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DOMINGO É SAGRADO!

Kalapalo 22/06/2009 3

Podia estar chovendo, podia estar muito frio, podia até ter pintado aquela preguiça domingueira com cara de Faustão e Fantástico – que corrói a vontade como ferrugem e transforma todo domingo em um labirinto depressivo. Mas o dia estava lindo, céu azul sem nuvem, temperatura de 14° C quando a gente chegou ao ponto de encontro para o pedal, para fazer umas das trilhas mais desafiantes e completas que conheço próximo de São Paulo.

Que ponto de encontro? Que trilha? Isso é segredo.

Minha profissão é buscar, encontrar, mapear, planilhar, desenhar e organizar toda a informação disponível para prática de mountain bike e trekking em livros, que depois você, leitor, poderá repetir no seu domingo de lazer. Mas nesse domingo eu não estava trabalhando, estava me divertindo fazendo exatamente a mesma coisa que faço quando trabalho: esporte de aventura.

Pode xingar que eu mereço!

Às 8:00 em ponto outro profissional do mercado aventura, Valério (sócio da Proativa 21, dona das marcas Deuter, Sea to Summit e Princeton Tec no Brasil) chegou na minha casa para seguirmos juntos na minha viatura para o pedal. Era a primeira vez que pedalávamos juntos depois de vários anos de relacionamento comercial e profissional. Sabe como é, né… Sempre rola aquele papo de “precisamos marcar um pedal!”, ou “bem que a gente podia escalar juntos…”, quando o pessoal do meio de encontra. Mas, na real, tem sempre tanto trabalho para fazer que nunca rola. Eu sabia que o Valério escalava em rocha, mas só recentemente, em alguma inauguração de loja, feira ou evento do meio, descobri que ele curtia mountain bike também.

Marcamos finalmente esse pedal, nessa trilha secreta onde pedalam algumas das maiores figuras do mountain bike paulista e talvez brasileiro. Figuras mesmo! Os caras mais desencanados, os mais comprometidos, os mais fortes, melhor equipados, mais sangue-no-olho e também os mais foda-se-a-faxineira…

O ponto de encontro estava lotado de carros e motos, como sempre, mas aqui e ali se via bikes nos capôs dos carros e magrelas imóveis esperando impacientes ao lado dos veículos, como cavalos de corrida puro-sangue poupando energia só meditando sobre a vida. Rapidinho começa o corre-corre preparatório… Água no hidratador, protetor solar (não esquece as orelhas), óleo na corrente, verifica a calibragem dos pneus, zera o hodômetro, liga o monitor de freqüência cardíaca (eu desencanei de usar faz tempo), limpa as lentes dos óculos, carboidrato em gel no bolso da camisa de ciclismo, tranca o carro, verifica todas as portas e janelas (afinal estamos em São Paulo), deixa e celular ligado por garantia e alonga alguma coisa (ih, esqueci completamente dessa vez)… Mas sempre tem um Mané que demora mais que os outros, segundos que parecem horas quando a mente já começa a pedalar antes do corpo. Sem estresse. Tudo é motivo para uma piada.

Essa trilha secreta é dura, íngreme, de terreno irregular, sobre-e-desce constante, cheia de singletracks, pedras e galhos soltos que saltam e ricocheteiam sob os pneus das bikes e eventualmente engancham no câmbio traseiro ou nos raios (tombo certo), erosões, valetas e curvas erradas. Enfim, pauleira! Por isso é tão boa e deve permanecer secreta. Não é lugar para crianças! E também tem o detalhe dela ser toda em propriedade particular e do dono proibir a entrada… Se contar onde é, além de ser crucificado pelos companheiros bikers posso ser processado ou sei-lá-o-que… Então, gente boa, nem insiste porque eu não digo onde fica.

Não existe estação do ano melhor para pedalar mountain bike como o outono, mesmo que ele tenha acabado exatamente hoje de madrugada! O céu azul vazava pelas árvores militarmente enfileiradas e desenhava bordados delicados no chão, na borda da trilha canteiros naturais de Maria-sem-vergonha decoravam o caminho, uma espessa névoa matinal cobria o topo das montanhas e escondia a força do sol, mas isso não enganava ninguém. Como diz o caboclo: “névoa baixa, sol que racha!”.

O ar frio gelava pernas e braços e ardia nos pulmões nos longos trechos de sombra antes do corpo aquecer, e é justamente por isso que eu não uso manguito, pernito, jaqueta ou qualquer outra “frescura” no começo de um pedal como o de hoje. Sentir esse friozinho e depois o contraste gritante do raio de sol que te encontra de repente, depois de uma curva ou no topo de uma longa subida, é o equivalente ao êxtase, o Nirvana no mountain bike!

Eu pedalo nesse pico há oito anos e ainda me surpreendo a cada dia, mas levar alguém novo para lá revitaliza a realização da beleza do lugar. Toda hora eu perguntava ao Valério se ele estava gostando, se estava achando bonito, se a trilha era tão boa quanto eu acreditava. Acho que na empolgação fomos aumentando o ritmo, seguindo dois amigos moutain bikers inveterados, “chassi de frango” (termo que a gente usa para explicar o tipo físico bem magro, leve, com coxas grossas) e o Valério, que não está na melhor forma física, mas é valente, trincou os dentes e deu tudo para acompanhar… Acho que ele nem conseguiu curtir muito a beleza do lugar, a cada subida eu olhava para o cara e via o esforço, força de vontade, determinação atrás das lentes já sujas e engorduradas dos óculos de ciclismo. Dava vontade de tirar o capacete para ele.

Mas tudo tem seu preço e o Valério, já nos oito quilômetros finais da trilha, tomou um chão em um trecho bem fácil, estradão de terra, nitidamente por cansaço. Tombo besta sem maiores conseqüências, além de um manete de freio quebrado, arranhões no ombro, joelho, óculos e na autoconfiança. Ele, até então, vinha me impressionado com sua técnica de descida, pilotando rápido a bike e não simplesmente deixando-se levar pela magrela montanha abaixo, mas depois do tombo até na descida o ritmo dele caiu.

Para completar, ele se perdeu de nós porque vimos um cara nos acompanhando por trás, também de camisa preta, concluímos ser ele e tocamos adiante. Não era. Coincidência. Perdemos o Valério, que seguiu pela estradinha principal e desceu a montanha pelo lado errado. Voltei para procurá-lo. Não encontrei. Assobiei no topo da montanha. Esperei. Nada. Imaginei que ele pudesse ter encontrado o caminho certo e ter se reunido com o resto do pessoal. Voltei.
Encontro com um grupo de amigos, das antigas, pedalando o mesmo circuito só que reduzido. Ninguém havia visto o Valério. Meus companheiros de pedal, os frangos, haviam sumido também e eu não estava muito familiarizado com aquele trecho do percurso, que muda sempre. Complicou a situação. Lembrei que sugeri ao Valério tirar a jaqueta de chuva da mochila de hidratação e imaginei o que seria passar a noite naquela trilha. Mas era apenas meio-dia… Fantasias de desastre que preparam o espírito para o pior.

Desço a montanha pela trilha correta e no meio da descida vejo um cara empurrando a bike com o pneu traseiro furado. Era um novato do grupo que cruzei. Sem kit remendos, sem bomba de ar e, segundo ele: “também não sei trocar pneu”. Novato mesmo. Digo que vou avisar os amigos dele e quando chego à base meu celular toca. Era o Valério. Marcamos encontro no lugar onde ele havia caído. Nisso aparece um dos caras do grupo de ciclistas procurando o novato. Aviso sobre o pneu furado e empresto minha bomba de ar. Marcamos de nos encontrarmos, todos os quatro, assim que eu reencontrasse o Valério para sairmos juntos daquele trecho de trilha. Solidariedade natural em aventura. Subo de volta a montanha e no topo troco mais algumas ligações e assobios com o Valério. Nos encontramos finalmente.

Ele estava bem cansado, mas resistindo bravamente. Não empurrou a bike em nenhum momento. Calmos, macacos-velhos de aventura, nem demos muita importância ao ocorrido, mas daria para tirar muitas conclusões e aprender muito com o momento. Acho que as principais lições dizem respeito a estarmos preparados – fisicamente, psicologicamente e bem equipados (ambos estávamos) – mas também tem a questão de saber que aventura sem uma pitada de improvisação, imprevisto, mudança repentina de planos, não é aventura. Nossa trilha acabava de entrar para a lista dos pedais memoráveis.

No final, foram 40 km de trilha (a previsão era 30 km), 1.325 metros subidos acumulados e a mesma coisa somada para baixo (a trilha é circular), 03h25min de pedal (meu ritmo) e uma altimetria sem descanso, como mostra o gráfico.

Domingo é sagrado! Dia de aventura. Desliga a TV e acende um farol de LED para o santo…

  1. Palmieri 24/06/2009 at 12:56 - Responder

    Comentário: Oh Locô, casca grossa logo na primeira aventura.
    Me avisem da próxima, mas tem que ser uma trilha mais leve, para não terem que me guinchar.
    Aquele abraço e parabéns pela iniciativa,

    Palmieri

  2. Anonymous 29/06/2009 at 14:31 - Responder

    Comentário: Isso sim é um domingo divertido e com aventura. O corpo descansa na 2ª feira em frente ao maldito computer... esse é o valério que eu conheço... não desiste fácil não. Abraços a todos. Tomas

  3. Anonymous 30/06/2009 at 18:30 - Responder

    Comentário: Guilherme,
    Sou muito grato por me chamar para esta trip. Realmente o percurso foi muito difícil,e lamento não estar em melhor forma.
    Na escalada, em momentos em que passamos "aquele veneno", muitas vezes nos perguntamos: "o que é que eu estou fazendo aqui?" Lá pelo décimo quilômetro, ao avistar um zigue-zague que mais se parecia com o caminho para "Asgard", me flagrei fazendo a mesma pergunta. Cheio de pedras soltas, trechos com um barrinho básico, e a desconcertante imagem de "Guilherme The Rock" e os outros dois - que realmente eram fortes - lá na frente. O ângulo de subida era muito acentuado, e a roda dianteira ficava continuamente "descolando" do chão. Nessa hora, rezei para meu "santo de devoção". Pedi para que "São Desclipador de Pedais" não me faltasse naquela hora, caso necessitasse. Alcancei o topo sem sujar a sapatilha, nem eu sei como. Te confesso que depois do tombo, perdi mesmo um pouco da autoconfiança nas descidas, único momento em que conseguia tirar alguma diferença daqueles caras que pareciam estar num passeio pelo parque. Mas tudo valeu muito a pena!
    Manterei o segredo do local, claro. Mas saibam que é o tipo de trilha onde mortais como eu pedalam 30% com músculos e 70% com orgulho próprio!
    Um abraço, e até a próxima!
    Valério Lopes.