Ninguém gosta de ouvir os sonhos dos outros. Talvez seja por isso que existam psicanalistas – profissionais pagos para prestar atenção a um troço chato pacas, e tentar fazer um monte de bobagens fazer sentido. Mas vou forçar a amizade e contar um sonho que tenho repetidamente há anos. Quem quiser analisar, fique à vontade, mas vale lembrar que só existe uma coisa mais chata do que ouvir sonhos dos outros: ouvir as análises…
Nesse meu sonho, subo numa bicicleta e saio pedalando. Até aí, tudo bem. Só que não existe bicicleta alguma. Eu mexo as pernas no ar, sentado no ar, e me desloco rapidamente para onde quiser. É o equivalente ao sonho que muita gente tem de voar, mas eu sou ciclista, fazer o quê?…
Lá estou eu, “voando”, pedalando a bicicleta mais leve do mundo, pensando com meus botões: “Por que será que só eu faço isso? Por que será que as pessoas simplesmente não usam a bicicleta que todos têm dentro de si? É tão fácil!”.
No sonho, realmente acho estranho que só eu pedalo desse jeito. À minha volta tudo é normal – carros, pedestres apressados, poluição, barulho. Só eu estou desfrutando daquela sensação maravilhosa de liberdade, de vôo. Existe também um certo orgulho pessoal, um sorrisinho maroto que desenha curvas nos cantos dos meus lábios, como quem diz: “Ah! Se todo mundo tivesse essa capacidade que eu tenho de simplesmente subir na bicicleta invisível e sair pedalando!?…” E junto com esse orgulho egoísta vem uma imensa tristeza, uma certa solidão.
No sonho, obviamente eu me sinto bem. Não vou perder tempo descrevendo muito essa sensação de bem estar, acho que quem lê este relato também pedala, ou já pedalou, e sabe bem do que estou falando. Certas verdades não precisam de muita explicação. “Pedalar é bom!” – definitivamente é uma delas.
No sonho, não consigo entender por que estou sozinho, por que ninguém mais está pedalando à minha volta. No sonho, tenho certeza que todo mundo tem uma bicicleta invisível disponível dentro de si, basta tirá-la da mente e sentar-se sobre ela.
Em geral esse sonho termina assim: chego em casa, desço da bike invisível e, por um segundo, penso: “Se consegui pedalar a bike invisível, então também devo conseguir voar…”
E arrisco um voo lento, baixo, para dentro de casa. E, no sonho, é claro, eu voo.
Agora, o mais maluco é que em determinados dias, mesmo acordado, olho à minha volta para as coisas que faço no dia a dia – trabalho, obrigações burocráticas da vida, busca incessante por dinheiro, – e consigo sentir a mesma sensação de leveza da bike invisível… Como se o sonho espelhasse a essência da realidade e não um desejo fantasioso impossível.
Nesses dias eu caminho mais leve, com aquele sorriso maroto no rosto.
Taí um sonho que eu gostei de ouvir. E nem precisei cobrar o serviço.