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NO QUINTAL DE CASA / DITINHO JOANA

gui 01/08/2014 0
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O escultor Ditinho Joana em seu ateliê, no bairro do Quilombo, em São Bento do Sapucaí

– Campainha de pobre é latido de cachorro – atendeu a porta o escultor Ditinho Joana, limpando lascas de madeira do avental de tecido grosso.

Seu ateliê, no bairro do Quilombo, na cidadezinha serrana de São Bento do Sapucaí, no verdume de morraria da Serra da Mantiqueira, é um misto de residência simples, uma minúscula varanda nos fundo entulhada de ferramentas e obras em andamento e outra varanda, maior e na frente da casa, construída de vigas e tábuas de madeira que serve de loja, sala de exibição e museu.

– O vento trás a natureza para dentro de casa – foi a segunda coisa que Ditinho disse, chutando folhas secas de árvores para baixo de um banco de madeira no alpendre onde suas obras prontas estavam expostas.

Nascido em 1945 como Benedito da Silva Santos, esse neto de ex-escravos fugidos e refugiados na montanha, baixo, energético e de feições mais indígenas que negras, é um dos escultores mais respeitados do Brasil. Sem exageros.

– Minha arte é de raiz – ele disse uma ou outra vez.

Difícil encontrar uma definição melhor.

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Fachada da casa e ateliê de Ditinho Joana, no bairro do Quilombo, em São Bento do Sapucaí

Aos 29 anos de idade, trabalhador na roça, órfão de pai, Ditinho Joana trabalhava para sustentar a mãe já idosa e ajudar na criação de duas irmãs mais novas. Um dia ele encontrou um pedaço de raiz morta no caminho e enxergou no troço de pau a forma de um animal. Usando as ferramentas que dispunha, machadinha, facão, canivete e afins, deu ao toco o formato que seus olhos viram.

– Porque vocês estão vendo nas minhas obras o que meus olhos viram antes – explica ele como quem descreve uma epifania.

Sua primeira exposição foi no mercado municipal de São Bento do Sapucaí. Se alguém mostrava interesse em comprar um trabalho, ele não sabia se devia vender ou que preço cobrar. Alguém se encantou com o trabalho delicado, inspirado, autêntico, que retrata a vida na roça. Animais do campo, gente rude em atividades corriqueiras como remendar sapatos, carregar mourões, rachar madeira, desatolar um caminhão do barro. Tudo lapidado em madeira de lei, lustrado, encerado e sem pintura. Ditinho foi parar em São Paulo.

Uma das obras terminadas de Ditinho Joana

Uma das obras terminadas de Ditinho Joana

– Quando o Pietro Maria Bardi viu uma escultura minha, perguntou o que eu ia fazer com ela. Expliquei que ia visitar o Paulo Machado de Carvalho para dar de presente a ele em troca de aparecer na televisão. Eu queria aparecer na televisão. O Bardi disse apenas “espero que o Paulo saiba entender o valor do seu trabalho”.

Ditinho foi parar na televisão, como queria. Paulo Machado de Carvalho, advogado e empresário paulistano conhecido como “Marechal da Vitória”, por ter sido o chefe da delegação brasileira campeã de futebol nas Copas de 58 e 62, era também fundador e dono da Rede Record de Televisão. Por isso o Estádio do Pacaembu em São Paulo leva o nome dele. Pietro Bardi foi o principal responsável pela criação do MASP, Museu de Arte de São Paulo. Além de assegurar meia hora de mídia nacional ao artista, Paulo Machado enfiou um cheque no bolso da camisa de Ditinho.

– Quando saí pra rua e olhei o cheque, quase caí sentado. Deu para comprar essa casinha onde moro até hoje.

Depois disso, Ditinho apareceu várias outras vezes na TV. Foi entrevistado pelo Jô Soares e diz estar se preparando para aparecer no programa do Rolando Boldrin.

– Só que no Boldrin eu sei que vou ter que tocar viola, declamar poesia, contar história e puxar reza, por isso estou me preparando.

A título de ensaio, talvez, Ditinho contou as histórias atrás de cada peça pronta, cada escultura repleta de detalhes tão vivos que a madeira parece se mover. Ele imita os personagens entalhados um a um, com diferentes vozes e entonações, como se a obra fosse uma imagem tridimensional congelada de um filme projetado apenas na cabeça dele. Aliás, acho que é isso mesmo.

Detalhe de uma águia de material orgânico seco na entrada do ateliê

– Vá fazer um pouco de hora na praça e volta daqui a quinze minutos – disse Ditinho para mim. – Eu vou preparar uns tarecos com café e não quero deixar você aqui sozinho. Se você ficar eu vou querer te contar mais histórias e você não vai experimentar os bolinhos.

Fui. No galpão de artesanato vizinho ao ateliê conversei com a gerente e expliquei que esperava os tarecos ficarem prontos. Ela ficou surpresa. Ditinho não fazia seus famosos bolinhos para qualquer um, explicou ela. Vocês devem ter se dado muito bem. De fato, houve muita sintonia em nosso encontro.

Eu conheci o trabalho de Ditinho Joana por acaso. Nós dois somos convidados no filme “Caminhos da Mantiqueira”, do cineasta Galileu Garcia Jr. O documentário mostra a cultura tropeira e serrana da Mantiqueira e Ditinho é um dos artistas entrevistados. Eu sou um dos aventureiros e amantes da natureza. Nós tínhamos já esse histórico entre nós e a certeza que os dois eram apaixonados por esse canto do mundo.

Os tarecos, que também são conhecidos como “orelhas de padre”, são parecidos com bolinhos de chuva só que “não são nem fritos, nem assados” segundo o próprio Ditinho. Cremosos, macios e depois de prontos passados no açúcar e canela, merecem um estante especial no acervo do artista.

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O escultor Ditinho Joana em seu ateliê de trabalho

Sua peça mais popular, que ele inclusive desenvolveu como chaveiro, é uma botinha caipira bem surrada e muito comum na roça. “A botinha representa a nossa caminhada da vida. Subi e desci. Andei depressa e devagar. Cansei e descansei. Entristeci e me alegrei, e assim sempre caminhei. Hoje estou gasta e cheia de marcas, mas com certeza valeu a pena”, Ditinho escreveu e entrega a mensagem junto com a escultura.

Sabedoria?

– Eu sou sábio como meu avô – completa Ditinho – e como ele, já deixei o baú aberto, porque essa sabedoria eu não posso levar comigo.

O Ateliê do Ditinho Joana fica logo depois da pracinha principal no pequeno Bairro do Quilombo, em São Bento do Sapucaí, aos pés da Pedra do Baú, na Serra da Mantiqueira. Quem quiser saber mais detalhes, acesse o site do artista (http://www.atelieditinhojoana.com.br/). De bicicleta eu chego lá em menos de uma hora. Esse é um dos tesouros que estão no quintal da minha casa.