Biblioteca Aventura »

AN ENGLISHMAN IN PATAGONIA / JOHN PILKINGTON

John Pilkington é um reconhecido autor, tanto de guias de trekking quanto de literatura de viagem. Ele participou, ao lado de Hilary Bradt, da produção dos primeiros guias de trekking do Peru, ainda na década de 80. Mas seu currículo vai longe, inclui expedições em trekking de mais de 800 km pelo Nepal e uma viagem por toda a extensão da Rota da Seda. Todas essas aventuras foram transcritas em excelentes livros.

An Englishman in Patagonia, é um título ligeiramente enganoso. John é inglês e a primeira idéia que temos do livro é de tratar-se de uma narrativa na primeira pessoa de uma viagem pelo sul da América do Sul, uma aventura. Esse realmente é o pano de fundo do texto. Mas o livro também é uma releitura do famoso livro de outro inglês, Bruce Chatwin, que percorreu toda a região 25 anos antes e produziu o clássico In Patagonia.

O “inglês na Patagônia” que o título sugere é John, é Bruce e também é todos os descendentes de britânicos que, por qualquer razão, visitaram ou se mudaram para a região ao longo de vários séculos de história. John não perde suas referências, não deixa de lembrar e relembrar suas origens oferecendo inclusive inúmeras comparações entre a Grã-Bretanha e a Patagônia, mas consegue uma visão bastante abrangente a ponto de tornar seu texto universal.

O percurso escolhido para a aventura e a narrativa é basicamente o mesmo eleito por Bruce Chatwin, de Santiago até a Terra do Fogo pelo Chile na maior parte do tempo, com uma breve passagem pela Ilha Rei George, com retorno a latitudes mais baixas, até Buenos Aires, transitando por território argentino. John demorou cerca de nove meses para fazer o trajeto e viajou muito de carona em qualquer tipo de veículo.

Diferente de Chatwin, John Pilkington é menos crítico, menos ácido, menos arrogante, mas também menos perspicaz ou genial. Ele se expõe mais e prefere não oferecer análises definitivas ou fazer julgamentos. Também diferente de Chatwin, Pilkington aparentemente não romanceia a realidade, não completa as lacunas da observação com elementos da fantasia. Por ser mais “aventureiro” (no sentido moderno da palavra, relativo a esportes e turismo de contato com a natureza), John admira e aceita melhor a natureza, tanto cênica quanto humana, com menos crítica e mais deleite.

O livro tem seu lado didático e enciclopédico, como tudo o que se escreve sobre a Patagônia (afinal é tanta história que fica difícil não parecer professoral em textos sobre a região). Obviamente ele conta e explica passagens de personalidades de fama vinculada à geografia austral, como Charles Darwin, W. H. Hudson, Lady Florence Dixie, Fernão de Magalhães, Sir Francis Drake, Butch Cassidy, Lucas Bridges, Eric Shipton, A. F. Tschiffely, Paul Theroux, George Chaworth Musters, Rosie Swale, Julius Popper e vários outros. Muitos dos quais já tiveram livros resenhados por mim aqui no blog (ver links) e outros em breve terão.

Para meu gosto pessoal, esse é um dos melhores livros de aventuras, de viagem, pela Patagônia que já li. Vejo claramente em John Pilkington um “irmão de espírito”. Sua aventura patagônica não difere muito das minhas andanças pela região, ou mesmo minhas viagens por outros cantos do mundo… Com pouquíssimo dinheiro, contando sempre com a generosidade de estranhos, aberto a novas experiências, nem sempre bem informado, nem sempre totalmente preparado, disposto a ouvir mais do que falar, viver mais do que estudar. Ele, como eu, acampa em cemitérios se for preciso, caminha debaixo de chuva forte e contra o vento, estica o dedão e implora caronas quando a situação aperta, não orienta sua vida em torno da busca pelo conforto. 

An Englishman in Patagonia tem agora, depois de lido, lugar de destaque na minha estante patagônica. Esse livro alimentou ainda mais meu desejo de um dia escrever um texto de literatura de viagem sobre essa região que tanto me fascina e atrai.

An Englishman in Patagonia
John Pilnkigton

1991
Random Century, London
223 páginas
ISBN 9780712635820
(meu livro é uma primeira edição em capa dura assinada pelo autor)