A MARCHA PARA O OESTE / ORLANDO E CLAUDIO VILLAS BÔAS

22 de novembro de 2009

O Brasil tem heróis, exploradores e aventureiros de primeira ordem, que nada deixam a dever a qualquer grande nome internacional. Mas, por falarmos português e não um idioma colonialista moderno, por não pertencermos ao clube dos donos do dinheiro, por não estarmos localizados no umbigo político mundial, nossos grandes heróis mal são conhecidos dentro do próprio território nacional.

Os irmãos Villas Bôas (grafia que eles próprios utilizavam), em especial Cláudio e Orlando, estão entre esses grandiloquentes nomes mundialmente reverenciados e mal-conhecidos no Brasil. Indicados ao Prêmio Nobel da Paz em 71 e 76 por seus trabalhos de proteção das tribos do Xingu, foram os principais responsáveis pela existência do Parque Indígena do Xingu. Nele vivem hoje dezesseis etnias que, se não fosse a área de proteção, muito provavelmente estariam extintas ou totalmente aculturadas.
O livro A MARCHA PARA O OESTE é de autoria de Cláudio e Orlando Villas Bôas e narra, na primeira pessoa, boa parte dos 42 anos que os irmãos viveram com os índios. O foco principal é a epopéia da Expedição Roncador-Xingu, criada em 1943 no governo Getúlio Vargas com o objetivo de explorar e abrir o Brasil Central para o desenvolvimento e a integração nacional. Ao saberem da Expedição, Leonardo, Cláudio e Orlando Villas Bôas tentaram se engajar. Foram recusados por serem “educados demais” para a empreitada. O governo queria apenas sertanejos “duros na queda”. Alguns meses depois os três irmãos se alistam novamente, dessa vez barbudos e maltrapilhos, declarando-se analfabetos. Foram imediatamente aceitos e em pouco tempo assumiram importante papel de liderança e administração à frente da Expedição. Assim começa a epopéia.
O rasto da Expedição deixou 1.500 km de picadas abertas na mata virgem, diversas tribos indígenas contatadas pela primeira vez e pacificadas, muitas pistas de pouso para teco-teco abertas no meio do nada e que depois se tornariam as vilas e cidades que hoje povoam o Centro Oeste brasileiro – como Nova Xavantina, Aragarças, Barra do Garças, entre tantas – até culminar com o Parque Indígena do Xingu.
A narrativa não é floreada, romantizada, colorida. É dura como a selva. Mas também é rica em linguagem e trejeitos do sertanejo, repleta de tiradas engraçadas típicas do homem simples da terra. Trata-se de um diário de expedição. A rotina é repetitiva: caçar e pescar para sobreviver, abrir picadas na floresta, remar canoas dias inteiros, se encharcar chuva, fritar ao sol, ser picado por todo tipo de insetos, sofrer de malária, padecer de diarréia, lamentar dor de dente, encontrar onças, procurar índios e abrir campos e mais campos de aviação para não morrer de fome ou cair no esquecimento absoluto.
Os autores são divertidos, bem-humorados e conseguem fazer piada mesmo quando a situação não é nada alegre. Gente morre e a fome é companheira constante. Suas observações sobre as diversas culturas indígenas ensinam mais que muitos livros de antropologia. Seus comentários sobre a política indígena nacional e a administração pública que preza pelo índio chegam a ser desconcertantes. O leitor chega a ficar envergonhado. Nomes ilustres como Rondon, Darcy Ribeiro, Antonio Callado, Noel Nutels, para citar aqueles que eu mais admiro, andam livremente pelas páginas do livro.
A vida na selva, para um civilizado, não é nada fácil e o livro confirma isso com todas as letras. Isso acrescenta mérito à vida, à obra e ao resultado deixado pelos irmãos Villas Bôas. As partes que narram a aproximação, conquista e pacificação de tribos de índios bravos, como os Txucaramãe, Txicão, Kalapalo e Juruna, são especialmente ricas e interessantes. Enchem qualquer “aventureiro de fim de semana”, como eu, de entusiasmo juvenil.
Mas, o que mais me impressionou foi constatar que há apenas cinquenta anos o Centro Oeste brasileiro era absolutamente selvagem, enquanto que hoje é uma gigantesca plantação de soja e pasto de milhões de cabeça de gado. Arrepiante.

A Marcha para o Oeste
Cláudio Villas Bôas e Orlando Villas Bôas
Editora Globo
1994
616 páginas
ISBN 9788525012456

2 respostas para “A MARCHA PARA O OESTE / ORLANDO E CLAUDIO VILLAS BÔAS”

  1. FFF disse:

    Estou quase terminando de ler esse livro e é impressionante mesmo a história dos Villas Bôas. Quem dera mais gente no Brasil os conhecesse e pudesse valorizar o que é nosso. Apesar dos muitos defeitos na absorção dos índios na nossa sociedade, duvido que outro país tenha tido o respeito que nossos desbravadores tiveram com a cultura indígena.
    abraço, belo texto!

  2. ROSALBA GOMES OLIVEIRA disse:

    Villas Bôas… gostaria muito de conhecer alguém da família, meu pai fez parte dessa história. O chamavam de MANÉ DA ONÇA. Está no livro.
    Quem poderia me ajudar. Tenho esse livro. Meu pai foi um grande homem.

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ROSALBA GOMES OLIVEIRA
Villas Bôas... gostaria muito de conhecer alguém da família, meu pai fez parte dessa história. O chamavam de MANÉ DA ONÇA. Está no livro. Quem poderia me ajudar. Tenho esse livro. Meu pai foi um grande homem.FFF
Estou quase terminando de ler esse livro e é impressionante mesmo a história dos Villas Bôas. Quem dera mais gente no Brasil os conhecesse e pudesse valorizar o que é nosso. Apesar dos muitos defeitos na absorção dos índios na nossa sociedade, duvido que outro país tenha tido o respeito que nossos desbravadores tiveram com a cultura indígena.
abraço, belo texto!

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