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AVENTURAS BAJO LA CRUZ DEL SUR / ALBERTO GUZMÁN

Toda vez que cruzo caminho com um livro de memórias de um aventureiro fico na corda bamba… Ou melhor, no slackline, que é a corda bamba moderna e aventureira… Fico entre ler e não ler. Por um lado, pressinto que sei o que estará escrito…

Relatos de aventuras costumam ser repletos do lugar-comum de dificuldades físicas e psicológicas, dor, sofrimento, superação de limites pessoais, conquistas finais como prêmios por perseverança e empenho e outras vicissitudes que só conseguem me distanciar do autor e da história.

Tenho alguma experiência em atividades outdoor, em aventura, sei bem que a natureza pode cobrar caro algumas experiências, mas quando leio um relato procuro informações pessoais além das informações técnicas, além do óbvio relato de suor e lágrimas. Quero saber um pouco sobre o narrador, inclusive para saber se me identifico ou não com ele. Afinal de contas, debaixo da mochila ou dentro do saco de domir sempre bate um coração incerto…


Confesso que esse despretencioso livrinho me causou uma grata surpresa. Achei o título na lojinha de lembranças (e melhor livraria de aventura da cidade, de longe) do museu Maggiorino Borgatello, em Punta Arenas. Esse excelente museu, organizado e mantido pelos salesianos da cidade, é também citado no livro e merece uma visita no mínimo para comprar livros. Estive na região na minha mais recente viagem à Patagônia, quando mapeei o percurso de trekking Cabo Froward para um futuro Guia de Trilhas Trekking (link para relato e fotos da aventura aqui no blog).

Alberto Guzmán, autor do livro, é residente de Puerto Natales, porta de entrada para o Parque Nacional Torres del Paine, na Patagônia chilena, é guia de montanha, resgatista, socorrista e dono de agência de turismo aventura. Parece inclusive que ele já esteve no Brasil para uma edição da Adventure Sports Fair e meu caminho pode ter cruzado o dele, mais de uma vez.

O livro é dividido em três histórias relativamente curtas, todas de aventuras vividas por ele na Patagônia e Terra do Fogo. Obviamente ele conta percalços, tropeços, apuros, medos, momentos de excitação, paisagens idílicas, trilhas selvagens, insights, satori e afins… Mas a maior coragem do autor está em se expor pessoalmente, sem pudor ou ansiedade.

Alberto, ou Beto – como ele se coloca diversas vezes no livro – abre seu coração e mostra-se, entre uma aventura e outra, romântico, fumante, solitário, carente, pai dedicado, esposo ausente, enfim, um ser humano normal e complexo além de aventureiro e guia de montanha. Esse, em minha opinião, é o diferencial do livro e o que torna as aventuras mais reais e saborosas.

Suas experiências de contato com a natureza vão de roteiros de trekking com turistas em Torres del Paine à exploração de um fiorde na Cordilheira Darwin na Terra do Fogo. Do prosaico ao profissional. Mas, ao invés de apresentar-se como vencedor, conquistador, líder e audacioso, ele prefere fazer um desenho de si mesmo bem mais realista e agradável, incluindo fragilidade, dúvida, introspecção e solidão.

O capítulo final, como não podia ser diferente, conta a aventura mais ousada e arriscada do livro, partindo de um navio de passageiros no mar austral em pleno inverno, no meio da noite com um bote inflável e motor de popa, em direção a uma entrada rochosa e turbulenta na costa selvagem de uma região ainda inexplorada da Terra do Fogo… Dessas aventuras que fazem o sangue ferver nas veias. Terminei o livro com um imenso desejo de conhecer Alberto Guzmán e tomar um bom vinho chileno com ele, comer centollas e falar de aventuras sob a cruz do sul…

Aventuras Bajo la Cruz del Sur
Alberto Guzmán
Editorial de los Cuatro Vientos
Buenos Aires
2008
142 páginas
www.deloscuatrovientos.com.ar