedalando – os 4 metros fazem diferença! São 2.000 metros de subida com escalada da Pedra Grande (em Atibaia) e da Pedra do Coração (em Bom Jesus dos Perdões).

Guias trazem dicas para viajar com a magrela

Muito antes de autor, Guilherme Cavallari é ciclista. E foi a falta de informação que o fez criar a coleção Guia de trilhas enCICLOpédia. O projeto começou em 2000 e hoje já tem cinco volumes. Cada livro é dividido em dez capítulos. O primeiro dá dicas sobre segurança, mecânica, técnicas de pilotagem e treinamento físico. As páginas seguintes são dedicadas a trilhas de um dia – em Itu, Jundiaí e Jarinu, por exemplo. Há percursos para todos os níveis de ciclistas. Para uma viagem pedalando, Cavallari reservou o último capítulo. São roteiros de pelo menos quatro dias por cenários de pura natureza. Os fascículos têm mapas e fotos. Compras pelo site: www.vianatura.com.br ou em livrarias.