CAPTAIN SIR RICHARD FRANCIS BURTON – A BIOGRAPHY / EDWARD RICE

9 de outubro de 2009

Sir Richard Francis Burton (nada a ver com o ator Richard Burton, casado e divorciado várias vezes com a atriz Elizabeth Taylor) viveu de 1821 a 1890, mas esse não é – nem de longe – o resumo de sua biografia. Aventureiro, militar, espião, cônsul, escritor, tradutor, linguista, poliglota, filósofo, poeta, atleta e, para muitos “o maior explorador da era das grandes explorações”. Muitas biografias já foram escritas sobre esse homem misterioso, produtivo, inventivo, irrequieto, polêmico e extremamente inteligente que inspirou e continua a inspirar muita gente pelo mundo. Mas esse livro de Edward Rice é um dos mais completos e melhor escritos.

Filho de um oficial do exército britânico com tendências ciganas, o jovem Richard perambulou com a família pela Europa e viveu na Inglaterra (onde nasceu), França, Itália e Alemanha, aprendendo as línguas e diversos dialetos locais, além de latim e grego. Aos 20 anos e já poliglota, embarca para a Índia como oficial da Companhia das Índias Orientais, permanecendo lá por 7 anos e aprendendo fluentemente várias línguas locais e dialetos. Por suas habilidades linguísticas, destemor e vigor físico, o tenente Richard Burton foi engajado no departamento de Survey and Intellingence – órgão responsável pela inteligência, espionagem, contra-espionagem e pesquisa – na tentativa pouco disfarçada de aumentar a influência inglesa no sub-continente. Suas andanças pelo Punjab, Casimira e (hoje) Paquistão o envolveram em tentativas de tomada do poder, conflitos armados, complôs e toda sorte de manobras políticas no Great Game – como ele chamava a política internacional colonialista do século XIX.

Depois da Índia, fluente também em árabe e persa, Burton se joga em uma aventura de altíssimo risco: fazer a peregrinação a Meca e Medina – cidades santas muçulmanas proibidas a não-islamitas. Essa façanha, em 1853, patrocinada pela Royal Geographical Society, o coloca entre os maiores exploradores de sua época, mas também cerca sua vida e biografia de controvérsia. Era ela um espião inglês “disfarçado” de maometano ou realmente um convertido ao Islã? Essa é uma das grandes diferenças do livro de Rice, que insiua sem muito disfarce que Burton foi durante boa parte de sua vida um muçulmano praticante.

De 1856 a 1860 Burton explorou com o também controverso John Hanning Speke a região dos lagos da África Central, na tentativa de descobrir a fonte do Rio Nilo e as lendárias Montanhas da Lua. Speke assumiu sozinho as glórias da descoberta, aproveitando-se de um momento na expedição de mais de dois anos, em que Burton estava doente demais para seguir viagem, para descobrir (e batizar) o Lago Victoria. Speke e Burton seguiram em disputas e debates sobre essa descoberta até a morte prematura de Speke, em 1864. (Existe um bom filme sobre essa passagem, chamado As Montanhas da Lua, de 1990, que eu já assisti na Sessão da Tarde…)

Burton seguiu pelo resto de sua vida envolvido com o Foreign Office britânico, o equivalente ao nosso Ministério das Relações Exteriores, atuando como “enviado especial” a lugares ermos e perigosos, onde sua atuação de observador disfarçava muito mal seu trabalho de espião. Prolixo, atento e enciclopédico, a cada viagem escrevia copiosamente gigantescos e detalhados relatos, desenhava mapas, relatórios secretos, cartas e diários, desenhava mapas. Boa parte desse material foi publicado em forma de extensos livros e muita coisa está “perdida” em arquivos secretos, coleções particulares ou foi acidentalmente destruída em incêndios acidentais ou intencionalmente provocados por sua viúva após sua morte. Burton deixou mais de 40 livros, muitos escritos em vários volumes.

Diplomata, trabalhou como cônsul no Brasil (Santos), Guinea Equatorial (África), Damasco (Síria) e Triste (atualmente Itália). No Brasil, desceu o Rio São Francisco de canoa, da nascente até à Queda de Paulo Afonso, além de acompanhar a Guerra do Paraguai como observador. Nos intervalos entre um posto e outro, atravessou os Estados Unidos em uma diligência no velho estilo Far West, visitou a Patagônia, o Peru, prospectou ouro na África e na Península Arábica e minérios na Islândia.

Literato, traduziu para o inglês o Kama Sutra e As Mil e Uma Noites. Apaixonado por Camões (e fluente em português), traduziu também Os Lusíadas e escreveu uma biografia sobre seu autor louvando suas qualidades tanto como poeta quanto como soldado – habilidades muito familiares a ele próprio. Sua curiosidade sem fronteiras e seus incansáveis estudos o levaram a conhecer profundamento o hinduísmo, islamismo e o sufismo, a ponto de ser chamado na Inglaterra vitoriana de White Nigger – o “negro branco”, numa alusão pejorativa aos costumes “bárbaros” por ele incorporados. Em todas as religiões pelas quais se interessou tornou-se “devoto” e doutor canônico reconhecido pelas próprias comunidades religiosas.

Sir Richard Francis Burton viveu uma vida de romance, tão rica e variada que se fosse ficção não teria a menor credibilidade. Suas qualidades como intelectual, soldado, explorador e antropólogo o colocam no topo da lista em todas as funções individualmente. Mas seu diferencial esta justamente na pluralidade de seus interesses e na imensa capacidade de produção, em quantidade e qualidade. Arrogante, pedante, racista, colonialista, agressivo, violento, alcoólatra e viciado em drogas, ele também representa muito bem o perfil vitoriano da época, embora fosse bem menos provinciano que a média aristocrática inglesa do período.

Particularmente, admiro profundamente sua capacidade de concentração, dedicação e produção, mesclando atividades físicas e intelectuais em um nível raramente alcançado. Sir Richard Francis Burton foi, como Camões e Sócrates – para citar apenas dois exemplos, um filósofo-guerreiro, poeta-soldado, intelectual-aventureiro, que deixou um exemplo de vida que serve de modelo a gerações.

Esse livro também encontra-se disponível em português, sob o título de “Sir Richard Francis Burton”, publicado pela Companhia das Letras com ISBN 9788571641860. Uma leitura inesquecível e inspiradora.

Captain Sir Richar Francis Burton – A Biography
Edward Rice
Da Capo Press
1990
664 páginas
ISBN 9780306810282

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