Biblioteca Aventura »

MOBY DICK / HERMAN MELVILLE

Algumas histórias escritas tornam-se tão conhecidas, tão populares, que o livro que deu origem a tanta fama termina substituido por filmes, desenhos animados, histórias em quadrinhos e até a velha e imortal tradição oral. Moby Dick, de Herman Melville, é um dos melhores desses exemplos. Mesmo quem gosta muito de ler, como eu, acaba conhecendo a história da grande baleia branca assassina por “caminhos mais fáceis”, já que o livro tem mais de 500 páginas. Dá inclusive para escrever um ensaio sobre a “síndrome do analfabetismo preguiçoso”, que incapacita algumas pessoas (muitas!) de ler (ou compreender) textos um pouco mais longos e elaborados… Mas isso é assunto para outra hora.

Não foi por preguiça que demorei tantos anos para ler Moby Dick, um livro mais relacionado com a literatura juvenil. Foi apenas uma coincidência, ou a falta dela. Livros, ou a possibilidade de lê-los, cruzam nossos caminhos tanto quanto pessoas ou cidades. Publiquei aqui mesmo no blog a história da minha história com essa história, em uma crônica que chamei de Moby Dick (2). (Clique no link adicionado ao título para ler o texto).

Esse livro é considerado um dos maiores clássicos da literatura norte-americana e é fácil entender o por quê. Mellville já era um consagrado escritor de seu tempo quando publicou Moby Dick, em 1851. O livro não foi muito bem recebido na época, tanto pela crítica quanto pelo público. Longo demais, instrutivo demais, detalhado demais e o ao tema central – caça a baleias – faltava o apelo romântico, o engajamento emocional e a visibilidade de mídia que tem hoje. No meio do século XIX, caçar baleias tinha a mesma função prática de importância pragmática que a perfuração de poços de petróleo tem hoje em dia. O óleo das baleias abatidas alimentava casas e cidades com luz, produzia perfumes e remédios, sustentava colarinhos e vestidos, produzia artefatos mundados e contidianos que iam de pentes de cabelo a bengalas… Ninguém escreve romances psicológicos hoje sobre a vida em plataformas petrolíferas.

Melville trabalhou no mercado baleeiro como marujo por uma ano e meio, embarcado e circundando o mundo. Seu discurso tem o peso da experiência e exatamente por isso o livro é tão rico. A baleia no texto – e não necessariamente Moby Dick – é ao mesmo tempo herói e vilão, presa e predador, processo e objetivo, começo, meio e fim. Ela tem de ser abatida, o texto não deixa dúvida, por questões econômicas, práticas e, por que não, humanas. Mas, nem por isso, não pode ser admirada e respeitada. Melville soa às vezes como um ambientalista contemporâneo, mas sem jamais soltar o arpão.

O livro é uma descrição enciclopédica histórica do processo de caça e utilização da baleia, completa nos mínimos detalhes. Algumas passagens são tão sanguinolentas e mórbidas que beiram o sadismo. Outras resplandecem de poesia e lirismo, um balé oceânico onde a baleia á a prima ballerina. A linguagem é autêntica e comprometida com o momento histórico e a cultura dos personagens. Inglês antigo de pronomes arcaicos e conjugações verbais extintas, expressões marinheiras e vocabulário naval. Fez falta um dicionário de termos marítimos para entender perfeitamente como funcionava um navio baleeiro de madeira, de três mastros, com 30 marujos a bordo e circundando o mundo por três ou quatro anos sem escalas em terra. Mas isso em nada afetou o clima de aventura da história e o prazer da leitura.

Mas você pode estar se perguntado Por que escrevo a resenha de Moby Dick aqui no blog, na sessão Biblioteca Aventura. Porque esse é um livro de aventura! E um dos grandes!

Elementos como o convívio intenso com a natureza, desafio físico e psicológico, engenhosidade humana na utilização dos recursos disponíveis, superação de limites, busca da essência da vida e adrenalina, muita adrenalina, fazem do livro um clássico da literatura de aventura. O coração dispara com a descrição do momento em que uma baleia é arpoada por um marinheiro e, assustada e ferida, dispara pelo oceano arrastando o bote de madeira, com cinco ou seis tripulantes a bordo, como se fosse um esquiador em uma prancha! É cruel? Recriminável? Sem dúvida alguma. Mas essa é a ótica contemporânea. Na época retratada pelo livro, a caça à baleia era uma atividade humana. Havia o embate de forças e caráter. Havia a chance, nada pequena, da baleia levar a melhor, escapar ou até destruir o bote e matar seus algozes. Havia o atenuante do confronto difícil e potencialmente letal também para o homem. Muito diferente da caça atual, com arpões disparados por armas de fogo, navios de metal equipados com GPS e sonar… Uma covardia.

O livro Moby Dick me levou pelos sete mares e pelo tempo em uma viagem de aventura e descobrimento. Torci pela baleia e torci pelos marinheiros, igualmente. Herman Melville consegue criar indentificação e camaradagem com os dois lados, antagonistas, da história. Isso é genial! Talvez por isso o livro não tenha feito sucesso no século XIX… É preciso algum distanciamento emocional que só o tempo empresta aos fatos, tornando-os em história.

Quem não leu, leia! Vale a pena!

Moby Dick
Herman Melville
1851
Minha edição é da Penguin Popular Classics
1994
536 páginas
ISBN 9780140620627
http://www.penguin.co.uk/