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2008, fevereiro – revista VIAGEM E TURISMO 148

Bike na Mantiqueira

por Luciana Pinsky

Desde a pré-adolescência, eu sonhava rodar o mundo inteiro de bike. É uma dessas aventuras que a gente acalenta mesmo sabendo que são impossíveis de serem realizadas. Imagine minha alegria quando comecei essa pequena cicloviagem de 185 quilômetros pela Serra da Mantiqueira. Pode não ser a volta ao mundo, mas dá para sentir a sensação do vento no rosto de uma descida a 55 km/h ou a felicidade de superar uma subida de 10 quilômetros praticamente sem pôr o pé no chão. Observar a paisagem mudando lentamente, na mesma velocidade da pedalada, sem barulho, sem pressa. E o melhor: sabendo que a viagem dependia só da gente. Encarei o desafio com três amigos do Olavo Bikers, grupo que sai todo domingo de manhã pelas ruas de São Paulo. Pedalar na cidade é uma coisa, viajar de bicicleta é outra bem diferente. Parar num lugar e saber que no dia seguinte vamos, de novo, pedalar. E no outro também. Muda a perspectiva. Ao não sabermos bem o que nos espera, fica difícil dosar a energia e a disposição para continuar. No fim, claro, tudo deu certo.

1º dia – Campos de Jordão – São Bento do Sapucaí (36 km)

Chegamos em Campos numa quarta-feira. No dia seguinte, cedinho, montamos os alforjes (aquelas malas que ficam no bagageiro da bicicleta), tiramos nossa “foto inaugural” e partimos rumo a São Bento do Sapucaí.

Nós quatro sabíamos que esse seria o dia mais tranqüilo. Poucas subidas, algumas descidas e “apenas” 36 quilômetros. Tínhamos o dia inteiro, e todos do grupo haviam encarado essa distância antes, em trilhas. Fácil.

O sol começava a esquentar. Ficou assim nos quatro dias: céu limpo e sol quente. Soa ótimo e, de fato, as paisagens ficam mais bonitas. Mas… para quem está pedalando, o calor cansa. Ainda mais carregando de 10 a 15 quilos de bagagem. O suor e a fadiga eram inevitáveis. No primeiro dia, pedalamos bem lentamente, paramos bastante e sentimos o efeito da viagem no nosso corpo. Mas o saldo foi positivo: terminamos inteiros – e famintos!

2º dia – São Bento do Sapucaí – Brazópolis (41 km)

Ao olhar o roteiro de uma trilha, a quilometragem total é importante. Mas tão importante quanto esse item são a altimetria e o tipo de terreno. Em outras palavras: quanto de subida haverá? Quanto de terra e quanto de asfalto? No segundo dia a quilometragem não era tão diferente da do primeiro. Mas pegamos subidas íngrimes. As bicicletas pesadas por causa dos alforjes e o sol inclemente nos empurraram para o chão.

Como recompensa, uma das vistas mais deslumbrantes da viagem: o topo do morro que vai para Luminosa. Depois da subida radical, começa uma descida, igualmente irada. Uma vez lá em baixo, ainda havia muito chão até Brazópolis: cerca de 17 quilômetros, mas no plano.

3º dia – Brazópolis – Itajubá (48 km)

Apesar de o trajeto ser mais longo, o terceiro dia foi mais leve que o segundo. Além de pegarmos menos subida, contamos com uma ajuda providencial. Uma quinta pessoa, Cristina, juntou-se a nós para conduzir o carro de apoio até o fim da viagem. Assim, seguimos com as bicicletas levinhas novamente. Emagrecer as magrelas foi uma experiência sensacional.

No meio do caminho, paramos em um bar, conversamos com o povo. O interessante não era apenas as paisagens deslumbrantes da serra da Mantiqueira como também ouvir sotaques diferentes e pensar, pensar, pensar enquanto se pedala. Ou não pensar em nada. Mais uma tarefa cumprida. Mas eu confesso: temia o último dia – trajeto maior, mais subidas…

4º dia – Itajubá – Campos do Jordão – (59 km – ufa!)

Esse seria o trecho mais complicado. Começava fácil, com 17 quilômetros planos, de asfalto. Depois, uma subida de 10 quilômetros sem paradas. E na terra. Começamos em ritmo lento – algo como 6 quilômetros por hora – e subimos com apenas uma parada até um refúgio de sombra. Bebemos, comemos e voltamos a subir, subir, subir. As paisagens dessa estrada quase deserta são belíssimas. A vista era toda nossa. Se subida forja o caráter, como dizem alguns, o nosso ganhou muitos pontos.

Quando achamos que o pior já tinha passado, fomos para uma estrada de terra. E encaramos mais subida, ainda que menos íngreme que a primeira (e na sombra). A viagem estava quase no fim. Algumas descidas, planos e vistas nos aguardavam até voltar para o hotel em Campos de Jordão, de onde havíamos saído quatro dias antes. Ufa! Missão completa. Podíamos nos considerar cicloviajantes experimentados.

ANOTE AÍ: O percurso da viagem realizada está detalhado, com mapas e dicas, no Guia de trilhas – enCICLOpédia, Volume 4, de Guilherme Cavallari, Editora Via Natura, R$ 31). Já um livro interessante para se preparar para viagem é Guia da Mountain Bike, de José Antonio Ramalho (Editora Gaia, R$ 47).