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LOUP – UMA AMIZADE PARA SEMPRE

Longa metragem lançado em 2008, escrito e dirigido por Nicolas Vanier, francês nascido no Senegal em 1962, explorador, aventureiro e escritor, apaixonado pelo Grand Nord (como os franceses chamam a Região Ártica e seu entorno) e realizador de talentosos documentários sobre as gélidas regiões nórdicas e suas tradições, como L’Odyssée sibérienne (2006), Le dernier trappeur (2004) e L’Odyssée blanche (2000), entre outros.

Vanier é profundo conhecedor da Sibéria, Alasca, Montanhas Rochosas canadenses, Yukon, Mongólia, do Oceano Ártico e a região do Estreito de Behring. Suas expedições em trenós puxados por cães, esquis de neve, caiaques, a pé, a cavalo ou qualquer outro meio de transporte tradicional local, fizeram com que ele se aproximasse das culturas aborígenes, em especial os nômades , como os Évènes criadores de renasdo filme.

Chega a ser cômico o lançamento desse belo filme sobre a agonizante vida do homem contemporâneo em contato estreito com a natureza em julho, mês de férias e com o pífio subtítulo inventado no Brasil de “uma amizade para sempre”. Uma óbvia tentativa de atrair o público infantil através de pais desavisados. Mas fica o alerta: essa não é uma versão cinematográfica infanto-juvenil de “Caninos Brancos” ou “A infância de Mogli”… E que Jack London e Rudyard Kipling me perdoem as comparações! Eu que sou fã incondicional dos dois!

O filme encurta a respiração da platéia o tempo todo. Respiramos como se passássemos muito frio, todo o tempo. Mas, ao mesmo tempo, sentimos ondas de calor inundar nosso corpo a cada amanhecer, a cada fogueira acesa, a cada contato físico do protagonista com os lobos.

Quem ama a vida ao ar livre, como nós, praticantes de esportes de contato com a natureza, deve consumir esse filme com moderação. Algo muito forte, remoto, ancestral mesmo, remexe dentro de nós ao assistirmos a vida acontecer em paisagens tão virgens, tão selvagens, tão essenciais.

O enredo pode parecer simples a urbanóides geneticamente modificados e visceralmente acostumados ao ar condicionado, telefone celular, carro e internet. Não se trata de uma amizade insólita entre caçadores de lobos e criadores de renas e uma alcatéia, mas uma poética discussão sobre a evolução do homem contemporâneo e sua harmonia com o mundo real que a natureza constantemente expõe.

Como toda história que fala sobre a natureza – presente no cenário natural, nos animais e em nós – existe um forte elemento budista no filme. Quando conseguimos abrir nossos olhos e enxergar, mesmo que brevemente, as “coisas como elas são”, ou “ a vida como ela é”, mesmo inimigos ancestrais (como os lobos no contexto da tribo) ganham outras matizes e tonalidades, conquistam espaço na realidade e, os mais sensíveis e sensatos (como o protagonista do filme), aceitam a vida como ela se apresenta, adaptando-se a ela e deixando-se assim transbordar de compaixão.

Loup é um belíssimo filme sobre descobertas individuais revolucionárias, sobre como nossas evoluções pessoais podem transformar do mundo à nossa volta, sobre o poder dos insights (percepções reveladoras). Não tem nada de “amizade para sempre” como pretende o péssimo subtítulo tupiniquim, muito pelo contrário, o filme termina com o característico nó no estômago de perguntas importantes sem respostas… No caso, como viver em harmonia com uma situação que parece irremediavelmente desarmoniosa?