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AVENTURA EM USHUAIA

Kalapalo 09/08/2011 0

Relato escrito por mim em 2005 e publicado na revista Aventura e Ação, na sessão Vida Dura. Revisado e atualizado para esse blog.

O fim do mundo não é aqui

Muito brasileiro sai de casa, aponta a bússola para o sul e segue quase sem parar até a cidade que eles pensam ser a última antes da Antártica. Essa é a fama e a atração de Ushuaia, na Patagônia argentina. Eu também caí nesse discurso, mas lamento informar que fomos enganados! Ushuaia é a última cidade argentina do Hemisfério Sul, mas não é a cidade mais austral do mundo. A cidade mais ao sul do planeta é chilena, para desespero argentino, e se chama Puerto Williams. Fica ali pertinho de Ushuaia, do outro lado do Canal Beagle, na Ilha Navarno e, para piorar a situação, tem um roteiro clássico de trekking chamado Dientes de Navarino (link para fotos aqui no blog). E não adianta os argentinos dizerem que se trata apenas de uma base da marinha chilena, porque eu estive lá também e pude comprovar os fatos… Puerto Williams é uma cidade de verdade, com gente de verdade, muito embora (segundo os argentinos)… Chilenos!

Mas voltando ao tema Ushuaia… Quando você chegar lá poderá comprar todo o tipo de souvenir com a inscrição: “Fim do Mundo”. De camisetas a bonés, passando por xícaras e pantufas, gorros e calcinhas. Quase todos os 132 mil turistas que visitam Ushuaia todos os anos levam alguma lembrancinha do gênero.

Com 50 mil habitantes, Ushuaia é a capital da província argentina da Terra do Fogo – nome que veio do ano 1520, quando a primeira expedição de circunavegação da Terra, de Fernão de Magalhães, passou ao longo da costa e viu inúmeras fogueiras acesas e mantidas por índios locais. Mas Ushuaia só apareceu como vila em 1884, fundada sobre as bases de uma missão anglicana.

Em outubro de 2005, a convite da prefeitura local, decidi fazer um reconhecimento das possibilidades de aventura no tal Fin del Mundo, também conhecido como Patagonia Austral. Munido de máquina fotográfica, caderno de anotações, mountain bike, mochilas, botas e roupas técnicas, fui recepcionado por Luis Turi, dono da Compañia de Guias de Patagonia, a melhor agência de aventura da região. Luis já vivia há dez anos em Ushuaia, sempre percorrendo trilhas e escalando as montanhas locais. Escreveu e publicou um guia local (Guía de Sendas & Escaladas de Tierra del Fuego), esgotado, raro, com desenhos, fotos e croquis, que tenho o privilégio de ter uma cópia. Todos os anos ele organiza diversas atividades de aventura, que vão de trekking leves a expedições multiesportivas de vários dias. Em 2009 estive lá de novo e o cara continuava na ativa.

A temporada de verão naquelas latitudes começa em dezembro, mas percorri alguns dos principais pontos de aventura com ele e seus guias em uma espécie de expedição de pré-temporada. Na verdade, fizemos uma mini-maratona de aventura digna de qualquer corrida de aventura, só que sem pressa, com o simples objetivo de desvendar a inóspita paisagem local e apreciar seu potencial. Fizemos de tudo… Trekking, caiaque oceânico, montanhismo e mountain bike em três semanas de tirar o fôlego.

Aventura também é cultura

Um mês antes de partir para Ushuaia, li um livro chamado El Último Confín De La Tierra (link para a resenha do livro aqui no blog), publicado em 1954 pelo segundo homem branco a nascer ali – o famoso Lucas Bridges. Seu pai, o pastor Thomas Bridges, fundou a missão anglicana que deu origem à cidade. Lucas logo aprendeu os idiomas dos índios locais e fundou estâncias produtoras de lã na região. Viveu com os índios e como um índio, apesar de sua educação britânica. Figura controversa, explorador, antropólogo, empresário, deixou sua marca no cenário local e no universo da avenrtura. No livro ele narra com tanta presença de espírito o dia a dia dos índios, seus costumes, crenças e histórias que, enquanto meu avião sobrevoava as montanhas nevadas e os vales profundos, eu forçava a vista tentando ver indígenas ainda caçando guanacos. Pura imaginação. Para ver algo assim eu precisaria, primeiro, de uma luneta superpoderosa e, segundo, de uma máquina de viajar no tempo. Todos os índios da Terra do Fogo estão extintos enquanto etnias.

Assim que aterrissei conheci meus futuros companheiros de jornada em um ousado roteiro de trekking criado por Luis Turi e batizado de Cruce de La Tierra del Fuego – Daniel Catania e Carolina Etchegoyen, esposa do Luis. Nossa aventura seria uma caminhada selvagem por regiões desabitadas do Lago Yehuin, ao norte da Ilha Grande da Terra do Fogo, até Ushuaia, cruzando inclusive o grande Lago Fagnano. Quatro a seis dias de trekking e cerca de 60 km em linha aérea, que poderiam aumentar consideravelmente com o ziguezague da caminhada.

Saímos de carro de Ushuaia, pela famosa Ruta 3 argentina, e paramos na Estancia Carmen, próximo do Lago Yehuín e no final de uma solitária estrada de terra. Caía um chuvisco fino e gelado. O vento fincava agulhas. Caminhamos aproximadamente 10 km nesse primeiro dia, do Lago Yehuin ao Lago Yakush.

Nesse curto trecho, diversas vezes caminhamos por bosques sem trilhas, guiando-nos pela direção aproximada e pela experiência do Daniel. Meia hora dentro do primeiro bosque e já vimos um guanaco. Historicamente arisco e indômito, foi preciso cruzá-lo com a mansa vicunha para produzir a lhama, que ajudou na construção do Império Inca.

Dormimos essa primeira noite de travessia em uma cabana de madeira construída por lenhadores e abandonada há décadas, carinhosamente batizada pelos guias de Rancho de Lata. Seu teto é feito de chapas de zinco. Imunda, toda cagada por pássaros e infestada de pequenos camundongos, ela nos protegeu do vento incessante e do frio abaixo de zero que fez na madrugada. Só de pensar no possível frio que passaríamos dentro de uma barraca de nylon lá fora, o barracão parecia uma suíte presidencial.

Diversas estações em um dia só

Tudo muda com muita rapidez na Terra do Fogo. O clima muda de primaveril a invernal em minutos e em seguida parece que chegou o verão. Ventos fortes e gelados, sol ardente, chuva, granizo, céu azul – tudo vem embaralhado e de forma surpreendente. Nem compensa tirar os óculos escuros ou a jaqueta de Gore-Tex. Mas nem pensar em ficar sem protetor solar, especialmente porque o buraco na camada de ozônio fica estacionado bem acima dessa região nessa época do ano.

Nesse segundo dia, percorremos mais 10 km em sete horas para atravessar o trecho do Lago Yakush ao Lago Fagnano. Saímos de um bosque e entramos em um pântano, cuidando para não encharcar os pés. Impossível. Logo voltamos para dentro de outro bosque e novamente outro charco, onde nos assustamos e fomos assustados por uma manada de cavalos semi-selvagens. Uma cena de tirar o fôlego. O tropel fazia o chão tremer e a força os animais, naturalmente muito grandes, era multiplicada por seu número e pela união de seus movimentos. Uma onda de músculos e pelos e patas e muito barulho. Imaginei o choque dos índios sul-americanos quando viram os primeiros cavalos espanhóis. Força nenhuma parece poder contê-los. Saímos do alagadiço bem em frente ao largo e volumoso Rio Claro. Águas de degelo densa e turva. “Aqui a gente atravessa”, disse o Daniel, já começando a tirar as botas e a se enfiar na água.

Eu não podia acreditar. Eu não queria acreditar. Para um brasileiro, aquela água gelada estava pelo menos 10º C mais fria que para um argentino criado na Terra do Fogo e hidratado a mate desde a infância.

Sob protestos, tirei botas e meias, muitas meias, as botas, soltei a barrigueira da mochila cargueira e entrei na água, que chegou à altura das minhas costelas. Vou poupar a descrição da sensação que tive quando a água gelada me atingiu ali, “na região das virilhas”. Eu ria de nervosismo enquanto lágrimas caiam livremente dos meus olhos. Na margem oposta, já fora da água, a sensação foi tão boa, tão energética, que quase faço a travessia novamente. Mas não precisei pensar nem dois segundos para desistir da idéia. Parece que, na vida, tudo é questão de costume.

O Paso Del Francés

Em um bote inflável com motor de popa, atravessamos o gigantesco Lago Fagnano, de 100 km de extensão e dividido em uma das extremidades por Argentina e Chile. Em seguida, nos metemos em mais bosques, para dentro de um vale, para subir a encosta de uma montanha e “fazer o paso”, que significa subir e descer uma barreira montanhosa pela passagem mais baixa e segura.

Fiquei abismado com a devastação causada pelos castores na região. Esses roedores canadenses foram importados para a Terra do Fogo pelo governo militar da ditadura argentina, em uma frustrada tentativa de possibilitar uma fonte de renda alternativa através da caça aos habitantes locais. A pele do castor é tida como valiosa no Canadá.

Acontece que na Terra do Fogo o castor canadense encontrou uma série de fatores extremamente favoráveis, como a inexistência de predadores naturais, inverno bem mais curto e muito menos rigoroso que o canadense e fartura de alimento. O resultado foi que o animal cresceu o dobro do seu tamanho original e sua pelagem ficou curta e grossa, perdendo qualquer valor comercial.

Para se proteger e inundar as raízes das árvores cujas folhas lhes servem de alimento, os castores fazem diques, represando as águas de riachos. Só que as árvores fueguinas (da Tierra del Fuego), de raízes pouco profundas, apodrecem e morrem quando suas raízes são encharcadas. O resumo da ópera foi a devastação de enormes áreas verdes, transformadas em piscinões rodeadas de árvores secas, roídas até a morte. Mas, como tudo tem seu lado bom, os lagos artificiais construídos pelos roedores canadenses atraem mais aves aquáticas. Por todos os lados vêem-se gansos, patos, cisnes e outras tantas aves.

Acampamos a 665 m verticais do paso, com a barraca confortavelmente instalada sobre um colchão de folhas secas.

No paso, encontramos a temida “neve de primavera”, meio derretida e com uma crosta gelada por cima.  Mole como um sorvete em alguns pontos, dura como gelo em outros. Cada passo era uma surpresa. Às vezes patinávamos, às vezes afundávamos até o quadril. Caminhamos em fila indiana, um pisando nas pegadas do outro, o homem da frente fazendo muita força, os demais caminhando como se pisassem em ovos para não quebrar os degraus esculpidos pelas passadas do líder. No verão, na alta temporada, toda essa neve desaparece e o paso é ultrapassado por terreno rochoso.

No topo – sanduíches e vento forte. Uma vista maravilhosa e a sensação típica de liberdade e satisfação… Lugares-comuns do universo da aventura, mas que são legítimos e honestos.

No vale, logo abaixo, encontramos em abundância dois tipos de vegetação muito comuns da região: a Bolax gummifera e a turba. A primeira é uma grande bola verde e fofa, composta de incontáveis raminhos emaranhados, que dá um excelente colchonete para a siesta depois do almoço. A segunda é uma espécie de esponja amarelada espanhada como capim, parecido com um líquen. Quando a gente pisa em cima dela, esguicha água para todos os lados. Um martírio caminhar sobre a turba. Uma delicia descansar sobre a Bolax.

Terminamos o dia em um refúgio chamado Solar del Bosque, onde nos esperavam chuveiro quente, camas limpas, jantar na mesa e um fogão a lenha para secar nossas meias e botas. Verdadeiros luxos depois de quatro dias inteiros de trekking.

Um mundo inesquecível, esquecido

A chegada em Ushuaia aconteceu pelo Paso Olum, que na língua indígena significa Paso del Espíritu de la Tierra. A vista que se tem da baía de Ushuaia é esplendorosa, ainda mais depois de cinco dias de caminhada. Durante todo o trajeto praticamente não existe trilha, caminha-se quase sempre por bosques e fundos de vales.

Os bosques não têm a vegetação densa e fechada típica da Mata Atlântica brasileira. Os obstáculos mais comuns são árvores caídas, riachos, diques de castores, pedras e a mudança rápida de clima – que fazem do trekking um desafio físico e técnico ao mesmo tempo. Não passa uma hora sem que a gente encontre um animal selvagem, uma frutinha silvestre comestível, um riacho de água cristalina e potável.

Quando dei o último passo da travessia, na ponte sobre o Rio Olívia e à beira da Ruta 3 – a estrada federal que liga o mundo a Ushuaia – tudo o que eu pensava era: “Caramba, como descrever a maravilha que foi essa experiência?”…

Só me resta tentar.

Navegação e o Elo Perdido no Canal de Beagle

Beagle era o nome do barco do capitão Fitz Roy, que de 1831 a 1836 deu a volta ao mundo levando a bordo o naturalista Charles Darwin, que posteriormente publicou a Teoria da Evolução das Espécies. O Beagle esteve na região de Ushuaia e levou alguns indígenas para Londres. Darwin chegou a dizer que “se os índios fueguinos não são o Elo Perdido, [a ligação científica entre o homem primata e o homem moderno], estão muito próximos de sê-lo”.

Conhecido por suas águas geladas, ventos tempestuosos e clima imprevisível, o canal já provocou o naufrágio de inúmeras embarcações… E lá estava eu, protegido por uma couraça de neoprene, dentro de um frágil caiaque de fibra de vidro para duas pessoas, pronto para dois dias de remo com o Daniel Urriza, guia local muito experiente que também trabalha com a Compañia de Guias de Patagonia.

Com equipamento de qualidade, Long John de 3 mm, meias e luvas de neoprene, jaqueta impermeável, remos de fibra de carbono e kevlar, enfrentamos dois dias de mar. No primeiro, zarpamos da marina da cidade e visitamos as Ilhas Bridges, logo em frente a Ushuaia, no meio do canal. Ventos traiçoeiros e correnteza forte foram constantes. Chegamos à maior das ilhas, Lucas Bridges (o mesmo do livro) e havia ali uma colônia de lobos-marinhos tomando sol. O macho dominante devia pesar bem mais de uma tonelada. Vê-los a poucos metros, em seu habitat natural, rosnando e atirando-se na água a nossa passagem, nadando a nossa volta e por baixo do caiaque, foi emocionante demais para um pobre coração tupiniquim. Eu não sabia se celebrava ou batia em retirada!

No segundo dia de remo fomos da Baía de Lapaia, limite com o Chile e dentro do Parque Nacional Tierra del Fuego, até Ushuaia com uma parada estratégica na Isla Redonda. Essa ilhota de baía protegida e um bar muito simpático, mantém um posto dos correios de onde se pode enviar cartões postais para casa “da agência postal mais ao sul do mundo”… Novamente o marketing enganoso do fim do mundo, mas divertido do mesmo jeito. Claro que mandei um postal para minha mulher…. Se não podemos vencê-los, brincamos com eles!

Graças às bênçãos de São Darwin, o vento soprou todo o tempo a nosso favor. Pássaros marinhos, como petréis, gaivotas e um tipo de pato exclusivo da região chamado de “pato a vapor”, davam rasantes sobre nós ou fugiam desesperados correndo pela água à nossa passagem. Ushuaia oferece aos aventureiros uma infinidade de possibilidades de atividades no mar, como remo ou vela, mas só a visita aos lobos-marinhos de caiaque já justifica a viagem até o fim do mundo (verdadeiro ou não).

De bike pela Terra do Fogo

A primavera não é a melhor época do ano para pedalar pelas trilhas da Terra do Fogo. O excesso de umidade provocado pelas chuvas e pelo degelo, adicionado à ação das muitas vacas que pisoteiam as trilhas (substitutas das ovelhas do começo da colonização européia), somam forças para criar uma paçoca generalizada de barro para todo lado.

Pedalei com Luis Turi de Ushuaia até a Estancia Haberton, a primeira estância (fazenda) da região, fundada pela família Bridges, a aproximadamente 78 km de distância do centro da cidade, que fizemos em longas 10h30min. O singletrack do começo da trilha, depois de sairmos dos limites urbanos, foi um dos melhores e mais bonitos que já pedalei na vida – técnico, estreito, sempre costeando o Canal Beagle, entre bosques floridos, com vários córregos e rios para atravessar e com o vento nas costas. Mas, não demorou muito, logo começou o lamaçal e o empurra-bike sem fim. Mas não dava para reclamar, bastava olhar para qualquer lado e a beleza justificava qualquer esforço.

Terminada a sessão de bosque, depois da Estancia Punta Segunda, pedalamos o tempo todo por campos e trilhas à beira de praias. Na Estancia Remolino, mais ou menos na metade do caminho, a trilha vira uma estrada de terra bem conservada, sem muitas subidas ou descidas. Levei uma mountain bike do Brasil (bem embalada e protegida numa mala-bike), mas é possível alugar mountain bikes razoáveis em Ushuaia.

Uma alternativa de trilha é pedalar até a Estancia Haberton pelo asfalto da Ruta 3 e depois pela estrada de terra da Ruta J. A distância total aumenta em uns 10 km. Mas não é a mesma coisa que pedalar margeando o Canal Beagle todo o tempo, como eu fiz. Ir a Haberton é sempre mais fácil que voltar, já que o vento é predominantemente no sentido leste-oeste. Não acredita? Veja as árvores-bandeira pelo caminho, deitadas pelo vento constante.

O cume do Monte Alvear

O Monte Alvear, com 1.473 m, é a montanha mais alta da região de Ushuaia. Seu cume está coberto por uma geleira que não derrete no verão. Por causa da existência de neve e gelo, sua ascensão é mais delicada que técnica. A inclinação máxima em uma das pendentes é de 65° e não há muita exposição à altura, com apenas duas ou três exceções. É o tipo de montanha gelada que serve bem para “a primeira escalada em neve” de alguém.

Normalmente, leva-se dois dias para escalar a montanha, com 6 a 8 horas por dia e um acampamento selvagem em neve a uns 400 m verticais do cume. Luis Turi e eu decidimos fazer tudo em 8h30min direto, por medo do tempo virar e não podermos embolsar o cume. A estratégia deu certo, mas não foi fácil. Apesar da baixa altitude do cume, a ascensão acumulada da escalada não é moleza, já que começamos à beira da Ruta 3, a apenas 120 m acima do nível do mar. Ou seja, subimos e descemos mais de 1.300 m verticais, parando apenas para fazer eventuais fotos e comer um sanduíche no cume… Um dos sanduíche mais frios da minha vida!

Aos mais experientes e técnicos, há também o Monte Olívia (1.326 m), uma pirâmide de gelo, neve e rocha podre com muita exposição à altura, mas grau de dificuldade técnica relativamente baixa. Aos menos experientes ou ousados, Ushuaia está cercada de cumes de ascensão fácil e livres de neve no verão.

Coisas argentinas

Mas aventura não é apenas caminhar, remar, pedalar e escalar, também é conhecer gente e ter contato com diferentes estilos de vida e culturas. Apesar da proximidade geográfica, os argentinos são bem diferentes de nós, brasileiros. Eles têm crenças, manias, habilidades e trejeitos que saltam aos nossos olhos.

De manhã, por exemplo, eles tomam mate – o chimarrão do gaúcho brasileiro. À tarde também. Na verdade, eles tomam mate o dia inteiro. O argentino adora o Che Guevara e, por sua vez, não é muito fã dos norte-americanos. Muito mais politizados que nós, eles adoram manifestações, greves, piquetes e afins. Presenciei um bloqueio de operários revoltosos na Ruta 3 e perdi uma manifestação anti-Bush por apenas um dia. Os tradicionais cafés argentinos, com vista para as ruas, e onde podemos passar horas lendo, escrevendo, meditando, conversando ou assistindo a vida passar sem o assédio dos garçons, ainda estão na moda. E o tango nunca saiu da moda, é ainda a música mais tocada nas rádios tradicionais e especialmente dentro de taxis. Segundo os argentinos, “Carlitos [Carlos Gardel] está cantando cada dia melhor!” e Maradona é um deus… Ah! E as Ilhas Malvinas são argentinas, mesmo se o resto do mundo prefere chamá-las de Falkland.