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TURN RIGHT AT MACHU PICCHU / MARK ADAMS

Existe uma tradicional “escola de literatura de viagem e aventura” no mundo, particularmente forte e produtiva na Inglaterra e nos EUA. Isso é, obviamente, uma questão mercadológica, já que existe um grande público consumidor para esse tipo de livro nesses países. Mas também é uma questão cultural. Livros promovem pensamentos, conceitos, atitudes, opções de vida dentro do universo aceito pelo público leitor. O mercado alimenta a cultura e vice-versa.

Em 2011 completou-se um século do “descobrimento” de Machu Picchu pelo explorador norte-americano Hiram Bingham III. A data não poderia passar em branco sem que alguém retraçasse os passos do explorador em um livro. As aspas na palavra descobrimento são essenciais e extensamente debatidas por todo o livro. Hoje em dia já existe consenso no mundo acadêmico da arqueologia e da história, concordando que Bingham não “descobriu” a cidade inca de Machu Picchu porque “ela nunca esteve desaparecida ou perdida”. Da mesma forma que o Brasil não foi “descoberto” por Cabral ou a América por Colombo. O descobrimento, nesses casos todos, tem um teor colonialista muito forte e não costuma ser bem aceito pelos povos descobertos.

O próprio Bingham, em seus livros, descreve sem pudores que quando chegou em Machu Picchu, em 24 de julho de 1911, a cidadela estava totalmente tomada por vegetação, mas que algumas ruínas eram usadas por fazendeiros locais para criação de porcos e plantação de milho. Havia inclusive uma pichação no muro do Templo das Três Janelas, assinada e datada “Lizarraga 1902”. Um antigo fazendeiro local queria entrar para história antes de Bingham.

Longe de perder o mérito por seus feitos, Bingham é sem dúvida alguma o grande responsável pelo “sucesso” de Machu Picchu (com uma forte ajuda de Gilbert Grosvenor, presidente da National Geographic Society de 1920 a 1954 e editor-mentor da famosa revista da sociedade). Se hoje você e eu sonhamos em um dia visitar essas ruínas, devemos isso à construção do mito do explorador romântico, destemido e intrépido, construído em torno da figura de Bingham e da “cidade perdida dos Incas”.

O autor de Turn Right at Machu Picchu, Mark Adams, foi também editor de outra famosa revista do segmento aventura, a norte-americana Outside. Extremamente competente, sem ser genial, Mark Adams costura de forma harmônica e divertida sua história pessoal com as histórias de Bingham e Machu Picchu. Apesar de haver trabalhado vários anos no segmento aventura, ele nunca havia feito trekking ou acampamentos selvagens antes de produzir esse livro – o que o obrigou a retraçar os passos de Hiram Bingham quase cem anos depois, montanha acima, pé ante pé. Sem ser um aventureiro, Adams produziu um excelente relato de aventura.

Instrutivo e bem escrito, profissional e divertido, muito bem embasado em pesquisa e costurando muito bem passado e presente, Turn Right at Machu Picchu é um excelente exemplo de literatura de aventura escrito por um não-aventureiro assumido. Adams tira sarro de si mesmo todo o tempo e jura que só volta aos Andes “de helicóptero”. Atento ao mundo à sua volta, especialmente durante as várias viagens que fez ao Peru, ele realça diversos personagens locais, clássicos desse tipo de literatura, como “o guia explorador nos moldes do Crocodile Dandy”, “o cozinheiro tagarela de expedição”, “o incansável carregador andino mascador de folhas de coca”, “o pesquisador amador mais versado que os acadêmicos”, “o nativo culto e poliglota, instruído, inteligente e quase educado demais para um nativo”, entre outros.

As deslumbrantes e impiedosas paisagens andinas também são realçadas no livro, deixando qualquer leitor com coceiras de pegar um avião e aterrissar no Peru.

Gostei muito desse livro e recomendo a todos que gostam tanto de literatura de viagem e aventura quanto de simplesmente de “um livro bem escrito”. Não consigo deixar de pensar, toda vez que leio material tão competente, que já está na hora do Brasil produzir relatos semelhantes. Não nos falta cenários, personagens, oportunidades.

A tal “escola de literatura de viagem e aventura” norte-americana e inglesa já produziu inúmeros bons autores, além de excelentes livros de grandes exploradores e aventureiros. Mark Adams praticamente dá a fórmula de como escrever um bom livro de aventura: dedicação sem medo de sujar as unhas. Exatamente o oposto, por exemplo, do que costumo ver nos vários programas de TV que tratam do tema “viagem e aventura” no Brasil… Modelinhos ignorantes e fotogênicos, limpos a asseados, que param diante de ruínas centenárias ou cenários naturais estonteantes e comentam: “Ah, que bonito tudo isso!”… “Uau, radical!”… “Esse lugar é cheio de história!”… Ou simplesmente fazem mais uma pose para as câmeras.

Esse livro é um bom exemplo de que aventura de verdade exige um elemento básico: entrega.

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TURN RIGHT AT MACHU PICCHU
Mark Adams
Dutton, Penguin Group
New York, NY, USA
2011
333 páginas