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EXPEDIÇÃO TRANSPATAGÔNIA / PUERTO VARAS, CHILE

Kalapalo 03/10/2012 17


Eu enxergo a vida como uma série de desencontros pontuada de ocasionais encontros. Explico… Quando escolhemos ser, por exemplo, arquiteto ou advogado, em teoria mata o engenheiro, o médico ou o atleta profissional dentro de si. Quando escolhemos viver em determinado país, em determinada cidade, extinguimos as possibilidades de sermos residentes de outras localidades. Quando escolhemos viver com alguém, quando nos casamos, fechamos as portas dos nossos corações ao resto do mundo… Tudo, claro, teoricamente.

Um pouco por sabermos que nosso tempo de vida é limitado e, portanto, escolhas precisam ser feitas, mas também em maior parte por pressão social, tomamos caminhos muitas vezes pré-determinados. Escola, faculdade, casamento, paternidade, profissão, planos de carreira, aposentadoria… Essas coisas todas vêem em pacote e para muitos chegam quase que de uma só vez.

Às vezes admiro profundamente quem consegue viver assim, seguindo os caminhos já mapeados, navegando a potente corrente desenhada pela sociedade. Nunca consegui isso. Talvez eu vivesse mais meus sonhos e fantasias, talvez me faltasse a paciência de primeiro plantar e depois colher.

Fato é que o rumo que dei à minha vida me trouxe até aqui… A Puerto Varas, na Patagônia chilena, no começo de uma viagem de bicicleta de seis meses de duração. Não é sina, não é destino, mas o resultado das escolhas que fiz, dos caminhos que tomei. Literalmente.

Estou no terceiro dia de viagem, meu primeiro dia de descanso, e o resumo dos dois primeiros dias, em manchetes, foi… 

De Bariloche (Argentina) a Petrohué (Chile), peguei a famosa excursão Cruce Andino (link para site), porque de outra forma teria que pedalar via Villa la Angostuna (Argentina) por três longos dias em rodovias de asfalto cheias de caminhões. No escritório da empresa, em Bariloche, eles dizem que a viagem foi programada para ciclistas também, minha opinião é que o ciclista em que eles basearam o percurso é o Lance Armstrong…

São três barcos. O primeiro de Puerto Pañuelo a Puerto Blest, pelo Lago Hanuel Huapi no braço Blest. De Bariloche a Puerto Pañuelo são 26 quilômetros de asfalto, com bastante trânsito de veículos e sem acostamento. Com meu bike trailer de 32 quilos totais eu demorei uma hora e 50 minutos, sendo que havia previsto uma hora e meia e sendo que no escritório da empresa me disseram, insistentemente, que bastaria uma hora… Resultado final, estresse! Eu bufava, xingava, suava, rangia os dentes e cronometrava cada quilômetro do percurso. Cheguei faltando oito minutos para o barco zarpar e vinte e dois minutos atrasado segundo o horário de embarque. A tripulação estava nervosa comigo, mas acabaram me ajudando muito.

Uma vez em Puerto Blest pedalei, como um atleta olímpico mas sem meu trailer, que viajou em caminhão com as demais bagagens, três quilômetros por um lindíssimo bosque de alerces (gigantescas árvores primas das sequoias). Peguei então o segundo barco, bem menor, de Puerto Blest a Puerto a Puerto Frias pelo Lago Frias.

De Puerto Frias a Peulla, no Chile, são 29 quilômetros de estrada de terra, com quatro quilômetro iniciais de subida de serra, oito quilômetros de uma descida estonteante e logo 18 quilômetros de plano. Fiz, graças à gentileza binacional de argentinos e chilenos, sem meu bike trailer, novamente como se estivesse numa corrida contra o tempo, em pouco mais de duas horas de pedal, sendo que tinha menos de três horas para não perder o barco. No posto policial chileno de fronteira um cachorro, cinza, muito peludo, de orelhas desalinhadas, muito jovem e brincalhão, me acompanhou no galope até Peulla. A temperatura devia estar em torno dos 8°C e toda vez que eu parava para fazer uma foto, o bichinho se atirava em alguma poça de água gelada até as bochechas. Apelidei ele de “puma” e pedalei muito imaginando como faria para levá-lo comigo para o Brasil…

O terceiro barco do Cruce Andino navega de Peulla a Petrohué pelo Lago Todos los Santos, em território chileno. A paisagem é maravilhosa, com vista do Vulcão Osorno e outras montanhas geladas. Mas eu estava tão cansado e estressado que terminei dormindo encostado em minha mochila, meio sentado e meio deitado numa fileira de quatro poltronas. Acordei babando e com turistas me olhando estranho, talvez se perguntando porque alguém dormiria numa viagem tão linda…

Em Petrohué decidi esticar mais 16 quilômetros até Ensenada, às margens do Lago Llanquihue e mais próximo de Puerto Varas. Dormi em uma cabana de madeira por dez dólares porque para acampar custava cinco. Achei a diferença pequena pelo conforto de cama limpa, chuveiro privado e aquecimento de lenha em fogão de ferro. Sábia escolha! As Cabañas Barlovento são administradas pelo casal Fredy e Ulrike, ele chileno e guia de montanha, ela alemã e agente de turismo. Quando eu decidir escalar o Osorno, vou procurar esse cara para me guiar…

De Ensenada a Puerto Varas, no dia seguinte, foram 47 quilômetros de asfalto e muito cansaço… O trailer está leve para seis meses de viagem, mas eu não estou na minha melhor forma física. Sofri bastante e pedale por três horas, com mais duas horas de paradas, intervalos, fotos, filmagens, etc. Cheguei em Puerto Varas às 15:00 só pensando em um banho quente e alguma comida… O que viesse primeiro.

Foi quando a coisa mais importante e marcando do dia aconteceu, por isso a foto do Pluto na abertura dessa postagem… Entrei em contato com a Adri, minha mulher, em São Paulo para dizer que estava bem e ouvi dela, entre lágrimas dos dois, que nosso amigo e companheiro de 15 anos de vida juntos, o Pluto, havia morrido… Lembramos de tantas viagens, aventuras e momentos que passamos juntos, nós três. Adriana e eu estamos juntos há 16 anos e meio, e o Pluto ficou conosco por quinze anos mais ou menos. Ou seja, ele nos acompanhou quase todo nosso tempo juntos.

O Pluto acompanhou minha mudança de vida, quando deixei de dar aulas de inglês e montei a Kalapalo Editora, quando produzi meu primeiro Guia de Trilhas… Ele estava comigo quando comecei a dar aulas de mountain bike em Nazaré Paulista… Subiu montanhas comigo na Serra da Mantiqueira, foi levado por um rio caudaloso em Itamonte (MG), quase se afogou desaparecendo entre rochas submersas, apareceu do lado de lá do rio abanando o rabo e pedindo mais… Desceu um bote de rafting em Extrema… Perseguiu um tamanduá mirim na Serra da Canastra… Saltou por cima de uma cobra coral em Visconde de Mauá… Enfim, se divertiu muito ao meu lado e ao lado da Adriana, a verdadeira paixão dele (e minha).

Escrevo com lágrimas nos olhos pela partida do meu amigo e companheiro, sinto saudades dele e do tempo que vivemos juntos, um tempo especial e muito marcante para mim. O Pluto foi encontrado na rua pela Adriana, na Avenida Pompéia, perdido e assustado, prestes a ser atropelado. Ela o trouxe para casa até que pudéssemos encontrar sua verdadeira casa. Encontramos seu antigo dono, que para nosso espanto não queria mais o cachorro. Ficamos com ele, ou ele ficou conosco. Não gosto de “humanizar” animais, mas sempre identifiquei muita gratidão nos olhos do Pluto. Hoje sou eu quem agradece a ele…

Link para a apresentação da EXPEDIÇÃO TRANSPATAGÔNIA
Link para o CHECKLIST da expedição
Link para o CRONOGRAMA estimado da expedição

  1. jp/gi 03/10/2012 at 18:39 - Responder

    Comentário: Meus sentimentos, Guilherme. Fiquei triste pelo Pluto, mas a vida desses animais é muito curta, tb adoro os meus cães, neste último sábado fomos eu e a Gisele para São José dos Campos, adotar mais um, é a Blue uma fêmea de Bernese, que estava sofrendo maus tratos num canil. Já tive um casal de Boxer, que se foram, ambos com 9 anos e ficamos tb muito triste. Enfim, a nossa vida segue. Parabéns pela nova expedição, estou aqui na torcida, grande viagem, pode ter certeza que o Pluto estará ao seu lado nesses caminhos, o "Puma"já foi um sinal. Força Amigo.

  2. dudutoledo 03/10/2012 at 20:34 - Responder

    Comentário: Cara! Força pra vc! Vc é um homem de coragem! Parabéns! Transmito minhas energias positivas à distância! Abs brother! Dudu

  3. Anonymous 03/10/2012 at 21:00 - Responder

    Comentário: Poxa Guilherme, fiquei muito triste com a notícia e com seu relato. Foi como se tivesse conhecido o pluto e realmente ter sentido a perda dele. Encontrei seu blog a procura de informações para pedalar na carretera, comprei seu guia e estou praticamente viajando junto com você ao ler seus relatos.
    Sou o cara de Brasília, e quem sabe não nos encontramos em janeiro ou fevereiro na Patagonia.
    Tenha força, a vida é mesmo de idas e vindas!

  4. Renato Kestener 04/10/2012 at 0:44 - Responder

    Comentário: Seus sobrinhos estão acompanhando sua expedição também e passando energia positiva. As boas histórias muitas vezes nascem dos maiores desafios. Com certeza você terá muitos deles por aí.

    Força!

  5. RAL 04/10/2012 at 1:00 - Responder

    Comentário: Sentimentos irmão! Continua firme! A vida é linda! Se divirta!

  6. VanManes 04/10/2012 at 1:20 - Responder

    Comentário: Vou acompanhar sua trip pelo blog. Primeira postagem e já me fisgou, força pelo Pluto!! Um bom caminho para vc!!!

  7. Rubens Santos 04/10/2012 at 1:39 - Responder

    Comentário: Difícil não verter algumas lágrimas lendo seu relato sobre o Pluto. Linda história de amor. Os animais são nossos 'irmãos menores', como bem denominou-os o escritor alemão Manfred Kyber. Desejo-lhe cada vez mais força nessa viagem. Acredito, sinceramente, que o Pluto o estará acompanhando diariamente em todo o percurso. Tudo do melhor para você!

  8. Anonymous 04/10/2012 at 2:27 - Responder

    Comentário: Os cães passam por essa vida terrena por um curto espaço de tempo. Para deixar apenas alegrias e lembranças! O Pluto certamente é grato por tudo que fizeram por e com ele! Cães tem alma... Ele foi escolhido para visitar e estar com vc e sua companheira!! Se for permitido no astral (em sonhos),encontrarão ele e sentirão a energia dele! Que a tranquilidade esteja com vc e sua companheira quando a saudade bater... Obs. Tenho uma labradora (baby),um dia ela achou veneno de rato na cozinha (na vina) e comeu, mas ainda está ao meu lado,serelepe!! Porém sei que o dia dela virá... Aí sentirei saudades também... Paz e bem para vocês. Rafaela.

  9. FLYP 04/10/2012 at 3:29 - Responder

    Comentário: Báh, tchê, que cousa. Os cães esperam para partir, esperou a tua partida. Sinto muito mesmo amigo, sabes que eu, humanizo demais meu cachorro, aquele monstro desalmado misturado com porco. Belo texto, pena que este percurso foi uma corrida contra o relógio, esta região é linda. Amarra uma bela ninfa com bead head no pontinha do tippet e manda pra dentro de uma corredeira por mim.

  10. João Bosco de Oliveira 04/10/2012 at 10:51 - Responder

    Comentário: Muito bacana o seu relato, Guilherme. Siga firme que o Pluto e nós ficamos na torcida.

    Grande abraço.

  11. Rodrigo 04/10/2012 at 12:02 - Responder

    Comentário: Caraca Guilherme, fiquei sabendo do Pluto agora por voce. Grande Pluto, vai deixar um espaço vazio. Abraços.

  12. Anonymous 04/10/2012 at 22:15 - Responder

    Comentário: Bom dia professor Guilherme.
    Meus sentimentos,pela perda de seu amigo,e companheiro de viagens e explorações.
    Aqui em casa,temos 3 gatos e um Pointer Ingles,todos recolhidos na sarjeta,e que fazem parte da familia,companheiros nas nossas alegrias e tristezas do cotidiano.
    Estamos aqui todos acompanhando sua nova odisseia pelas terras patagonicas!
    Para mim,em especial,sera uma maneira de rever lugares e paisagens que conheci em 2010,quando de uma viagem que fiz ate o final da Carretera Austral.
    Boa sorte em todos os momentos!
    Saudações da familia Martins.

  13. Rodolpho 08/10/2012 at 0:07 - Responder

    Comentário: Meu (ousarei chama-lo assim) amigo Guilherme, te desejo toda a boa sorte do mundo. Saiba que estaremos todos aqui orando por ti, para que a vida lhe proporcione as melhores experiencias possíveis nesta empreitada deste grande ano.

    Sobre o Pluto... bom... quem escolhe conviver com um cachorro sabe que é assim: certamente veremos o bixinho ir embora. E acho que é isso que faz a convivencia com um cachorro tão especial: procuramos aproveitar cada dia, na certeza de que uma hora... bom... foi. E agora é curtir as lembranças e relembrar o que o bixinho nos ensinou.

    Agora trate de colecionar boas experiências para colocar num livro, que vou ter boas notícias pra você na volta. Viva cada segundo pra nos contar depois, pois você tem uma habilidade de nos transportar para dentro da tua aventura e nos fazer sentir o que você sente.

    Cara, escrevo essas palavras com lágrimas nos olhos.

    UM ENORME ABRAÇO,
    Rodolpho

  14. Anonymous 08/10/2012 at 3:42 - Responder

    Comentário: Abraçãooooo Guilherme!!!! Segue tua viagem com determinação! Fátima

  15. MoNi Mesquita 08/10/2012 at 7:29 - Responder

    Comentário: Gui.... e Dri... o Pluto reflete em todos nós aqui de casa...tentando sempre aprender com estes labradores que fazem nosso percurso, e nós os deles, muito mais felizes. Aprendemos contigo Gui...muito, aprendemos com que aprendeu com o Pluto! Vou viajar consigo e minhas boas energias também!

  16. Ricardo Miranda 08/10/2012 at 14:54 - Responder

    Comentário: Guilherme ... ler seu relato dos primeiros dias de expedição só aumenta a vontade de também estar aí!!! Saiba que todos estamos torcendo por você e na expectativa dos relatos futuros e depois do lançamento do livro que, sem dúvida, vai ser fantástico!!! Lamento muitíssimo pelo Pluto, até meu irmão, que só viu o Pluto uma vez, ficou triste. Mas lembre-se do melhor, ele foi um companheiro e tanto para você e a Adriana em todas as suas aventuras. Um abração, Ricardo.

  17. Filipe Tavares 23/10/2012 at 17:34 - Responder

    Comentário: Conheci o grande Pluto quando fui fazer o curso de trekking, já idoso e deitado na sua cama, ficava imaginando como aquele cachorro ja tinha se aventurado com voces, tambem perdi minha labradora ha 4 meses e sei como é, e ela só viveu 4 anos comigo. Amigo, sei que está muito preparado para a viagem e pode ter certeza que muitas pessoas estão torcendo por você. Abraços Filepe