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EXPEDIÇÃO CABO FROWARD

Kalapalo 24/03/2010 2

No hemisfério sul, o continente americano termina na Patagônia, na Península Brunswick (latitude 53° 53’ e longitude 71° 18’), no Chile, mais precisamente no Cabo Froward, às margens do Estreito de Magalhães. Ao sul desse ponto só existem ilhas, o arquipélago da Terra do Fogo, que se estende até o Cabo Horn.

A cidade mais próxima do Cabo Froward é Punta Arenas, a 95 quilômetros de distância, dos quais 50 quilômetros são de trilhas margeando o Estreito de Magalhães. Trilhas não marcadas.

A primeira vez que ouvi falar dessa possibilidade de trekking, caminhar 50 quilômetros margeando o Estreito de Magalhães até a extremidade austral do continente americano, o Cabo Froward, foi em Puerto Natales, no Chile, no verão de 2007 e 2008 quando fiz pela segunda vez o circuito completo de Torres del Paine. Era uma matéria no delicioso jornal gratuito Black Sheep que circula pela Patagônia e é editado em Punta Arenas e em Puerto Natales. Na época inclusive conheci e conversei longamente com seu fundador e editor na época, Rusty. Na época eu estava mapeando trilhas para o Guia de Trilhas Trekking Vol. 1 (link para resenha do livro aqui no blog).

No verão de 2008 e 2009, quando estive na Terra do Fogo e na Patagônia novamente, dessa vez para mapear as trilhas Dentes de Navarino e El Chaltén (respectivamente) para o Guia de Trilhas Trekking Vol. 2 (link para resenha do livro aqui no blog).

, li mais uma vez em outra edição do Black Sheep mais uma matéria sobre o trekking do Cabo Froward. Dessa vez era um relato mais extenso, mais detalhado, que me deixou com a boca ainda mais cheia de água.

Nesse verão, de 2009 e 2010, voltei para a Patagônia para mapear a Carretera Austral e a Patagônia chilena para meu próximo livro, o Guia de Trilhas Carretera Austral (link para resenha do livro aqui no blog). Encontrei dois mapas comerciais publicados sobre o trekking do Cabo Froward, ambos bastante rudimentares e simples, faltando muita informação. Aproveitei e em Santiago comprei no Instituto Geográfico Militar de Chile (IGM), o equivalente ao nosso IBGE, as cartas topográficas 1:50.000 e 1:250.000 da região. Na verdade comprei um verdadeiro arsenal de cartas topográficas, incluindo toda a extensão da Carretera Austral, praticamente toda a Patagônia chilena. Gastei uma grana preta! Mas valeu cada centavo…

Agora estou pronto! Vou fazer esse trekking selvagem, que o Black Sheep classifica como “… a journey only for those ready to get completely away from the masses and willing to put themselves in a place where the word ‘self-reliance’ cannot be taken lightly”.
Em português claro: “uma jornada apenas para aqueles que estiverem prontos para se afastarem completamente das massas e dispostos a se colocar em um lugar no mundo onde a palavra ‘auto-suficiência’ não pode ser encarada com leveza”.

Na verdade, nada assustador. Aqui no Brasil, quando decidimos por exemplo fazer roteiros de trekking como Serra Fina e Marins-Itaguaré, ambos publicados em meus Guia de Trilhas Trekking, auto-suficiência é uma coisa séria também. Nenhuma novidade.

Mas quando falamos em trekking selvagem, isolado, não marcado na Patagônia, tudo muda de parâmetro. O Estreito de Magalhães dispensa maiores apresentações, basta lembrar os incontáveis naufrágios que aconteceram ao longo dos séculos em suas águas. Berço de ciclones, cemitério mais antigo das Américas, canal navegado por nomes como Fernão de Magalhães (que emprestou seu nome ao braço de água), Francis Drake, Fitzroy e Charles Darwin, para citar apenas alguns.

O Cabo Froward é apenas uma ponta de pedra debruçada sobre o mar. Nele há uma cruz de metal que é regularmente trocada, depois de ser destruída pelos ventos. Obviamente não há estradas e o acesso se dá caminhando ou navegando. O caminho de volta é o mesmo da ida: quatro dias a pé. As grandes dificuldades do percurso são: clima (chove muito, venta um monte, faz frio), travessia de rios sem pontes (pode haver água na altura do peito, água gelada), trilha repleta de obstáculos (árvores caídas, charcos, florestas, pedras, etc.) e isolamento (que para mim é um benefício, mas para muita gente é aterrorizador).

As atrações são infinitas e a principal é a natureza, praticamente intocada. Mas existem outras, que listo abaixo…

Mais ou menos no meio do caminho há um antigo farol de sinalização totalmente restaurado e adaptado para receber e alojar turistas: o Faro San Isidro (www.hosteriafarosanisidro.cl/). Esse empreendimento de altíssimo luxo está isolado do mundo e se destina a um tipo de turista bem disposto e muito exigente. Nem sei se meu orçamento me permitirá passar uma noite nesse lodge (termo em inglês para designar hoje uma pousada muito chique), mas vai ser no mínimo engraçado tomar uma cerveja gelada em um bar requintado todo sujo de lama no meio do trekking.

Mais uns 50 km a oeste, seguindo o Estreito de Magalhães ainda mais uns quatro dias, por um trecho que eu sequer sei se há trilha, fica outra atração turística natural da região, o Whale Sound. (www.whalesound.com/home.htm). Esse empreendimento científico foi adaptado para receber turistas. Whale é baleia em inglês, Sound é canal marítimo ou braço de mar. Trata-se de um berçário de baleias jubarte, um ponto para o qual todos os verões as baleias voltam para se alimentar e alimentar seus filhotes. O programa turístico é acompanhar o trabalho dos cientistas e observar baleias. As acomodações são 100% ecológicas e de mínimo impacto, mas muito confortáveis.

Minha idéia de expedição para o Cabo Froward é simples: fazer os quatro dias de trekking, do fim da estrada ao sul de Punta Arenas até o Cabo Froward e, se possível, explorar e caminhar até o Whale Sound. Isso é inédito! Não descobri nenhum relato de alguém que já tenha feito essa caminada, que me parece totalmente factível. Meu estilo de viagem é “turismo expedição”, ou seja: auto-suficiente, responsável e ativo. Não contrato guias locais nem carregadores, não me desloco com veículos motorizados terrestres, aéreos ou aquáticos durante a expedição (já basta os dois vôos para chegar e mais dois para sair de Punta Arenas desde São Paulo!) e pretendo mapear todo esse percurso para um dos meus próximos livros.

Em outras palavras: não estou indo para lá de férias, vou trabalhar e quem estiver comigo vai trabalhar também, no mínimo posar de modelo fotográfico. Mas, como sempre digo, “êta vida dura!”, que trabalho mais chato eu arrumei para mim, hehehe…

Estou procurando companhia. A Expedição Cabo Froward vai acontecer no verão de 2010 e 2011, ou seja, no fim do ano. Se alguém se interessar, entre em contato comigo: guicavallari@kalapalo.com.br

  1. jp/gi 26/03/2010 at 19:56 - Responder

    Comentário: Guilherme.
    Pode contar comigo e a Gisele, já viajei no seu relato. Em relação às dificuldades, para nós quanto pior melhor. hehe. E já estamos treinando, depois que voltamos de El Chalten a ficha caiu e mudamos de vida radicalmente, corremos diariamente de 5 a 10k e fazemos aos finais de semana, diversas saídas de MTB, isso já se faz um ano. Estamos com os cascos afiados, e ainda vamos treinar ainda mais. A nossa única preocupação é com a questão financeira, mas este ano temos eleição, trabalho muito com marketing político, e deverá sobrar uns caraminguas para uma saidinha até a tão amada Patagônia. Será que vai sobrar um tempinho para tomar umas cervas ali na cervejaria artesanal de El Chaltén ? Grande Abraço. João P. / Gisele

  2. Clube da Aventura KALAPALO 26/03/2010 at 21:54 - Responder

    Comentário: ESCREVE PARA MIM DIRETO NO MEU E-MAIL PESSOAL, QUE POSTEI NO TEXTO... ESTOU FECHANDO O GRUPO DESSA EXPEDIÇÃO, MAS A AGENDA DE TREINAMENTO E PREPARAÇÃO É LONGA, INCLUINDO VIAGENS MENORES E TREINAMENTOS. A IDÉIA É CHEGAR NO FIM DO ANO BEM AFIADO. MINHA FILOSOFIA DE TRABALHO SE BASEIA EM UM "TRIPÉ" COMPOSTO DE "FORMA FÍSICA, PREPARAÇÃO TÉCNICA E EQUIPAMENTO". ACREDITO QUE COM ESSE TRIPÉ SÓLIDO, QUALQUER AVENTURA PODE SER ENCARADA SEM MEDO.