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TO A MOUNTAIN IN TIBET / COLIN THUBRON

Em diversas culturas e religiões do mundo as montanhas são objetos de devoção, adoração, sacrifícios e peregrinações… Dizem que a Trilha Inca, de Cusco a Machu Picchu, nada mais é que um roteiro de peregrinação a um templo dedicado a um poderoso Apu (deus representado por uma montanha, em Quechua). Moisés subiu o Monte Sinai para receber de Deus os dez mandamentos, sagrados para Judeus, Cristãos e Muçulmanos. A arca de Noé pousou no Monte Ararat, para dar continuidade à espécie humana. Os gregos antigos situaram seu panteão no Monte Olimpo. Em regiões carentes de montanhas, como no Egito, os súditos dos faraós construíram pirâmides que nada mais são que “montanhas artificiais”.  Montanhas são como “escadas para os céus”, onde supostamente vivem os seres divinos. Nós, ocidentais mais propensos ao racionalismo, incrédulos e cínicos convictos, invariavelmente nos rendemos à força quase-mística das montanhas. O montanhismo, mesmo sendo um esporte, muitas vezes ganha ares (rarefeitos) de religião…
Na terra das montanhas mais altas do planeta, na região do Himalaia, existe uma montanha considerada mais sagrada que todas as demais, mesmo não sendo nem de perto a mais alta.

O Monte Kailash, também escrito no ocidente como Kailas, tem a forma de um monumental pênis, uma glande intumescida ameaçando os céus – e talvez seja justamente a principal razão de sua santidade. Shiva linga – o pênis de Shiva, em sânscrito – é um importante símbolo da força criativa do homem na cultura hinduísta.

Sagrada para bilhões de seres humanos, um terço da humanidade atual, o Monte Kailash é considerado a residência de Shiva para os hinduístas. Para budistas é o trono do Buddha Chakrasamvara, o Buda do Êxtase Supremo. No Jainismo é o local onde o patriarca da religião, Tirthankara, atingiu o nirvana. Na religião Bon, xamânica e animista, é o assento da força espiritual.
O Monte Kailash nunca foi escalado (embora o maior montanhista de todos os tempos, Reinhold Messner, tenha tentado articular junto ao governo chinês na década de 80 uma expedição para atingir seu cume, abortada pelos chineses por ser politicamente delicada demais), mas é regularmente circundado, em forma de peregrinação, por dezenas de milhares de devotos todos os anos.
Kora, ou Parikrama em sânscrito, como é conhecida a peregrinação em torno do Monte Kailash, tem o poder de apagar pecados e garantir ao peregrino uma reencarnação “mais elevada” em seu próximo ciclo de nascimento, vida e morte, o samsara. Repleto de simbolismos, esse trekking (sim, porque não deixa de ser um trekking e hoje em dia é mais e mais encarado assim por adeptos de esportes outdoor) tem apenas 52 km de extensão e é feito e um ou dois dias. Seu ponto culminante, simbólica e literalmente, é o Passo de Drölma, de 5.500 m acima do nível do mar – uma escalada dolorosa e agonizante que simboliza a morte.
Esse livro, TO A MOUNTAIN IN TIBET, trata exatamente dessa peregrinação, considerada “a mais difícil de todas”. Escrito pelo consagrado Colin Thubron, tido pela mídia especializada como “o maior escritor de travel literature da atualidade”. Em 2007, Thubron foi condecorado com o título de “Sir” pela Coroa Inglesa, por sua contribuição literária.
TO A MOUNTAIN IN TIBET é literatura de primeira ordem. O autor é da “velha escola” de escritores viajantes, daqueles de erudição enciclopédica sem ser pedante, poliglota, experiente além da conta, culto acima da média, multicultural sem perder os elos com sua cultura de origem, ousado e destemido. Colin Thubron joga no time de Bruce Chatwin, Paul Theroux e V S Naipaul, três dos meus autores prediletos. Seu texto é ao mesmo tempo lírico e fotográfico, enxuto e abrangente, objetivo e pessoal. Como todo bom escritor de travel literature, em minha opinião, Thubron não se preocupa em “levar o leitor em uma viagem através de seu livro” – como faz a imensa maioria dos autores de menor talento do gênero – mas consegue “apresentar ao leitor a descrição mais honesta possível de sua própria viagem”, o que leva o leitor a desejar viver sua experiência, diferente do autor, por conta própria – o que infinitamente mais difícil em qualquer livro.
A peregrinação em torno do Monte Kailash ocupa minha imaginação há muitos anos. Já li outros dois livros sobre o tema (os belíssimos Himalaya – The Sacret of the Golden Tara e The Rivers of the Mandala), que ainda não abordei nessas resenhas. Aguardem! Um dia ainda faço minha limpeza kármica por lá… Que espero será uma experiência tão rica e sutil quanto essa brilhantemente narrada por Sir Colin Thubron nesse livro.
Fechei o livro ao final da leitura e, incontroladamente, comecei a planejar minha viagem ao Tibet… Esse é o grande perigo de bons livros – eles mudam a direção de nossas vidas.

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To a Mountain in Tibet
Colin Thubron
2011
Harper Collins Publishers
www.harpercollins.com
227 páginas
ISBN 9780061768262