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PEIXES DO RIO NEGRO / ALFRED RUSSEL WALLACE

Os naturalistas do Século XVIII e XIX estão entre os grandes aventureiros da nossa história moderna. Exploradores, artistas, cientistas, eles colocavam a curiosidade individual e o questionamento coletivo acima e à frente de tudo, expondo fortuna, vida e saúde sem temor e, como prêmio maior, pisaram onde nenhum europeu pisou antes. Diferente dos exploradores e conquistadores, os naturalistas não buscavam enriquecimento material pessoal, mas reconhecimento e prestígio de sua comunidade através do trabalho duro e de muita disciplina. Sempre tive grande respeito e admiração por esses grandes nomes. 

Todo mundo conhece e se lembra de Charles Darwin, mas poucos sabem quem foi Alfred Russel Wallace. Pouca gente sabe, por exemplo, que ele é considerado hoje o co-autor da Teoria da Evolução das Espécies, tendo chegado à mesma conclusão de Darwin, simultaneamente, a milhares de quilômetros de distância.  
Quem já assistiu ao excelente filme de 2009, Creation, sobre a vida de Charles Darwin (link para a sinopse do filme na Wikipedia), traduzido em português como “Criação” (link para o trailer oficial do filme no YouTube), deve talvez se lembrar de um momento de bastante tensão, quando Darwin recebe uma carta de um companheiro naturalista, ardendo de febre nas florestas da Indonésia, dizendo haver chegado à conclusão que “as espécies tendem a se distanciar cada vez mais de sua forma original”, indicando claramente um processo evolutivo de adaptação natural. Darwin temeu pela originalidade de seus estudos e chegou a pensar em nunca publicar seu revolucionário livro. Esse naturalista era Alfred Russel Wallace. 


Aos 25 anos de idade, Wallace decidiu abandonar a carreira de professor de desenho e abraçar sua paixão pela ciência natural. Acompanhado de outro jovem naturalista inglês, Henry Walter Bates, de apenas 23 anos, ele desembarcou no Rio de Janeiro em 26 de maio de 1848 e partiu para a vila de Rio Negro, hoje Manaus. A intenção era passar dois anos explorando o Rio Negro e subir até a Cordilheira dos Andes, sempre coletando espécimes animais e vegetais, mortos e vivos, para engordar a coleção do atual Natural History Museum de Londres. 

Wallace ficou tão encantado com a diversidade da fauna e flora amazônica que abandonou seu parceiro e a idéia original de viajar para os Andes, permanecendo na selva e no vale do Rio Negro por dois anos, de 1850 a 1852. Seus diários narram encantos e dificuldades, doenças tropicais, pássaros de beleza rara, infecção e quase morte por febre amarela, variedades quase infinitas de peixes, nuvens de mosquitos e outros insetos voadores sugadores de sangue, sol inclemente, índios amistosos, delícias culinárias, enfim, toda a riqueza e diversidade que seduzia os naturalistas de então e que continuam a seduzir os espíritos aventureiros de hoje. 

Durante todo esse tempo, Wallace produziu 212 belas ilustrações à lápis de peixes do Rio Negro e do Rio Uarupés, na Venezuela. Quase todos com réguas de escala e detalhados textos com informações descritivas, inclusive do local e data onde o espécime foi encontrado e como foi capturado. Uma riqueza de dados e observações que hoje se tornaram “obsoletos”, com a tecnologia da fotografia digital entre outras, mas que aproximava o cientista e explorador muito mais de seu objeto de estudo. 

Infelizmente, todo esse material tão arduamente coletado foi perdido no caminho de volta para a Inglaterra, quando o barco “Helen” em que ele viajava pegou fogo em alto mar. Wallace conseguiu salvar algumas camisas e suas ilustrações de peixes e palmeiras. Depois de 10 dias a deriva em botes salva-vidas toda a tripulação foi salva. As ilustrações dos peixes amazônicos de Wallace nunca foram publicadas em sua totalidade, apenas meia dúzia delas em um ou outro livro ao longo de décadas. Por cinquenta Wallace guardou todo esse material, que ele enriqueceu com um excelente mapa da região visitada, já que ele também era um cartógrafo habilidoso. 

Esse sensacional livro, de arte e ciência, de aventura e exploração, foi iniciativa da professora doutora Mônica de Toledo-Piza Garazzo do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP), publicado pela EdUSP (Editora da USP) na gráfica pública do Governo do Estado de São Paulo, em tiragem de 1.500 exemplares. 

Eu estava a caminho de um almoço com um amigo cicloturista e, coincidentemente, também ilustrador e designer, mas como estava quase uma hora adiantado, parei em um sebo da Av. Pedroso de Morais, em Pinheiros, São Paulo. Fuçando aqui e ali, dei de cara com esse livro. Um achado! O almoço ficou ainda mais gostoso e passei o resto do dia e boa parte da noite digerindo sensibilidade e sabedoria.

Para ler mais resenhas de bons livros e filmes aqui no blog, acesse a sessão BIBLIOTECA AVENTURA.

Peixes do Rio Negro

Alfred Russel Wallace

Organização: Mônica de Toledo-Piza Garazzo
EdUSP
2002
518 páginas
ISBN 9788531406331
www.usp.br/udusp