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BUDISMO E A CIÊNCIA DA MENTE… WORKSHOP DE MEDITAÇÃO VIPASSANA

Kalapalo 13/06/2011 4

Quando eu tinha sete ou oito anos, estudava em uma escola de freiras no bairro de Higienópolis, em São Paulo. Rezávamos todos os dias uma Ave Maria no começo das aulas. As classes de religião, no entanto, não eram obrigatórias e os pais podiam escolher se seus filhos frequentariam ou não essas aulas. Mas acho que isso era resultado de alguma lei e não de uma postura laica da escola… Não sei.

Um dia a irmã que ensinava religião disse à minha turma: “Deus criou o homem, a Terra e todo o universo”. Meus coleguinhas começaram então a indagar… “Deus criou o mar?”, “Deus criou o sol?”, “Deus criou as estrelas?”. Para tudo a irmã respondia que “Sim”, sem esconder certo orgulho.

Foi quando uma dúvida me tomou de súbito e perguntei: “Mas irmã, quem criou Deus?”. Parecia uma pergunta lógica para mim, porque se tudo necessitava de um criador, como o criador poderia também não ser fruto da criação de algo ou alguém? Afinal… Geração espontânea parecia impossível também para o cristianismo…

“Deus sempre existiu”, respondeu a freia simplesmente.

Não fiquei satisfeito e argumentei do meu jeito, como uma criança sabe argumentar, que se Deus sempre existiu então porque o universo não podia também sempre ter existido? Por que o universo precisava de um criador e Deus não?

Não me lembro direito como tudo aconteceu, mas acho que minha curiosidade era grande demais para a paciência cristã da freira e ela reclamou de mim na diretoria. Minha mãe foi informada. Em casa, minha mãe simplesmente disse “você não precisa mais ir nessa aula de religião se não quiser”. Não fui mais… E o pátio de cimento era um lugar bastante isolado e frio para uma criança sozinha durante as aulas de religião.

Minha pergunta continuou sem resposta por muitos anos… Às vezes incomodava, às vezes eu nem me lembrava dela.

Não posso dizer sei a resposta hoje, mas sinto-me mais satisfeito com a proposta que encontrei no budismo sobre o tema… Simplesmente não existe criador nem criatura. O Universo e tudo o que nele existe, inclusive nós, mesmo que de forma embrionária, sempre existiu. Tudo está sempre em movimento, transformação, mutação. Tudo aparece e desaparece em um ciclo natural de “vida, existência e morte”, inclusive o sol e as estrelas. Inclusive o próprio universo. Tudo e todos estão intimamente conectados e são interdependentes. Nada funciona isolado. Nada existe de forma isolada. Toda ação gera uma consequência. Tudo se conecta como números em uma infinita fórmula matemática universal, que também está em constante mutação e evolução. Existem inclusive vários universos, muitos dos quais invisíveis. É através da nossa mente, quando afiada e preparada, que podemos compreender e enxergar todas as conexões e ligações…

Incrível como as proposições budistas de 2.600 anos atrás são coincidentes com as mais modernas propostas científicas modernas, como a física quântica, a ecologia, a evolução das espécies e os mais avançados estudos sobre as dimensões espaciais… Buda e Einstein teriam muito o que conversar juntos!

Tem, obviamente, muito mais que isso no budismo, mas esses pontos já serviram para acalmar a tal perguntinha infantil, que parece ter incomodado tanto a freirinha na minha infância.

Então, de repente, virei budista… Mas o que é isso? O que faz um budista? Acende velas para uma imagem de Buda e pede por saúde, prosperidade e paz? Agradece a ele quando a vida corre suavemente?

Não.

Buda foi um homem como eu, que através de muito esforço, disciplina e uma mente privilegiada, conseguiu enxergar “as coisas como elas são”. Então como ele, já morto, poderia responder a meus pedidos? Ou escutar meus agradecimentos? Como poderia me ajudar? Ou atrapalhar? Que responsabilidade teria ele sobre minha vida, minhas decisões, minhas certezas e dúvidas?

Melhor deixar a estátua, com ou sem vela, apenas como um lembrete, um exemplo a ser seguido… E estudar seus ensinamentos e seguir seus passos.

Por ser um cientista antes de tudo, o Buda deixou um tratado minucioso de como atingir a plenitude da consciência através de muito esforço, disciplina e investindo no desenvolvimento da mente. Exatamente como ele fez. Um dos instrumentos fundamentais, ele ensinou, é a meditação. O Buda mostrou vários tipos de meditação, mais de 40 se não me engano. A mais conhecida e estudada é a Vipassana – a Meditação da Visão Clara, que tento praticar todos os dias.

Mas, além de sua proximidade com a ciência moderna, o budismo também me atraiu por várias sutilezas, alguns ensinamentos presentes nos discursos do Buda, ou Suttas, e no exemplo de vida que ele deixou…

Por exemplo, “Se você quer algo, consiga por si próprio, através de esforço e disciplina, com muita ética e moral!” Ou então “Não acredite cegamente em nada que te disserem ou ensinarem, nem naquilo que eu ensino. Sempre experimente em você mesmo e comprove em você mesmo as suas verdades”. Ou ainda “Não doutrine, não force, não faça proselitismo dos ensinamentos (budistas), cada um tem que escolher seu caminho por si próprio”…

Então, nesse fim de semana aconteceu aqui no auditório do Clube da Aventura Kalapalo, onde também acontecem as aulas do Espiral Yoga, um workshop budista Theravada , promovido pela Comunidade Buddhista Nalanda, com o título de “Budismo e a Ciência da Mente”. O professor foi um monge de Myammar (antiga Burma), abade de um monastério na Grã-Bretanha, o venerável Dr. Uttaranyana. Tive o privilégio de ser o tradutor oficial do workshop do inglês para o português.

Se houver interesse sobre o assunto, posso explicar um pouco mais sobre o tema aqui no blog… Afinal, não existe aventura maior que o autoconhecimento.

  1. Marco 14/06/2011 at 2:25 - Responder

    Comentário: Muito bacana, interessante sua evolução espiritual desde a subida da Vila Maria quando comentei algo contigo...falando em freira conhecidentemente em uma busca do porque estava vendo o sincronismo de Deus em numeros estive em uma visita ao mosteiro das Irmãs Beneditinas em Campo do Jordão (http://www.mosteirosaojoao.cjb.net/)quando ao conversar com uma irmã ficou tão claro a sua explicação sobre os sinais de Deus para mim e ela usou picocas... quando sincronizarmos um encrontro te conto, bem ou mal todos somos guardiões da sabedoria de Deus o que seria de nós se em tempos remotos não existisse o Xamanismo (e os Mais guardavam as mumias em sua casa pois não entendiam a morte...)como iria existir o Budismo que também abriria espaço para o Cristo onde os budistas são livres em nossa terra Laica com base cristã sendo inspiração para Guandi "Não há um caminho para Paz , a Paz é o caminho" enfim "Não há um caminho para Buda, Buda é o caminho", grande abraço Rincón.

  2. Israel Moisés eletronica.luiz@hotmail.com 14/06/2011 at 12:16 - Responder

    Comentário: Tantas coisas a falar e uma imensa falta de saber oque dizer primeiro, ou simplesmente de como dizer, sou um grande fã do blog e de você, conheci o blog a mais ou menos um ano, e desde lá minha rotina diária se inicia conferindo o blog, me causando certa frustração quando não há novas matérias, rsrs. Bom, vendo muios sites e blogs vi que a grande dos aventureiros, segue o budismo, mas foi através de suas matérias que resolvi ir atras de mais informações, e realmente gostei e me identifiquei muito. A vida nos tras muitos "porque" e acabe a nós mesmos muitas vezes descobrirmos a resposta. Realmente tenho muito oque escrever, perguntar, conhecer, enfim, muitos "porque".
    Tomara que nos brinde com mais matérias sobre o budismo, sobre meditação, quem sabe dando até algumas dicas. Bom, entre tanto a a falar consegui me manter no assunto, mas com certeza gostaria muito de poder conversar sobre muitos assuntos. Um grande abraço e até a próxima!

  3. Alfredo 20/06/2011 at 0:53 - Responder

    Comentário: Muito bonita toda explanação. Acabamos por nos tornar racionais e nossos esforços vão em compreendermos o maximo que consigamos para melhor ser nossas ações

    abçs

  4. Anonymous 04/07/2011 at 21:15 - Responder

    Comentário: o Budismo e a ciência da mente parece ter sido uma ótima palestra, /coloque alguma coisa no seu blog sobre o tema. Gostaria de saber.