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MIS VIAJES A LA TIERRA DEL FUEGO / ALBERTO MARIA DE AGOSTINI

Quem já visitou a Patagônia e a Terra do Fogo ou, como eu, é frequentador assíduo da região, já ouviu falar (e muito) de um padre salesiano nascido na Itália chamado Alberto Maria de Agostini (2 de novembro de 1883 – 25 de dezembro de 1960).
De 1909 a 1943, dos 26 aos 60 anos de idade, o padre Agostini viveu, pregou e explorou como ninguém o extremo sul do continente americano. Eclesiástico, missionário, montanhista, geógrafo, explorador, etnógrafo, antropólogo, sociólogo, arqueólogo, fotógrafo, escritor e cineasta, por todo canto da Patagônia e da Terra do Fogo que a gente percorre, descobre que Agostini esteve por lá antes… Muito antes de todo mundo!
Sempre acompanhado de guias de montanhas argentinos, chilenos ou europeus com experiência nos Alpes, próximo de onde o padre nasceu, Agostini fez a primeira ascensão do Monte Olivia (1.326 m) vizinho à cidade de Ushuaia, do Cerro Milanesio (2.010 m), do Loma Blanca (2.218 m) e do Cerro Eléctrico (2.257 m) todos três nos arredores do Monte Fitz Roy; do Cerro Torino (1.750 m) e do Cerro Mayo (2.380 m) entre várias outras montanhas. Por muito pouco ele não conseguiu ser o primeiro a realizar a travessia Leste-Oeste do Campo de Gelo Patagônico Sul. Suas explorações geográficas e humanistas possibilitaram a ele batizar diversos pontos de importância geográfica da região, como por exemplo, o Cerro Don Bosco (2.420 m), o Cerro Piergiorgio (2.719 m), a Geleira Ameghino, próxima da Geleira Perito Moreno, e a Geleira Itália, às margens do Canal Beagle.
Diziam os guias que o acompanhavam que o padre não raramente escalava de batina. Suas muitas fotos mostram paisagens virgens, nativos ainda selvagens, equipamento de escalada rudimentar ao ponto de ser assustador e, regularmente, o bom padre examinando o horizonte com um teodolito ou fotografando com pesadas e robustas máquinas fotográficas, usando batina.
De Agostini escreveu e publicou 22 livros, produziu muitas centenas de fotografias e deixou um filme documentário (Terras Magellaniche) narrando, entre outras coisas, as atrocidades pelas quais passaram os povos aborígenes da Patagônia e da Terra do Fogo.
Mês que vem vou para a Patagônia novamente. Vou mapear um roteiro de trekking ainda desconhecido no Brasil, pouquíssimo visitado, mas com enorme potencial de tornar-se em breve mais um “clássico patagônico”, como Torres del Paine, El Chaltén e Dentes de Navarino – todos mapeados e publicados em meus livros. Vou para Punta Arenas, cidade às margens do Estreito de Magalhães onde o Padre Alberto Maria de Agostini viveu tantos anos. Quero visitar o Museu Salesiano,  ordem a qual Agostini pertenceu e onde imagino vou encontrar inúmeros objetos coletados pelo bom padre.
Há anos procuro livros escritos por Agostini sobre suas aventuras austrais, no Chile, na Argentina, pela Internet e em sebos aqui no Brasil. Nunca tive sorte, até visitar o Sebo Brandão (Rua Cel. Xavier de Toledo, 234 – Centro – São Paulo, SP, Tels: (11) 3214-3646 ou (11) 3214-3325, procure o Júnior e diga que fui eu quem indicou)
Fui direto para a sessão de relatos de viagens e… Dei de cara com um sensacional livro de capa dura, contendo 340 gravuras, 11 tricomias, 22 bicromias e um mapa, intitulado: “Mis Viajes a la Tierra del Fuego”, de Alberto Maria de Agostini.
Editado e impresso na Itália, em Milão, no ano de 1929, escrito em espanhol e dedicado ao também padre salesiano Dom José Fagnano (o mesmo do grande lago ao norte de Ushuaia, na Ilha Grande da Terra do Fogo), o livro tem quatorze capítulos:
1. Aspectos gerais do arquipélago da Terra do Fogo; 2. Resumo histórico das viagens de exploração à Terra do Fogo; 3. A cordilheira da Terra do Fogo; 4. Minha primeira expedição ao Monte Sarmiento; 5. Segunda expedição ao Monte Sarmiento; 6. O Monte Buckland; 7. A Enseada do Almirantazgo; 8. Da Enseada do Almirantazgo até Ushuaia através da Cordilheira de Valdivieso; 9. Ushuaia e o Monte Olivia; 10. O Canal Beagle e a Cordilheira Darwin; 11. O Cabo Horn; 12. A Ilha dos Estados; 13. Rio Grande e Porvenir; 14. Os Foguinos(dedicado aos nativos extintos).
Normalmente eu primeiro leio o livro todo, de capa a capa, antes de publicar uma resenha… Mas nesse caso a alegria de haver encontrado esse tesouro foi tão grande que decidi dividi-la antes. Também porque esse é o tipo de livro que a gente não simplesmente lê, ele deve ser estudado e usado como referência de tempos em tempos. Nesses poucos dias que estou com ele já li os dois primeiros capítulos e o folheei todo muitas vezes.
Conversando com o Brandão Júnior, filho do fundador do Sebo Brandão, que eu conheço há mais de 35 anos (eu devia ter 12 anos quando visitei o sebo pela primeira vez), ouvi dele que as vendas pela internet reduziram em 80% a frequência de público à loja. “As pessoas procuram um livro em específico e encontram no computador, acham com isso que ganharam tempo e foram mais produtivas…”, disse ele. “Mas quem vem a um sebo nem sempre encontra o que procura, mas encontra muito mais!”
Sábias palavras, que eu assino em baixo.
Alberto Maria de Agostini conseguiu, em 1943, aos sessenta anos de idade, realizar o sonho de sua vida de montanhista: escalar o Monte San Lorenzo (3.706 m). Depois disso ele pendurou as sapatilhas de escalada e se dedicou a organizar todo o material coletado e suas experiências.
Mal consigo esperar para conhecer Punta Arenas e visitar o Museu Salesiano de lá…