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2009, março – revista GO OUTSIDE 46

Os dentes de Navarino

Depois do fim

A pequena Ilha Navarino, no extremo sul do Chile, é a região habitada do continente americano mais próxima da Antártica (a ilha está além de Ushuaia, na Argentina). Lá, oisolado circuito de trekking Dientes de Navarino, de 49,31 quilômetros, recebe poucas dúzias de aventureiros por ano. (texto e fotos GUILHERME CAVALLARI)

Do avião, vi pela primeira vez os Dentes de Navarino – meu destino nessa viagem. Picos pontiagudos, negros, corroídos por um dos piores climas do mundo e enfileirados lado a lado como em uma boca sem lábios. Essa pequena cordilheira sobe praticamente do nível do mar até pouco mais de mil e cem metros de altitude e fatia a Ilha Navarino em duas metades mal-divididas. A parte sul é bem maior. Leste-oeste a ilha chega a 87 quilômetros em sua maior extensão, norte-sul não passa de 45 quilômetros. Ao norte fica o Canal Beagle, que separa Navarino da Ilha Grande da Terra do Fogo, onde fica Ushuaia, na Argentina. De sua ponta mais austral até o começo da Península Antártida dá 875 quilômetros de mar aberto, passando ao lado do temível Cabo Horn e suas centenas de naufrágios e milhares de afogados.

De 1881 a 1984, Argentina e Chile dançaram coreografias de guerra dos dois lados do Beagle. Primeiro ninguém parecia querer a região – habitada por etnias aborígenes que viviam na idade da pedra até o fim do século 19, quando começou sua rápida extinção –, depois ela virou um bilhete de loteria premiado. Se Chile e Argentina não ocupassem o espaço (assim pelo menos eles pensavam), Inglaterra, Estados Unidos, Holanda e França, para citar apenas os pesos-pesados, se estapeariam por uma ou outra ilha. Qualquer coisa que garantisse a Passagem do Drake, o melhor ponto de contorno do continente americano e rota de comércio naval entre os oceanos Atlântico e Pacífico. Isso até a construção do Canal do Panamá, em 1913, quanto então circundar o Cabo Horn virou uma idiotice comercial e, bem mais tarde, uma febre entre os velejadores mais calejados e curtidos de sol.

Em 1984, dois anos depois da fracassada tentativa argentina de ocupar as Ilhas Malvinas e do apoio incondicional chileno aos ingleses durante o conflito, quando as armadas chilena e argentina já navegavam uma ao encontro à outra e a guerra parecia inevitável, o Papa João Paulo II interveio e definiu pacificamente a fronteira, evitando um banho de sangue e mais uma burrada para a coleção dos dois governos ditatoriais da época.

De Ushuaia para a Ilha Navarino, minha travessia do Canal Beagle foi sem incidentes, surpreendentemente calma na minúscula lancha inflável com teto de lona plástica e na companhia de Adriana, minha mulher e companheira de trekking, e três argentinos – empresários que cruzavam a fronteira para inaugurar um restaurante em Puerto Williams, capital da ilha e base regional da marinha chilena. O Papa ficaria orgulhoso.

Metade dos cerca de dois mil habitantes de Puerto Williams é militar. Boa parte da metade civil trabalha como servidor público ou vive da pesca de centollas – caranguejos gigantes, abundantes nas altas latitudes norte e sul. A vida na cidade é pacata beirando a letargia. Na única e minúscula loja de equipamento de aventura do povoado consegui informação atualizada sobre o trekking, já que o material que eu possuía tinha dezesseis anos de idade. O proprietário do negócio explicou detalhadamente em que pontos a trilha desaparecia por conta de alagamentos provocados por castores, deslizamentos de terra e pedras, quedas de árvores ou simplesmente falta de uso.

Os castores foram introduzidos na Argentina na década de 30, numa ridícula tentativa de aquecer a economia através do comércio de peles. Sem predadores naturais, inverno bem mais ameno que o canadense, ampla oferta de alimento e uma infinidade de cursos de água, o bicho cresceu, se multiplicou, prosperou e, para piorar tudo, perdeu a pelagem característica que lhe garante valor comercial. Insatisfeito com a Argentina (segundo os chilenos) o castor atravessou o Canal Beagle a nado e está vorazmente destruindo todos os bosques dos dois lados da fronteira. Uma catástrofe ambiental. A doninha também foi importada da América do Norte pela mesma razão e agora devora ovos e filhotes de aves, ameaçando espécies de pássaros endêmicos. Para completar, na década de 80 ambientalistas colocaram tanto o castor quanto a doninha na lista de espécies protegidas e, portanto, não puderam ser caçadas e controladas até poucos anos atrás.

“Mas, o maior problema são os cachorros selvagens,” explicou o dono da loja, enquanto servia mais um mate. Segundo ele, os militares ficam de três a quatro anos postados em Navarino e quando vão embora nem sempre levam seus cachorros junto. O resultado foi que muitos desses cães fugiram para os bosques e subiram as montanhas em busca de alimento. Transformados em selvagens, eles vivem em matilhas e praticamente eliminaram a população de guanacos da ilha, comendo seus filhotes.

“Fique atento, se ver algum cachorro não vá pensar que é manso. E não deixe comida exposta nos acampamentos!”.

Aparentemente nunca houve acidentes com turistas e os cachorros selvagens, nem os locais tiveram problemas maiores que carneiros mortos, comida roubada e lixo revirado. Mesmo assim, trekking na Ilha Navarino parecia cada dia mais complicado do que eu havia imaginado.

Bem informado e com uma pedra redonda de prontidão no bolso, por garantia, começamos o primeiro dia de trekking do circuito Dientes de Navarino. Da cidade, a trilha segue até o topo do Pico Bandeira, onde tremula uma gigantesca bandeira chilena lembrando os argentinos do outro lado quem é o dono da casa. A crista da montanha segue paralela a um vale verde com uma grande lagoa no fundo – Valle Róballo. Atrás dessa lagoa e atrás da montanha à frente, está o primeiro acampamento, na Laguna del Salto. Em 8,32 quilômetros de caminhada, com mais de mil metros acumulados de subida e as quatro estações do ano nas seis horas de trekking, chegamos lá.

Apesar do clima inóspito, os índios locais viviam nus, besuntados em gordura de leão marinho e baleia como isolante térmico. Eram seminômades, remavam canoas feitas de cascas de árvores e montavam acampamentos provisórios onde havia comida. Obviamente, segundo relatos dos primeiros exploradores (Fernando de Magalhães, Francis Drake, Robert FitzRoy e Charles Darwin, entre tantos outros), eles “fediam muito”! Os homens caçavam leões marinhos e as mulheres mergulhavam (mesmo no inverno) à procura de mariscos e centollas. Com isso na memória, decidi experimentar um mergulho nas águas geladas da Laguna el Salto para vivenciar a experiência aborígene. Chuviscava e ventava forte. Tirei toda a roupa, respirei fundo e entrei na água até os joelhos. Um, dois, três segundos e eu saí correndo para a margem seca. Adriana assistiu a tudo impassível, tirou toda a roupa e sem piscar mergulhou de cabeça na lagoa. Emergiu, segundos depois, sem mariscos nem caranguejos mas com um sorriso de superioridade levemente estampado no rosto. Tudo bem, lembrei que os índios yamana não sabiam nadar e que isso era serviço de mulher mesmo, então acredito que a experiência tenha tido seu valor cultural.

O segundo dia nos levou até a Laguna Escondida em apenas 8,35 quilômetros de caminhada por terreno pedregoso e íngreme. Pouco mais de seis horas de labuta. Esse é um dia de muitos pasos (passagens altas nas montanhas) – Paso Primeiro (705 m), Paso Australia (795 m) e Paso de los Dientes (709 m), sendo que a Laguna el Salto está a 504 metros acima do nível do mar. Um paso significa muita subida e muita descida concentradas e a grande possibilidade de tempo ruim no cume, inclusive com nuvens de tempestade muito baixas e visibilidade zero. Tivemos sorte e o sol apareceu no Paso de los Dientes e pudemos enxergar a silhueta do arquipélago Cabo Horn no horizonte sul. Pirâmides de pedra erguendo-se do mar, assim como as famosas ondas piramidais de até 40 metros de altura do Mar de Drake, entre nós e as ilhas.

O terceiro dia seguiu até a Laguna Martillo, 7,22 quilômetros adiante, cumpridos em cinco horas e meia de caminhada. Logo no começo tivemos que atravessar um rio volumoso proveniente de uma represa de castores. Malditos castores. Passei meia hora procurando o melhor ponto de travessia sem precisar tirar as botas e as calças e me enfiar na água gelada até a cintura. Esse problema de travessia por conta dos castores é uma constante em diversos pontos do trekking. O trajeto do dia contorna uma vertente montanhosa a oeste e sobe o Paso Ventarón em uma linha reta (que até no nome indica vento forte). Imponente e impiedoso, velado por um fino filtro de nuvens pouco amistosas, o paso soprava muito frio em nossas caras e pequenas bolinhas de neve congelada. O dia estava escuro, mas tínhamos de caminhar de óculos de sol se não quiséssemos levar pelotas de gelo nos olhos.

Baixamos do paso até um vale repleto de lagoas e sempre na direção de um pico mais pontiagudo bem adiante, a noroeste. Esse é o Cerro Clem, de 890 m, posicionado entre a Laguna Hermosa e a Laguna Martillo e vizinho dos Montes Lindenmayer. Esses nomes foram uma homenagem, em 2001, do Ministério dos Recursos Naturais chileno ao escritor Clem Lindenmayer, idealizador dessa travessia e autor do guia Trekking in the Patagonian Andes, publicado pela Lonely Planet em 1992 e meu atual livro de cabeceira.

Nosso quarto dia de trekking nos levou até a Laguna las Guanacas pelo trajeto mais espetacular do circuito. Novamente um dia de passagem alta pela montanha –Paso Virginia, ponto culminante da travessia com 869 metros. Se a NASA pensa em organizar passeios na lua, o Paso Virginia seria um lugar perfeito para treinamento e simulação. O vento corre solto. Totens de pedra indicam o caminho e sempre há um totem mais adiante, lembrando as ilusões de ótica dos desertos. Quando finalmente chegamos ao ponto mais alto, o queixo cai. Um terraço de gelo precariamente pendente se debruça sobre um declive de mais de 45° de inclinação que despenca em terreno de pedregulhos e pó de pedra, terminando às margens de um corpo de água oblongo, como uma banheira cavada na pedra. Essa é a Laguna los Guanacos. Mais além se distingue nitidamente degraus na paisagem que descem até o Canal Beagle e o fim da travessia.

O vento no topo do paso estava tão forte que quase arrancou o GPS da minha mão. Meu bloco de anotações quase decola. Adriana, ao meu lado, estava tento problemas, sendo sacudida de um lado para outro numa dança esquizofrênica, perdida entre desequilíbrio e agilidade. A capa de chuva de sua mochila havia se transformado em pára-quedas e a chacoalhava feito espanador na mão de faxineira. O vento era constante e muito forte, com lufadas dignas de furacão a cada três segundos. Não havia perigo muito maior que um tombo e joelhos ralados, mas a altura e a exposição na beirada da montanha adicionavam uma dose de pânico. Com a rapidez que o momento exigia e as condições permitiam, consegui guardar a capa de chuva, o GPS, o bloco de notas e manter meu próprio equilíbrio, tudo sem gritar mais que vinte palavrões!
Começamos a descida e dez metros adiante o vento desapareceu completamente, cortado pelo topo do paso. Parecia outra dimensão. A inclinação da descida era tão acentuada que duvidei um instante de sua possibilidade. “Só se for rolando”, pensei com meus bastões de caminhada. Dei o primeiro passo e escorreguei, patinei, deslizei como se estivesse em esquis de neve por uns dois metros. Outro passo e outra esquiada. Ah! Mais fácil e muito mais divertido do que havia imaginado. 300 metros de desnível em 600 metros caminhados diagonalmente.

A Laguna las Guanacas deixou de ser uma lagoa faz pouco tempo, quando caçadores autorizados pela nova legislação explodiram com dinamite as represas feitas por castores e caçaram os animais. Controle ambiental. O local agora é um labirinto de canais castoreiros que se transformaram de inúmeros riachos. Acampamos ao lado de um deles. Sete horas de caminhada. 10,61 quilômetros percorridos.

O último dia de trekking pode facilmente ser incluído no quarto dia, já que são apenas 4,60 quilômetros até a estrada que percorre a costa norte de Navarino e de onde se pode conseguir uma carona até Puerto Williams. O caminho segue por trechos de bosque intercalados por áreas rochosas. A trilha desaparece diversas vezes ou se confunde com caminhos de vacas e cavalos. Mas a direção é uma só: para baixo, em direção ao Canal Beagle. Nossa relativa falta de sorte nos obrigou a caminhar até a cidade, perfazendo 12 quilômetros totais no dia e cinco horas de atividade.

O balanço final do circuito Dientes de Navarino foi: 49,31 quilômetros totais, 5 dias e 4 noites, 3.734 metros acumulados subidos e o mesmo tanto descidos já que o percurso é circular, 18 horas e 46 minutos de trekking descontados todas as paradas e 2 brasileiros bastante satisfeitos.

ANOTE AÍ

Transporte e traslados: Chegar à Ilha Navarino já foi mais difícil. Duas novas empresas farão a distância entre Ushuaia e Puerto Williams com barcos grandes o suficiente para enfrentarem qualquer tempo. www.lakutaia.cl e www.ushuaiaboating.com.ar. Via Chile, a companhia aérea DAP voa regularmente de Punta Arenas a Puerto Williams www.aeroviasdap.cl e, via marítima, procurar a Transbordadora Austral Broom www.tabsa.cl. Horários, preços e detalhes devem ser adquiridos diretamente com os prestadores de serviço.

Hospedagem e alimentação: Puerto Willians oferece poucas opções de hospedagem, um excelente hotel (www.lakutaia.cl) e diversas pousadas meio improvisadas (www.ecoturismocabodehornos.cl). A cidade tem supermercado, mercearia e negócios com toda a alimentação necessária para o trekking.

Informação e equipamento: A única loja de aventura na cidade, que aluga e vende de tudo um pouco (barracas, mochilas, sacos de dormir, bastões de caminhada, fogareiros, combustível, etc.) também serve como ponto de informação sobre a trilha. Copias de mapas esgotados podem ser emprestados (www.turismoshila.cl).

Estrutura e serviços: A cidade tem agência de correio, banco com caixa eletrônico para saques com cartões de crédito, hospital, cybercafé, aeroporto, táxi, cafés, bares, restaurantes simples e um museu etnológico que vale uma visita.

Guias e grupos: O Hotel Lakutaia (www.lakutaia.cl) e a loja de equipamento Turismoshila (www.turismoshila.cl) organizam grupos para o trekking e oferecem serviço de guias locais.

Literatura de suporte: O Beagle na América do Sul, Charles Darwin, Editora Paz e Terra. A Narrative of the Voyage of HMS Beagle, Robert Fitzroy, Editora Henry Colburn. Em setembro a Kalapalo Editora (www.kalapalo.com.br) lançará o Volume 2 da coleção Guia de Trilhas TREKKING com mapa, tabela de orientação, altimetrias e toda a informação necessária para a realização do roteiro de forma auto-suficiente.

RECOMENDAÇÃO: Antes de começar o trekking, avise a polícia chilena do seu roteiro, tempo estimado de duração, nome e número de documento, telefones para contato no Brasil em caso de emergência e qualquer outra informação importante, em caso de necessidade de resgate. O serviço de resgate não existe, mas a polícia sairá à sua procura caso você desapareça nas montanhas – desde que eles saibam da sua presença!