2010, setembro – MOUNTAIN VOICES 115

Brasileiro costuma ter complexo de inferioridade quando o assunto é montanhismo. Não é que não temos montanhas, mas elas são “nanicas” quando comparadas aos Andes, ao Himalaia, ou mesmo aos Alpes. É uma questão quantitativa, não qualitativa. Nossas montanhas carecem de altitude, mas não carecem de qualidade. Não existe montanha “melhor” ou “pior”, existe apenas a expectativa do montanhista. Expectativa gera ansiedade, que por sua vez é prima-irmã da frustração. Quando conseguimos olhar a montanha como ela realmente é, limpa da nossa expectativa, evitamos ansiedade e frustração e descobrimos que toda montanha é única. Toda montanha é incomparável.

Eu me incluo na crítica. Desde que comecei a pedalar por trilhas, em 95, sonho em realizar grandes aventuras de bike… Cruzar a Suíça pelos Alpes, percorrer a Carretera Austral na Patagônia chilena, fazer a Rota da Seda de Marco Polo, percorrer as Montanhas Rochosas nos Estados Unidos, etc. Demorou um tempo até eu incluir roteiros nacionais na minha lista de desejos de aventura. Era como se o mundo fosse repleto de oportunidades e o Brasil, vazio.

Em 2001 decidi pedalar de São Paulo a Petrópolis em uma tandem (bike dupla), com um amigo, carregando nosso equipo de escalada em rocha em um trailer de bike acoplado à traseira da magrela. Partimos da Serra da Cantareira, na divisa entre as cidades de São Paulo e Mairiporã. A idéia era escalar picos ao longo do caminho. Escalamos no Guaraiúva, subimos a via normal do Baú, fizemos a Pedra do Picu e o mal tempo nos impediu de escalar o Dedo de Deus. Foram 800 quilômetros de bike e conseguimos conectar as regiões das duas maiores metrópoles do país por estradas de terra. Fiquei enlouquecido com a região, quase toda na Serra da Mantiqueira. Acordei para as possibilidades do Brasil como destino de aventura internacional. Nascia o embrião da cicloMANTIQUEIRA.

Ano passado, 2009, depois de oito anos como autor e editor de livros com roteiros de aventura, retomei o projeto de criar um mega roteiro de mountain bike brasileiro, capaz de concorrer em pé de igualdade com os melhores percursos do mundo. Nenhuma ousadia, eu sabia que havia o potencial. Quase um ano de trabalho e o resultado foi um livro com 1.168 quilômetros de trilhas minuciosamente mapeadas, conectando toda a Serra da Mantiqueira. Um roteiro circular e ininterrupto de 30 dias de duração, desenhado na forma de quatro anéis interligados, com a cidade de Extrema em uma ponta e o distrito de Ibitipoca na outra. Como o circuito conecta cidades, vilas e distritos, todos com alguma estrutura de turismo, o aventureiro não precisa levar barraca, saco de dormir, fogareiro e comida na bike – o que facilita muito e torna o percurso mais acessível. O ciclista também pode optar por fazer o roteiro em etapas, perfazendo um anel por vez se não tiver 30 dias disponíveis para pedalar.

Quase não há asfalto no percurso, só para entrar e sair de cidades maiores. As estradas de terra e trilhas estreitas (singletracks) que compõem a cicloMANTIQUEIRA passam ao lado de ícones naturais da região, como a Pedra do Baú, o Parque Nacional do Itatiaia, Agulhas Negras, Pico dos Marins, Pico do Itaguaré, Pico da Pedra da Mina, Pedra do Picu, Pedra Selada, a Cachoeira da Fragária, o Pico do Papagaio, o Parque Estadual de Ibitipoca, Cachoeira dos Pretos e vários outros. Isso tudo faz da cicloMANTIQUERA o maior circuito de mountain bike do Brasil e um dos maiores e mais belos do mundo.

Fiz todo o mapeamento em mountain bike, um anel de cada vez, quase todo o tempo sozinho.

No DIA 2 da cicloMANTIQUEIRA dormi em Monte Verde. Quando viajo de bike, levo tudo em uma pequena mochila de 30 litros… Algumas ferramentas para consertar eventuais problemas mecânicos, uma muda de roupa reserva para usar fora da bike, meu kit de banheiro, um mini kit de primeiros socorros, jaqueta impermeável, algumas barras de cereais, três litros de água em um sistema de hidratação com mangueira, os mapas do trajeto, máquina fotográfica digital e GPS. Fazia bastante frio. Decidi comemorar o início da aventura com um jantar regado a bom vinho tinto em uma excelente cantina italiana. Fui ao restaurante chique vestindo um calça legging de nylon azul turquesa, uma camiseta laranja super fina em tecido sintético, meias grossas de trekking puxadas por cima da legging até o meio da canela e um par de sandálias Crocs também laranja. Para me proteger do frio eu usava minha jaqueta impermeável de Gore Tex azul marinho e um gorro de fleece ferrugem. Roupas técnicas de aventura, escolhidas pela praticidade, leveza e eficiência. Preocupação zero com a moda. Eu parecia um alienígena no meio dos demais clientes do restaurante – casais passando um final de semana romântico na montanha. A garçonete torceu o nariz quando me viu e acabou me instalando em um canto escondido, para não espantar a freguesia. Mas acho que diverti a platéia e devia ter cobrado couvert artístico.

Depois de descer a montanha de Gonçalves a São Bento do Sapucaí, no DIA 4 da cicloMANTIQUEIRA, parei para dar um abraço no Eliseu Frechou. Essa descida é uma das mais vertiginosas do circuito, daquelas de fritar as pastilhas dos freios. São 650 metros de desnível em menos de seis quilômetros, do Campestre ao Serrano. Eu vinha descendo a milhão, derrapando nas curvas, esquiando sobre as pedras soltas, saltando valetas, sentindo o vento frio queimar meu rosto e mãos, cuidando para não errar a linha de descida e virar carne moída, mas não conseguia deixar de olhar a Pedra do Baú no horizonte. Desse ângulo ela é um quadrado perfeito, uma coroa em cima da montanha.

O Eliseu não pedala. Ninguém é perfeito. Mas ele entendeu o conceito por trás do roteiro. Ele mora na Mantiqueira e não precisa ser apresentado aos encantos naturais da região. Almoçamos juntos e ele me entrevistou para seu blog. Ele e eu fizemos a opção, anos atrás, de transformar nossas paixões pela aventura em profissão e estilo de vida. O projeto de pedalar toda a Serra da Mantiqueira, ida e volta por caminhos diferentes, soou para ele tão lógico e positivo quanto soa, para mim, encarar os paredões de granito de Cochamó, na Patagônia chilena.

No DIA 11 da cicloMANTIQUEIRA, de Itamonte a Maringá, distrito de Visconde Mauá, passei horas empurrando a bike por um lamaçal. Uma trilha erodida, estreita, cavada por patas de cavalos e pneus de motocicletas, incrustada na mata cerrada. Míseros cinco quilômetros que me custaram quase três horas de suor. Esse é o dia mais longo do circuito, com 91 quilômetros. Perto de anoitecer, decidi dividir o percurso em dois dias e pernoitei à beira do Rio Aiuruoca, próximo de sua nascente em Itaiaia, em uma das várias pousadas no caminho. Dormi em uma cabana de madeira, com a lareira acesa, numa enorme cama de casal com lençóis impecáveis, ouvindo o barulho do rio. Eu e minha bike no quarto. Depois de um longo dia de esforço, esses pequenos luxos não têm preço.

No mesmo trecho do roteiro, mas no dia seguinte, parei em um boteco na minúscula Santo Antônio. Fazia um calor infernal e era meio-dia. Pedi um Gatorade. Não tinha. Pedi água mineral com gás. Não tinha. Sem gás? Nada. Pensei em tomar uma Coca-Cola, mas nem isso tinha. Injuriado, perguntei se tinha cerveja e pinga. Ah, isso tinha! Para escolher! Nisso entra o bêbado local (toda cidadezinha assim tem um bêbado de plantão aos finais de semana), pede uma pinga, mata o copo, pede outra, fala uma grosseria para uma mendiga que entrou no bar para pedir esmola e puxa conversa comigo, a dois palmos de distância do meu nariz. Ele queria saber quem eu era, da onde eu vinha, para onde eu ia e, principalmente, quanto valia a minha bike. Achei essa última pergunta particularmente estranha. Eu já estava mal humorado pela falta de opções de bebida e, confesso, tenho preconceito contra bêbados inconvenientes.

O cara era maior que eu, devia ter quase 1,90 de altura e pesar uns cem quilos. Talvez por isso tanta inconveniência, ele devia se sentir invencível. Normalmente sou calmo e pacífico, mas quando percebi minha resposta foi: “Não te interessa quanto vale minha bike”, olhando fundo nos olhos mareados.

O bêbado enrijeceu o corpo. Vi que ele tentava avaliar a situação e decidir se pulava em cima de mim ou não. Ficamos alguns segundos nos olhando sem piscar. Finalmente ele se decidiu e optou por simplesmente me xingar. Nada muito ofensivo, papo de bêbado. Eu continuava encarando e esperando. Mais insultos e o bêbado saiu do bar, entrou em um carro, ligou o motor e saiu cantando pneus. Na esquina ele fez um retorno e passou novamente na frente do bar, olhar fixo em mim.

Alguns minutos depois, quando montei na bicicleta para seguir viagem até Maringá, caiu a ficha… O cara podia estar me esperando sair de bike para se vingar e me atropelar nas estradas de terra desertas da região. Paranóia… Pedalei uns dez quilômetros olhando para trás a cada cem metros, ouvidos atentos ao menor ruído de motor. Fiz planos de emergência, imaginando como escapar do possível ataque… Eu jogaria a bike e pularia a cerca de arame farpado na beira da estrada…

Obviamente nada aconteceu, o cara provavelmente só mudou de bar e continuo bebendo e incomodando os outros o resto do dia. Essa é a diversão “normal” em boa parte do interior do Brasil.

No DIA 16 da cicloMANTIQUEIRA, quando cheguei a Conceição do Ibitipoca, já havia pedalado mais de 600 quilômetros e estava na extremidade oposta do percurso. Foi engraçado, eu sabia que daquele momento em diante eu estaria “voltando para casa”, que ali era a metade do percurso, mas havia também a possibilidade de estender o roteiro e pedalar para leste ao invés de voltar para sudoeste, para São Paulo. Era como se o mundo fosse todo conectado por trilhas e bastaria eu seguir pedalando em uma direção para dar a volta no planeta. Quem pedala 600 km também pedala 6.000 ou 60.000. Mas eu resisti à tentação, infelizmente.

Como fiz o mapeamento em etapas, cumprindo os percursos dos quatro anéis que compõem a cicloMANTIQUEIRA, minha expedição de mapeamento terminou em Aiuruoca, no DIA 20 do circuito. Acho que sou um cara escolado em bike, afinal tenho 10 livros publicados com roteiros de mountain bike que, juntos, somam quase 6.000 quilômetros de trilhas percorridas e mapeadas exclusivamente por mim. Também fui mensageiro de bicicleta em Berlim, Alemanha, por um ano e meio, quando pedalava em média 100 km por dia, no inverno de 20 graus negativos e verão de 30 positivos. Durante vários anos participei de competições duras de mountain bike, por terrenos difíceis, dias a fio, inclusive em provas de Corrida de Aventura virando a noite em cima da bike. Mas completar a cicloMANTIQUEIRA teve um peso emocional extra e não contive as lágrimas. Sentei na padaria da praça da matriz, tomei um Gatorade (dessa vez tinha) e comi meia dúzia de pães de queijo enquanto as lágrimas escorriam no meu rosto. Para disfarçar eu não tirei os óculos escuros. Para dizer a verdade, acho que nem tirei o capacete… Ainda bem, assim ninguém me reconhece se eu voltar lá.

Mas duvido que alguém complete esse percurso e não se sinta emocionado. Trinta dias de pedal, 1.168 quilômetros, três estados, dezenas de municípios, milhares de metros subidos e descidos pelas montanhas da Mantiqueira acabam por cobrar sua taxa. É duro voltar para a rotina da cidade grande depois de ver tanta natureza, tanta beleza, tanta gente simpática e acolhedora, depois de vencer distâncias e obstáculos com nada mais que a força de seu corpo e sua vontade. Tudo isso com a humildade e a simplicidade que a bicicleta traz. Isso, para mim, é o espírito da aventura, a alma do montanhismo. E para manter as coisas no plano prático… Mais vale uma Mantiqueira à mão do que dois Andes voando!

Está lançado o desafio, você encara essa experiência?

Guia de Trilhas cicloMANTIQUEIRA
Guilherme Cavallari
Kalapalo Editora
2009
128 páginas
R$ 39
ISBN 9788588493063

Mais informações e para adquirir o livro: www.kalapalo.com.br

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