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SERRA FINA, PERNA GROSSA

gui 12/09/2017 0
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Foto: Celio Vong. Bike no topo do Quartzito.

Segundo o bom e velho Aurélio, o Grande Dicionário da Língua Portuguesa, a palavra “aventura” é descrita, primeiramente, como: “empresa, empreendimento, ou experiência arriscada, perigosa, incomum, de finalidade ou decorrência incerta”. No meu entendimento pessoal, a palavra também é sinônimo de “ousadia”, “novos horizontes” e “expansão da zona de conforto” — mas essa visão particular não é oficial.

Quando decidi arriscar fazer a travessia da Serra Fina de mountain bike — considerado “o roteiro de trekking mais difícil do Brasil” — meu objetivo era simplesmente “arriscar”. Então, pelo menos segundo o Aurélio, eu fazia “aventura”. E a tal “decorrência incerta”, na minha cabeça, estava subdividida em etapas… Em que parte eu abriria o bico!

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Silhueta da bike com a Serra Fina entre o selim e o guidão.

Parti de casa, no município de Gonçalves, Minas Gerais, no sábado, 2 de setembro, de bicicleta rumo a Passa Quatro (MG), início da Serra Fina. Eu viajava numa mountain bike SCOTT SCALE 710 PLUS montada com peças SHIMANO DEORE XT, com bolsas de bikepacking. Comigo viajou o cineasta Cauê Steinberg, diretor do premiado filme TRANSPATAGÔNIA, que acompanhou essa primeira parte da expedição de motocicleta. Eu carregava 23 kg de equipamento, incluindo acampamento completo, água e comida para 4 dias.

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Foto: Celio Vong. Guilherme Cavallari descendo com a bike em algum lugar entre o Capim Amarelo e a Toca do Lobo.

Nesse primeiro dia, depois de uma partida tardia, chegamos até o bairro do Campista, em Campos do Jordão (SP), onde acampamos selvagem perto do Rio Sapucaí. Eu já havia pedalado exatamente esse trecho não fazia muito tempo, no feriado de Corpus Christi, quando realizei a cicloviagem BIKEPACKING MANTIQUEIRA 2017. No meio da noite, quando já estávamos dormindo pesado, apareceram três moradores locais completamente bêbados e encantados por encontrarem uma barraca de acampamento no caminho entre o bar e a casa deles. A gritaria que eles fizeram foi um pouco assustadora no meio da noite, mas eles eram inofensivos — embora um pouco chatos. Só fiquei com medo de um deles cair em cima da nossa barraca. Foi um dia de 42 km de pedal.

No segundo dia de cicloturismo em estilo bikepacking, descemos uma das vertentes da serra da Campos de Jordão até o asfalto de Wenceslau Brás (MG), onde eu tinha dúvida de como chegar até o município de Delfim Moreira (MG), sem pedalar por asfalto. Todas minhas pesquisa terminaram inconclusivas e voltei a pedalar, depois de uma longa pausa de almoço, completamente desanimado e abatido. A perspectiva de pedalar pela MG-360 por mais de 20 km era arrasadora. Mas depois de apenas 4 km na rodovia, reconheci o pináculo de uma capela do lado oposto da pista — uma igrejinha que estava no mapeamento que fiz de toda a Serra da Mantiqueira para cicloturismo em mountain bike e publiquei no GUIA DE TRILHAS CICLOMANTIQUEIRA. E o dia foi salvo! Consegui pedalar por estradas de terra em vez de pavimento com tráfego de caminhões.

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Serra Fina, vista do caminho entre Marmelópolis e Passa Quatro.

Ao chegar a Delfim Moreira, já no fim do dia, decidimos acampar às margens do Rio Antônio, que cruza a cidade. Encontramos uma linda cachoeira que espaço suficiente para uma barraca e já imaginávamos um banho refrescante, depois de um longo dia quente e empoeirado, quando sentimos o cheiro de esgoto na água. O rio era completamente poluído, exatamente como aconteceu com nosso acampamento próximo do Rio Sapucaí, em Campos do Jordão, no dia anterior. É revoltante — para dizer o mínimo — descobrir que esses tesouros naturais, numa área de preservação como a Serra da Mantiqueira, são usados como escoamento de dejetos humanos! Se os municípios da Região Sudeste — a supostamente mais rica e desenvolvida do país — não têm a competência de construir redes de saneamento básico, o que se pode esperar dessas cidades? O que se pode esperar de um país assim?

Impossibilitados de acampar à beira d’água, pedalei mais alguns quilômetros, entrei na cidade já perto do lusco-fusco, e comecei a subir a serra de Marmelópolis na esperança de encontrar um local de acampamento minimamente limpo. Terminamos acampando no quintal da Fazenda Brumado de Baixo, num terreiro de grama entre dezenas de galinhas, patos, marrecos, três cachorros e alguns cavalos, de propriedade do simpático Sr. Paulo Alves. Nosso anfitrião permitiu que tomássemos banho em seu chuveiro e ainda insistiu em que comêssemos sua comida: arroz com brócolis e feijão com muito alho, que turbinamos com linguiça defumada de paio, que trazíamos na bagagem. Depois do jantar jogamos uma partida de buraco e passamos uma noite de reis. Foi um dia longo de 67 km pedalados.

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Guilherme Cavallari e Cauê Steinberg no dia da partida, no REFÚGIO KALAPALO, Gonçalves (MG).

Nosso terceiro e último dia de cicloturismo em estilo bikepacking nos levou pelo município de Marmelópolis (MG), depois pela base do Pico do Marins e do Pico do Itaguaré, por uma das estradas de terra mais lindas que conheço, até despencarmos a montanha até a cidade de Passa Quatro (MG), onde seguimos até o REFÚGIO SERRA FINA. A subida final até o refúgio, de propriedade do amigo montanhista Maurício “Anchovas”, foi torturante. Eu já estava cansado e os 9 km de terra com muita pedra solta e inclinação alta, esgotaram o que restava da minha energia. Mas cada centímetro vencido valeu o esforço. Fomos muito bem recebidos, tomamos banho, comemos bem e dormimos bem. Esse foi um dia de 57 km totais.

Descansamos no REFÚGIO SERRA FINA no dia seguinte, para nos prepararmos para a empreitada inédita de tentar percorrer a Serra Fina de mountain bike. Minha expectativa era mista. Eu não saio de casa para fracassar numa expedição, mas tampouco tenho compromisso com o sucesso. Meu foco é sempre o esforço. Por um lado, eu sabia que as dificuldades do terreno, a caraterística escassez de água da travessia e o clima quente e seco, seria obstáculos monumentais. Por outro lado, eu sabia que não desistiria facilmente, que daria meu máximo dentro do limite de segurança e bem-estar. Tudo era possível, como deve ser numa aventura de verdade.

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Guilherme Cavallari partindo do REFÚGIO SERRA FINA para começar a travessia.

Do REFÚGIO SERRA FINA, consegui pedalar todo o trecho de cerca de 1,7 km até a Toca do Lobo, importante ponto de abastecimento de água no começo da travessia. Dali em diante, acabou a moleza. O trecho seguinte, de mata fechada, com trilha estreita por terreno íngreme, era impossível de pedalar. Nenhum problema, isso já estava no programa. Com muita dificuldade, já que eu e a bicicleta não cabíamos na trilha, empurrei morro acima até chegar a uma sequência de cristas de vegetação ressequida e rala. Mas nem esse trecho foi fácil, porque pedras grandes e areia dificultavam a tração e comprometiam o equilíbrio. Uma queda poderia me jogar dezenas de metros montanha abaixo.

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Pausar para um selfie no empurra-bike.

E o que estava ruim ficou ainda pior nos trechos seguintes, novamente de mata e trilha estreita, em subida íngreme, onde eu precisava levantar o conjunto de bicicleta e equipamento, pesando 24 kg, para subir degraus e mais degraus com tudo no braço. Eu suava em bicas e consumia muito mais água do que o previsto — um problema na Serra Fina. Num determinado trecho, corroído pela erosão de caminhantes, havia cordas para ajudar na escalada. Era impossível subir com a bicicleta nas costas porque o mato nas laterais da trilha e as pedras no piso não permitiam. Era impossível também subir com o peso da bicicleta no braço e ainda escalar a montanha. Já era noite. Pensei em desmontar a bike, subir com as rodas e as bolsas de bikepacking e depois voltar para pegar o resto. Demoraria uma eternidade. Acabei abrindo mão do princípio de “não aceitar ajuda”, que eu havia praticado até então, subi com as bolsas de bikepacking nas mãos, descarreguei tudo no acampamento no ombro do Alto do Capim Amarelo, voltei com o Cauê ao ponto de escalaminhada e içamos a bicicleta juntos.

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Bike na Toca do Lobo, início da travessia.

Com a barraca montada, quase 8h da noite e depois de 12 horas de trekking com apenas uma parada de 20 minutos para comer, fizemos um levantamento da água que tínhamos. Eu havia trazido 7 litros e o Cauê 6 litros. Água que deveria nos levar até próximo da Pedra da Mina e ponto culminante da travessia. Eu havia consumido 3 litros de água e estava sedento. Cauê havia consumido 2 litros e também tinha muita sede. Nós consumiríamos cerca de 4 litros para jantar e fazer o café da manhã. Restariam apenas 4 litros para os dois e a perspectiva de tempo até o próximo ponto de abastecimento de água, arrastando a bicicleta, era de 12 a 18 horas de caminhada. Ou seja, não tínhamos água suficiente.

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Poço natural na Toca do Lobo, água potável e banho merecido.

Depois do jantar, discutimos a situação. Eu estava exausto. Minhas pernas estavam lanhadas, arranhadas, cortadas e batidas como resultado da luta de jiu-jitsu que travei com a bike, a vegetação e a trilha estreita e íngreme. Luta que perdi feio! Normalmente levo 3 horas para caminhar esse trecho de apenas 6 km de extensão, que demorei 12 horas para fazer arrastando a bicicleta. Para chegar à Pedra da Mina, mais 10 km adiante, calculei que seriam preciso 20 horas em vez de apenas 4 ou 5 horas. Dois dias! Mais dois dias até o Pico dos Três Estados e mais um dia bem longo de 12 a 14 horas para terminar a travessia naquele ritmo. Em outras palavras, se a travessia da Serra Fica era feita em 15 horas divididas em 4 dias de trekking, em bikepacking seriam necessárias quase 70 horas. Uma semana! Deixar o equipo e reabastecer de água seria insano, acrescentaria pelo menos mais meio dia de trânsito e mais desgaste na montanha. Não era esse o propósito.

Não valia a pena continuar.

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Empurrando a bike depois da Toca do Lobo.

Nunca gostei das famosas frases do ciclista norte-americano Lance Armstrong, mais conhecido por suas mentiras do que por suas conquistas. Numa delas, ele diz: “A dor é passageira, desistir é para sempre”. Armstrong venceu sete vezes o Tour de France, a prova mais difícil e tradicional do ciclismo de estrada mundial, todas dopado com as drogas mais poderosas de aumento de produtividade existentes. Ele se tornou uma espécie de herói mundial e modelo de sucesso. Enganou todo mundo, mas nunca enganou a mim. Vencer a qualquer custo nunca fez parte do meu repertório e, portanto, Armstrong nunca foi meu herói.

Eu desisti — com muita tranquilidade — depois da primeira montanha da Serra Fina e, mesmo assim, o projeto SERRA FINA, PERNA GROSSA não fracassou. Viajei 166 km autossuficiente de bikepacking por três longos dias pela Serra da Mantiqueira, com dois acampamentos selvagens, ligando o REFÚGIO KALAPALO — a escola de aventura e abrigo de montanha que criei e administro com minha esposa, Adriana Braga — até a Serra Fina. Venci, em seguida, 900 m verticais até o ombro do Alto do Capim Amarelo. Dei tudo o que tinha e terminei satisfeito com meu empenho. Conhecer meus limites e saber a hora de desistir é muito mais sensato do que persistir simplesmente pelo medo da desistência.

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Crista antes do pico do Quartzito, com alguns poucos trechos pedaláveis.

Agora é esperar pelo filme-documentário SERRA FINA, PERNA GROSSA que o Cauê vai produzir pela FÁBULA FILMES. Tenho certeza que será sensacional. Essa aventura foi sensacional. E que ninguém duvide que vou voltar!

Algumas considerações: 1) O impacto ambiental causado por mim e minha bicicleta durante essa tentativa de travessia não excedeu ao impacto que eu causaria — e que qualquer pessoa causa — se eu estivesse caminhando apenas com uma mochila, já que 99% do tempo a bicicleta foi empurrada muito lentamente ou carregada por mim. Levar uma bicicleta na Serra Fina sempre será uma atividade de “empurra e carrega a bike” pela própria característica do percurso. 2) Torço para que a Serra Fina se torne um parque nacional, com regras claras de uso e limitação de visitantes. Quando isso acontecer, se bicicletas forem proibidas, serei o primeiro a aplaudir a iniciativa. Até lá, a coexistência democrática e pacífica continua sendo sempre meu principal objetivo social na vida. Para mim, não existe a “turma do trekking” e a “turma do mountain bike” — esse provincianismo é ridículo e só divide forças —, reconheço apenas “aqueles que amam e aqueles não amam a natureza”. 3) Durante todo o projeto, recolhi lixo de terceiros no caminho. Faço isso normalmente e sempre que posso. Não encontrei esse trecho inicial da Serra Fina especialmente sujo, como já aconteceu em outras ocasiões em que fiz a travessia completa. Havia o clássico papel higiênico abandonado nas moitas aqui e ali, infelizmente, e mais erosão do que no passado devido ao enorme fluxo de visitantes, em especial aqueles que correm na trilha, cavando o solo com suas passadas apressadas, ou aqueles que carregam mochilas exageradamente pesadas (geralmente guias de montanha). O fato é que não existe presença humana sem impacto ambiental4) Questiono (vejam bem, questiono, não sou contra) o argumento de que as fezes deveriam ser retiradas da montanha por quem as produz através de dispositivos como Shit Tube e afins. A Serra Fina é uma montanha bastante grande e se as pessoas cavarem latrinas de pelo menos 50 centímetros de profundidade, se não enterrarem papel higiênico ou jogarem qualquer outro lixo convencional junto com seus dejetos, se não comprimirem o material pisando em cima e suprimindo a circulação do ar que vai alimentar as bactérias, se jamais defecarem próximo a nascentes e cursos d’água, não vejo porque o ecossistema da montanha não consiga dar conta de absorver toda essa matéria orgânica, inclusive para benefício da flora e da fauna local. Acho engraçado essa aversão ao cocô humano, como se fosse substância radioativa. Evitar que a montanha se torne uma imensa latrina, como acontece com os rios da Mantiqueira, é fundamental e, para isso, educar continua sendo sempre a melhor alternativa.

Essa iniciativa tem o patrocínio:

logo Scott

logo SPOT

logo SHIMANO

O apoio:

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E é uma produção:

 

logo Kalapalo

logo Fábula Filmes