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CONFIESO QUE HE VIVIDO / PABLO NERUDA

Quando viajamos temos a oportunidade de viver intensamente cada segundo. Tudo é novidade. Tudo merece plena atenção. Somos bombardeados por sensações e emoções. As surpresas se amontoam. Quando a viagem inclue aventura (e nem vou tentar definir o que é “aventura” aqui), então cada segundo parece valer um minuto, cada minuto uma hora, cada hora um dia.

Mas imagine só se conseguíssemos viver nessa intensidade de interesse e atenção todos os minutos de nossas vidas, mesmo em nossas casasa, no trabalho, no casamento, cozinhando ou comendo?
Esse é um pensamento budista, puro e simples. Mas também é minha leitura do livro Confieso que he vivido, a autobiografia do poeta chileno Pablo Neruda.
Em dezembro e janeiro últimos estive no Chile mapeando a Carretera Austral e a Patagônia chilena. Escrevi diversos posts nesse blog sobre essa avengtura. Esse trabalho resultará no próximo livro que lançarei, ainda esse ano: o Guia de Trilhas Carretera Austral. Visitei Santiago pela primeira vez e aproveitei a oportunidade para conhecer a última residência de Pablo Neruda, hoje a casa museu La Chascona. Comprei também alguns livros do poeta, entre eles sua autobiografia.
Ler é, para mim, uma ferramenta essencial para o conhecimento. Quando viajo tento sempre ler os escritores locais. Diferente dos guias de viagem, que nos dão informação enciclopédica pertinente mas muitas vezes desumanizada, os escritores nos oferecem a visão oposta: completamente humana e muitas vezes desprovida de elementos enciclopédicos e generalistas.
A casa de Neruda, sua poesia, sua história e sua autobiografia transmitem sempre a mesma mensgagem de intensidade e amor pela vida, em suas mais variadas formas. Neruda foi um apaixonado e inundou tudo o que tocou com essa paixão. Diplomata, político (foi senador e candidatoa presidente da república), comunista ativo, amante, gourmet, poeta, poeta e poeta. Ele lia seus poemas para o público em comícios, ao invés de fazer discursos com promessas e mentiras.
Personalidades histórias do mundo das artes e da política, como Pablo Picasso, Federico Garcia Lorca, Fidel Castro, Josef Stalin, Gabriela Mistral, Diego Rivera, Jorge Amado, Luis Carlos Prestes, Nazim Hikmet, Ilya Ehrenburg, Salvador Allende, Miguel Ángel Asturias, Gabriel Garcia Marques, Mahatma Gandhi, entre tantos outros, desfilam em encontros e desencontros com o poeta e ajudam a entendem um pouco de seu tempo, sua vida e sua poesia.
Mas dois temas parecem constantes na poesia e na biografia de Neruda: o amor e o Chile.
Sua paixão atinge píncaros quando escreve sobre o Chile e sobre sua terceira e última esposa, Matilde Urritia, la Chascona (“descabelada”, em língua mapuche), a quem dedicou vários livros de poesia e a casa em Santiago que visitei. No começo de Confieso que he vivido, Neruda fala dos bosques chilenos, diz: “Quem não conhece os bosques chilenos, não conhece esse planeta”.
Quando visitei a casa museu La Chascona e li sua autobiografia, havia percorrida a pé e acampando em vários bosques chilenos, em Torres del Paine, no parque nacional Alerce Andino, no Cerro Castillo, em Coyhaique, na reserva nacional de Tamango, em Queulat… E só posso dizer que o poeta tem razão. O poeta tem sempre razão.

Confieso que he vivido
Pablo Neruda
Pehuén Editores
2005
482 páginas
ISBN 9789561603967