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THE HIPPIE GUIDE TO CLIMBING THE CORPORATE LADDER & OTHER MOUNTAINS

Eu estava em Blumenau para começar o mapeamento do Guia de Trilhas Serra Geral (Blugrama) (link para página no livro no site), na casa de um amigo, quando ele apareceu com esse livro na mão.

“Toma isso, leia e depois escreva uma resenha no seu blog,” ele disse em tom de ordem e pedido. O livro parecia ser importante para ele, porque na sequência ele completou: “você depois me devolve!”. Sim senhor!

Era um volume pesado, não apenas por ser capa dura, mas também porque era um livro que meu amigo gostou e, mais que isso, queria ouvir minha opinião. Dupla responsabilidade. Mas eu não seria um bom amigo se não fosse sincero, então… Eu não gostei do livro.

O autor, Skip Yowell, se diz um hippie. No título e a cada tantas páginas ele reforça essa autodenominação, que acho um pouco equivocada. Skip foi um hippie, não duvido, até a empresa que ele co-fundou, a JanSport, cresceu e se tornou líder mundial em fabricação e venda de mochilas, além de roupas e outros artefatos de uso em atividades de contato com a natureza. Hoje, Skip é um empresário bem-sucedido que circula, pensa e respira o mundo corporativo. E essa mudança ocorreu ao longo das últimas quatro décadas.

O que eu não gostei do livro, de cara, foi a linguagem. Skip não é escritor, isso fica claro. Ele usa um tom artificial de intimidade com o leitor e um bom-humor ensaiado que acabam por soar infantil. Não gosto de textos onde o autor propõe questões e na linha seguinte dá a resposta. As perguntas deixam de ser perguntas e o livro vira catecismo. Também não gosto de textos repletos de lugares-comuns de linguagem, do tipo “alto como uma montanha”, ou “rápido como um cavalo de corrida”, ou ainda “esguio como um peixe”. Se vamos escrever usando figuras de linguagem, sejamos minimamente criativos ou poéticos!

Mas o que me deixou mais desgostoso foi a proposta de transformar o livro em um guia de auto-ajuda para o sucesso corporativo. Não encontrei sequer uma dica em todo o livro que fosse original, objetiva ou minimamente útil, pelo menos para mim. Skip se coloca como modelo porque, segundo ele, “obteve sucesso no mundo corporativo e conseguiu se divertir ao longo do caminho, todo o tempo”. Isso é muito superficial.

Primeiro, não vejo valor em alguém simplesmente por bem sucedido nos negócios. Isso, segundo meus valores, não é sinônimo de felicidade, caráter, valor intelectual ou mérito moral. Profissionais bem sucedidos são apenas profissionais bem sucedidos, não me inspiram a ser um homem melhor. Acredito na vida depois do expediente.

Segundo, “se divertir” não é meta de vida para mim, nunca foi, ou pelo menos deixou de ser depois que fiz 17 anos. Ter alegria no dia a dia é diferente de “se divertir”, é algo bem mais sutil e mais próximo da tal “felicidade”. Mas acho que por ser norte-americano, Skip está muito apegado a essa cultura do “having fun”, que nada mais é do que uma “posse”, uma “propriedade”, mais um fruto de uma sociedade que cultua mais o que “as pessoas possuem” do que “o que as pessoas são”.

Terceiro, o autor se confunde com a marca que ajudou a criar, a JanSport. O livro se equilibra entre uma autobiografia e o sumário da empresa, como se Skip fosse a JanSport e a JanSport fosse Skip. Acho triste uma pessoa chegar à velhice, perceber que a vida está no fim, olhar para trás e perceber que seu legado é uma companhia que fabrica mochilas. Pior ainda é achar que essa companhia revolucionou uma geração e que vai durar para sempre. Mas nada supera a tristeza de acreditar que a vida precisa de uma justificativa palpável, um legado.

Coincidentemente, assisti ao filme “A Rede Social” enquanto terminava de ler esse livro. Não coincidentemente, a mensagem do filme se assemelha à mensagem do livro e faz transparecer que a criação do Facebook revolucionou a humanidade, enquanto a realidade é que o site mudou apenas como as pessoas se comunicam (muito) superficialmente.

Não são mochilas, sites de relacionamento, sucesso profissional ou financeiro, nem os fracassos antagônicos, que definem quem nós somos. Duvido até que exista uma definição. Mas acredito que na busca, no questionamento constante, no desejo de enxergar além do óbvio, nas sutilezas e, especialmente, na relação com os outros, está o melhor do potencial humano. Isso para mim soa mais harmonioso com a “filosofia hippie”.

The Hippie Guide to Climbing the Corporate Ladder & other Mountains
Skip  Yowell
2006
Naked Ink
224 páginas
ISBN 9781595558527
http://www.nakedink.net/