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AN OFFICIAL HISTORY OF SCOUTING

É vício, não posso ver livraria que tenho que entrar e fuçar. Estava na Avenida Paulista, meia hora adiantado para uma reunião da Shimano, e fui olhar a Livraria Martins Fontes. Subo um lance de escadas em caracol, descubro outra escada, bem mais estreito e também em caracol, chego ao sótão onde fica escondida a sessão de “aventura”. Dou de cara com um livro em inglês, capa dura, formato grande, intitulado “An Official History of Scouting” – Uma história oficial do Escotismo. Um título para celebrar os 100 anos do movimento, comemorado em 2007.

De cara duas razões para não comprar (desconsiderando o preço que esses livros importados têm)… Um, trata-se de uma “história oficial”, ou seja, despudoradamente tendenciosa, onde só um lado é ouvido e narrado. Dois, vivi toda minha infância e juventude debaixo de uma ditadura militar truculenta e assassina aqui no Brasil, cresci odiando tudo o que lembrasse, remetesse ou fosse, na pior hipótese, assumidamente militar ou militaresco – o que causou em mim um grande preconceito contra o escotismo.

Uma boa razão para comprar o livro (além de ser muito bem produzido)… Não gosto de alimentar conscientemente preconceitos. Venceu esse argumento. E a coceira por comprar livros…

O escotismo foi criado na Grã-Bretanha, em 1907, por Robert Baden-Powell (1857-1941), herói militar da Guerra dos Boers, na África do Sul – explica o livro logo no começo. Mas isso quase todo mundo sabe. O objetivo inicial do movimento era passar valores e disciplina aos jovens ingleses, aparentemente meio “perdidos” com o crescimento do império. Na sua fundação não havia, pelo menos segundo o livro, tendências de militarização dos jovens, nem caráter religioso ou político. Baden-Powell inclusive pregava a paz e a irmandade entre os povos, mesmo diante das duas Grandes Guerras.

O livro é repleto de histórias e exemplos de bravura, honra, disciplina e camaradagem dos escoteiros, em especial durante as Guerras Mundiais. Não duvido, mas não devemos esquecer de que se trata de uma “história oficial”. Baden-Powell é descrito como exemplo e modelo. Também não duvido, mas novamente não se pode esperar outro discurso de um livro assim.

Mas, de repente, vendo fotos de situações de escotismo, dos grandes Janborees (encontros mundiais de escoteiros), comecei a me lembrar da minha infância nos acampamentos da ACM (Associação Cristã de Moços), ou YMCA em inglês, onde peguei o gosto por aventura. Eram acampamentos “escoteiros”, mesmo sem pertencerem ao movimento. Fazíamos jogos, fogueiras, explorações, cantávamos o tempo todo, tínhamos muita disciplina, havia camaradagem e muita generosidade entre nós. Ajudar os companheiros era uma regra constante. Pelo livro descobri que alguns dos primeiros grupos escoteiros na Europa estavam ligados à YMCA, portanto, meus acampamentos da infância tinham sua origem filosófica no escotismo e em Baden-Powell. De repente senti que eu daria um bom escoteiro e lamentei não ter vivido essa experiência por desencontros históricos…

Mas o livro se desculpa nas entrelinhas, se defende antes mesmo de haver qualquer acusação… Explica e tenta provar que Baden-Powell “não plagiou” Rudyard Kipling (autor do genial O Livro da Selva e criador de Mogli) nos muitos livros e artigos que escreveu. Kipling teria permitido o uso de passagens inteiras de seus títulos por Baden-Powell… Justifica a ausência e até “uma possível proibição” da presença de escoteiros alemães no Jamboree de 1926… Detalhes interessantes aos leitores mais atentos.

Mas, voltando à minha experiência pessoal, ou melhor, à minha não-experiência pessoal com o escotismo no Brasil, o que o livro não expõe em detalhes é que o escotismo sempre esteve ligado, mesmo que disfarçadamente (e às vezes nada disfarçadamente), ao cristianismo e seus valores, ao conceito do patriotismo e sempre alimentou profundo respeito e admiração à disciplina militar. Esses três elementos fundamentais, pelo menos aqui no Brasil e durante nossos anos de chumbo, definiram por convicção a posição do movimento com relação à ditadura militar. O movimento pode nunca ter se manifestado a favor da ditadura (desconheço o fato), mas tampouco se manifestou contra. Mesmo tendo em seus ideai a paz e a fraternidade entre os povos.

Hoje bebo da fonte do escotismo no meu trabalho e na minha filosofia de vida. Acredito que no convívio respeitoso com a natureza, entre irmãos, conseguimos alimentar o que há de melhor em nós. Acredito na disciplina e na generosidade como escolas. Gosto muito do lema original do escotismo “BE PREPARED”, extraído das iniciais de Baden-Powell pelo próprio BP (pena que no Brasil virou “sempre alerta”, que lembra mais um comando a cães de guarda). Tento passar esses valores e conceitos nos meus livros e nos cursos de técnicas em esportes de aventura que ministro. Tento viver “preparado”, física e mentalmente, para qualquer aventura que a vida me apresentar.

Nunca fui escoteiro provavelmente porque a filosofia que ele representa se transformou, rapidamente, em uma força política de manutenção do status quo vigente e não em uma força de questionamento e transformação… Eu sempre estive mais para revolucionário do que para partidário.

An Oficial History of Scouting
2006
Hamlyn/Octopus Publishing Group
192 páginas
ISBN 9780600613985