Biblioteca Aventura »

THIS WAY SOUTHWARD / A. F. TSCHIFFELY

O autor desse livro, Aimé Tschiffely, ou A. F. Tschiffely, como ele era mais conhecido, tornou-se famoso depois de cavalgar de Buenos Aires à capital dos EUA, Washington D.C., de 1925 a 1928. Acompanhado apenas por dois cavalos criollos, Mancha e Gato, descendentes diretos dos primeiros cavalos introduzidos no continente sul-americano pelos conquistadores espanhóis, Tschiffely descreveu essa aventura no título Ride – um best-seller da época e clássico da literatura de aventura. Sua fama imedita como aventureiro e escritor possibilitou que ele se dedicasse daí em diante exclusivamente à literatura de aventura. Nascido na Suíça em 1895, Tschiffely viveu a maior parte de sua vida na Argentina e na Inglaterra, escreveu e publicou cerca de nove livros e morreu em Londres em 1954.

Esse título em particular narra, na primeira pessoa, uma viagem de carro feita em 1940 pela Patagônia argentina e chilena. O mundo vivia o início da Segunda Guerra Mundial, mas a Patagônia continuava em seu pacífico isolamento. Tschiffely escreve bem, com poucos floreios e muita atenção aos detalhes que o cercam. Como o livro foi escrito originalmente em inglês e visando o público britânico em especial, o autor explica às vezes em detalhes excessivos aspectos da cultura e história patagônicas, desde a tradição do mate até a conquista dos povos indígenas.

O livro é “datado”, no sentido de representar bem a mentalidade da época em que foi escrito. Sob a ótica contemporânea, o texto poderia até ser considerado “politicamente incorreto”, especialmente quando o autor enaltece aspectos da cultura e da raça européia e chega a desejar, em um contexto de misericórdia pelo sofrimento dos remanescentes dos povos aborígenes, “que os índios morressem logo de uma vez”…

A viagem em si é interessante e pitoresca, cheia de encontros com personagens característicos e quase caricatos. Velhos gauchos de bombachas e índios decrépitos e famélicos preenchem várias páginas do livro. Para mim foi especialmente interessante ler descrições de paisagens e lugares que conheço, como El Calafate, El Chaltén, Puerto Natales, a região do Rio Baker no Chile, e pedaços de terra que trinta ou quarenta anos depois seriam abertas para a passagem da Carretera Austral.

Tschiffely viajou em um “calhanbeque” Ford de capota de lona, que aguentou bravamente todo o percurso. Muitas vezes ele dirigia por caminhos abertos e utilizados apenas por carros de boi, as eventuais balsas que o atravessaram por rios e lagos eram míseras jangadas de troncos, as hospedarias onde ele pernoitava não passavam de botecos de beira de estrada com colchões de palha e um buraco na terra por latrina. Até aí tudo bem, mas a Patagônia em 1940 era equivalente ao Velho Oeste norte-americano do século XIX. Não faltam histórias de lutas de faca e assassinatos banhados em sangue e aguardente.

Um dos pontos altos do livro e da viagem de Tschiffely para mim foi o encontro com um importante personagem da história da Terra do Fogo e da Patagônia – Lucas Bridges. Esse argentino, filho de um pastor inglês desbravador da Terra do Fogo, nasceu onde hoje encontra-se a cidade argentina de Ushuaia e foi o segundo homem branco a nascer ali. Seu irmão mais velho foi o primeiro. Lucas Bridges viveu entre os índios Ona e Yagan, aprendeu suas línguas e culturas, abriu caminhos, conquistou terras e escreveu, de longe, o melhor livro sobre os primórdios da Patagônia: Uttermost Part of the Earth ou El Último Confín de la Tierra.

This Way Southward foi publicado pelo fundo The Long Rider’s Guild, que pesquisa, recupera e publica títulos relacionados a aventuras equestres no mundo todo. O catálogo deles é fenomenal! Vale uma visita (e compras) no site.

This Way Southward
Aimé Tschiffely
The Long Riders’ Guild Press
1941
355 páginas
ISBN 9781590480144
http://www.thelongridersguild.com/