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OS TROPEIROS / DVD GLOBO RURAL

Se os bandeirantes expandiram as fronteiras do Brasil, foram os tropeiros que unificaram culturalmente e deram personalidade ao nosso país. Mulas originalmente criadas no Uruguai e levadas ao Rio Grande do Sul para procriação foram, por mais de dois séculos, comercializadas em São Paulo. De São Paulo foram abastecer as Minas Gerais, Goiás e além. Mulas eram tratores, motores, transporte, moeda corrente e sinal de status. Importantes cidades brasileiras surgiram nos rastros das tropas, em pontos estratégicos por onde as mulas e burros passavam.Tudo isso a gente ouve na escola, nas enfadonhas aulas de história fechados entre quatro paredes. Mas só fui aprender de verdade o que significou realmente o tropeirismo quando ganhei o mundo, quando caí na estrada, especialmente durante os trabalhos de mapeamentos de trilhas para mountain bike que fiz pelo Brasil. Aos poucos vou entendendo porque esse tema – tropeirismo – me interessa tanto.Em 2009, quando produzi o Guia de Trilhas cicloMANTIQUEIRA (LINK PARA MATERIAL SOBRE O LIVRO NO SITE), mapeamento em bicicleta de 1.168 km de trilhas por toda a Serra da Mantiqueira, de Extrema a Ibitipoca, ida e volta por caminhos diferentes, percebi que havia um elo cultural de ligação por toda a região. Ele estava na língua, na culinária, lendas, costumes, música, vestimenta, tradições. Enfim, em tudo. Chamei essa cultura geral de “caipira”.Dois anos depois, em 2011, produzi e mapeei novamente de bicicleta o Guia de Trilhas Serra Geral (BluGrama), (LINK PARA MATERIAL SOBRE O LIVRO NO SITE), com 1.611 km de trilhas ligando Blumenau (SC) a Gramado (RS), ida e volta por caminhos alternativos diferentes. Novamente entendi que havia uma forte cultura local que, inclusive, conseguia amalgamar as diversas e também fortes culturas europeias locais do sul do Brasil. Alemães, italianos, croatas, ucranianos, portugueses, espanhóis, descendentes de índios, negros, todos enfim, pareciam unidos por uma afinidade comum. Chamei novamente essa cultura de “caipira”

Também em 2011, tive o privilégio de participar como entrevistado do documentário Caminhos da Mantiqueira (LINK PARA MATERIAL SOBRE O FILME NO SITE), do diretor de cinema Galileu Garcia Jr, que abordou a Serra da Mantiqueira como uma região cultural peculiar e única. Isso fica claro no filme e mais claro ainda para quem, como eu, ou qualquer leitor dos meus livros, percorreu de bicicleta a região de ponta a ponta. Mais uma vez, chamei essa cultura de “caipira”.

Faz meses, comprei a coleção de DVD da série de TV produzida pelo Globo Rural, da TV Globo, intitulada Os Tropeiros. Demorei muito tempo para me decidir por assistir ao documentário, embora o assunto me interessasse muito. Tinha medo de me decepcionar. Confesso que tinha uma ponta de preconceito, afinal era uma produção da TV aberta, popular, comercial, geralmente inculta e superficial. Paguei caro o preconceito. A série é sensacional, bem pesquisada, bem produzida, inteligente, criativa, entusiasmante e chegou a arrancar lágrimas e gritos de mim. Assisti os três DVD em três dias, pedalando minha bicicleta de spinning, em três sessões matinais de treinos durante uma semana.

O enredo trata de uma expedição de Viamão, no interior do Rio Grande do Sul, até Sorocaba, no interior de São Paulo, tangendo uma tropa de mulas de verdade, por caubóis modernos. Foram mais de 1.700 km de estradas de terra percorridas por um grupo de peões, um veterinário, várias equipes de filmagem, repórteres do Globo Rural e outros repórteres da TV Globo produzindo matérias paralelas e educativas e, claro, uma tropa de mulas completa e de verdade.

O documentário aborda com clareza e bom gosto aspectos históricos do início dos muares brasileiros – os locais de criação de mulas – peculiaridades culturais do Brasil colônia, estudos de comportamento animal , explicações sobre as trilhas percorridas desde o começo do século XVIII, ocupação territorial da região, surgimento e crescimento de vilas e cidades, cultura local, herança histórica e mais um monte de temas.

Mas, basicamente, trata-se de uma grande aventura, daquelas que gente como eu gosta. Mais de dois meses por estradas de terra, cruzando rios sem pontes, matas fechadas, pastos sem fim, comunidades esquecidas pelo tempo, desfrutando de jantares à beira de fogueiras, subindo e descendo montanhas, vivendo acidentes, incidentes, entreveros, desentendimentos, fazendo amizades… Exatamente como acontece com toda expedição de verdade.

Assistir a esse documentário me fez compreender ainda melhor a herança tropeira que resiste em todo o Brasil, especialmente no interior do país – no Brasil “caipira”. Hoje as mulas desapareceram, já não há mais necessidade comercial para elas. Mas, considero que nós, aventureiros modernos, mountain bikers e trekkers, somos os verdadeiros herdeiros desse espírito aventureiro e desbravador dos tropeiros do passado, dessa fibra genética. Com a força de nossas pernas percorremos os caminhos abertos pela força das patas das mulas. Milhares de quilômetros de Brasil, por trilhas, mantendo vivo o fogo de uma cultura que valoriza a natureza e a força de vontade do homem.

OS TROPEIROS
Globo Rural/TV Globo
2006
Caixa com três DVD
295 minutos de duração
www.globomarcas.com.br