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EXPEDIÇÃO TRANSPATAGÔNIA / VILLA O’HIGGINS, CHILE

Kalapalo 10/11/2012 4


Villa O’Higgins, fim da Carretera Austral, fim de uma importante etapa da viagem, mas não fim da linha ainda…  Depois do descanso não programado de um dia, muito bem aproveitado, em Coyhaique, recomecei a pedalar renovado e animado. Incrível como uma ducha quente, um colchão qualquer, café expresso e internet à vontade revigoram e, ao mesmo tempo, relembram que estou aqui justamente para me afastar um pouco disso tudo e reavaliar a importância real de todas essas amenidades… Na metade do meu dia de ócio – repleto de pequenas atividades como lavar roupa, recarregar pilhas e baterias, escrever no blog, atualizar o diário, comunicar-me com minha mulher, revisar e consertar a bike – eu já estava ansioso para voltar a pedalar.

07 DE OUTUBRO (QUARTA-FEIRA)


Um dos dias mais lindos da viagem até agora. Não havia nuvens no céu, o vento mal tinha forças para agitar a grama, o branco da neve trazida pelo mal tempo dos dias anteriores contrastava com a vegetação verde brilhante de primavera e o céu azul intenso. Os passarinhos celebravam à minha volta, lebres cruzavam a estrada em disparada com seu jeito surpreso e assustado. Não cruzei com veículo algum por horas, apenas trabalhadores carregando enxadas, machados, motosserras e afins. Hola, buenos dias!


Meu objetivo era Villa O’Higgins, a 226 quilômetros de distância com bastante subidas e descidas no caminho. O principal problema era a balsa de Puerto Yungay a Puerto Río Bravo, a 124 km de Coyhaique e 98 km de Villa O’Higgins, com partidas diárias ao meio-dia e às 15:00 fora da temporada de verão – como é meu caso agora. Fazer esse trecho em quatro dias é tempo demais, com quilometragem diária muito baixa para mim. Fazer esse trecho em dois dias é o inverso, puxado demais. Montei então a estratégia (tensa) de fazer em três dias…

A idéia era fazer a maior quilometragem possível no primeiro dia, talvez 105 km, e chegar à bifurcação da Caleta Tortel, no pé de uma longa serra de 9 quilômetros de extensão e quase 400 metro de desnível vertical, e a apenas 22 quilômetros da balsa. Assim, na manhã do segundo dia tudo o que eu teria que fazer seria subir e descer a serra, pegar a balsa do meio-dia sossegadamente e recomeçar a pedalar às 13:30, depois de almoçar e descansar, para fazer mais uns 50 ou 60 km. Com isso, eu teria um terceiro dia de no máximo 50 km, que eu faria na parte da manhã. Na teoria estava tudo certo, na prática nem tanto…


O dia que começou perfeito e rendeu dúzias de boas fotos, terminou em chuva forte e persistente. Desisti de pedalar depois de 87 quilômetros percorridos e às 17:30, em frente a uma humilde fazenda na beira da estrada. Uma senhora acenou da porta da cozinha para que eu passasse pela porteira torta de madeira e fosse bem recebido por dois vira-latas esquálidos e carentes de afeto. Galinhas impermeáveis ciscavam a lama. Pedi permissão para acampar no galpão de trabalho, ao lado da garagem com um caminhão e uma caminhonete, o piso de serragem de madeira parecia convidativo, as paredes de tábuas me protegeriam do vento e o teto de metal da chuva. 

“Claro que sí y le invito a agua caliente en la cocina”, me disse a senhora. 

Aceitei a oferta de água quente. A temperatura não estava muito baixa, cerca de 12°C, mas minhas mãos e pés estavam dormentes de frio. Fui cozinhar meu tradicional Miojo com sopa instantânea na cozinha da casa, no também tradicional fogão a lenha. Chegou o marido, que cortava madeira no campo. Eu ouvi a motosserra a todo vapor quando me aproximava.


Don Cristian Aratia e Doña Rosa Vargas são personagens tradicionais da região. Os dois nasceram por ali mesmo, às margens do Rio Baker, e viram a Carretera Austral ser construída já com filhos crescidos. A viagem de bike de Cochrane, que fiz em seis horas, eles hoje fazem em menos de duas horas de carro, mas demoravam até cinco dias a cavalo e barco anos atrás – não muitos anos atrás. Não sei por que, me lembrei de um livro que li sobre esse pedaço de mundo –  Back to Cape Horn, escrito pela aventureira britânica Rosie Swale (hoje Rosie Swale-Pope) –  contando sobre uma cavalgada do extremo norte do Chile ao extremo sul.  Rosie levou dois cavalos do deserto de Atacama até praticamente o Cabo Horn e chegou a Cochrane antes mesmo da Carretera Austral, de onde fez uma arriscada travessia até Caleta Tortel cruzando o portentoso Rio Baker pela água. De Tortel, ela embarcou (com os cavalos, claro) até Punta Arenas. Perguntei a Don Cristian se ele se lembrava dessa mulher…

“Pués claro! Yo la vi salir de Cochrane!”

Esse livro, Back to Cape Horn, está resenhado na sessão BIBLIOTECA AVENTURA no meu blog, juntamente com dúzias de outros excelentes títulos, incluindo os meus (link para a resenha no título).

O casal me informou que um de seus filhos, Daniel Aratia, é capataz em uma fazenda na Argentina, logo depois do Paso Mayer – por onde pretendo passar de Villa O’Higgins a El Calafate, pelos pampas argentinos, em sete dias de pedal. Um contato que pode ser importante, já que não tenho praticamente informação nenhuma sobre a região.

08 DE OUTUBRO (QUINTA-FEIRA)


Choveu forte a noite toda, batucando alto no telhado de zinco do barracão. Amanheceu chovendo igual. Tomei café da manhã com o casal Aratia-Vargas ouvindo o rádio VHF discursando nervosamente sobre “la crecida del Baker”. Um curto trecho da Carretera Austral adiante alguns quilômetros fica a menos de dois metros do nível do rio, que com chuvas fortes ou calor intenso – que derrete a neve das montanhas – faz o rio invadir e bloquear a estrada por muitas e muitas horas. Fiquei apreensivo também.


Comecei a pedalar às 8:14 todo encapotado, inclusive com minha genial idéia de usar uma touca de banho sobre o capacete da bike (nada de água gelada escorrendo pelo pescoço espinha abaixo). Fazia um pouco mais de frio, 9°C. Eu tinha que percorrer cerca de 40 quilômetros, com uma baita serra pela frente, antes do meio-dia. Ter horário para cumprir é tenso. Lembrei-me do primeiro dia da viagem, quando parti de Bariloche, e que por muito pouco não perdi a barco do Cruce Andino para o Chile… 

Eu tinha que administrar um monte de coisas. O cronômetro era apenas uma delas. Graças à navegação do meu livro Guia de Trilhas Carretera Austral, que trago comigo, eu sabia exatamente o perfil do relevo, quilometragem, onde havia casas, altitudes máximas e mínimas, enfim, tudo o que necessitava saber. Tinha tudo decorado. Precisava me preocupar com a bike, usando marchas e freios com delicadeza e precisão, já que a chuva e a lama dificultam o manuseio e danificam o equipamento. Não podia me descuidar de mim mesmo, não podia me esforçar além da conta, mas tampouco podia relaxar demais porque assim não chegaria no horário limite à balsa. Bike trailer e velocidade excessiva nas descidas formam uma combinação letal, então “ganhar tempo serra abaixo” não era a melhor estratégia. Minha roupa de chuva, toda em Gore Tex, impede que a água externa me molhe, mas não impede que o suor me encharque por dentro da roupa. Eu não podia me agasalhar muito, tinha que me vestir o suficiente para não sentir muito calor quando pedalasse, mas não podia parar por muito tempo – e nem era essa a intenção. O resultado foi que, menos de uma hora depois de partir, eu estava empapado de suor, mas mantinha um ritmo constante que produzia calor de sobra para espantar o frio.


Quando cheguei ao pé da serra, a chuva piorou bastante. Havia pequenos riachos descendo pelo meio da estrada. Se não aguentava pedalar, empurrava a bike morro acima com passadas largas, o mais rápido que podia. Lembrei do meu tempo de competições de mountain bike, quando ganhava posições nas subidas e não nas descidas. Vários carros me ultrapassaram rumo à balsa. Alguns buzinavam incentivo, passageiros faziam fotos ou acenavam. Eu parecia ler em seus olhos, que cruzavam com os meus rapidamente, um misto de admiração e piedade.  Só parei de mover as pernas para trocar as baterias do GPS e fazer meia dúzia de fotos, num total de 14 minutos. Pedalei por duas horas e cinquenta e dois minutos e cheguei à balsa ás 11:20 – tempo de sobra para um chocolate quente no café novo que construíram no atracadouro.

Todos os motoristas e turistas que me ultrapassaram estavam lá se aquecendo – alemães, australianos, ingleses, espanhóis e chilenos. Entrei gotejando por todos os lados e com olhar de pistoleiro chegando no saloom. Fui direto para o fogão a lenha. Silêncio absoluto, todos pararam de conversar. Devagar, um a um, todos vieram se apresentar e me parabenizar, dizendo que não acreditavam que eu conseguiria chegar a tempo. Eu também havia duvidado em inúmeros momentos. Entre os turistas havia um casal de espanhóis que também viajava em bicicletas, mas que desistiram em Cochrane por conta do mau tempo e agora se deslocavam em ônibus. O cara estava visivelmente emocionado quando veio falar comigo. Percebi claramente que ele se arrependia até o último fio de cabelo (que restava em sua cabeça raspada) por não ter pedalado nesse dia, nesse tempo, nessas condições, para poder entrar como eu entrei no café, olhos fixos no fogão a lenha, duro de frio e molhado até por dentro dos bolsos, mas incapaz de esconder o leve sorriso de orgulho e satisfação que só o esforço consegue produzir.


Do lado de lá da balsa de 45 minutos de travessia – onde troquei de roupa e devorei uma lata de atum com pão – o dia estava bem mais aberto e o sol ameaçava aparecer. Mas ficou só na ameaça. Minha intenção era pedalar 40 ou até 50 quilômetros. Sentei na bike às 13:30 como estava nos planos, mas depois de 31 quilômetros e às 17:00 fui obrigado a parar. A temperatura havia despencado para 4°C, chovia pequenas pedras redondas de gelo que cutucavam minhas orelhas como agulhas, meus dedos estavam travados de frio, o vento trazia mil anzóis em cada lufada de tempestade e, para completar, a pior serra do trajeto estava bem diante de mim, escondida entre nuvens negras de tormenta.


Fiz acampamento na varanda de uma casa abandonada – um conjunto de quartos de aluguel aparentemente inundado por uma cheia do Rio Tranquera. Eu estava a 1,5 km da ponte sobre esse rio e a 68 quilômetros de Villa O’Higgins. Foi um dia de 71 quilômetros pedalados com muito esforço. Tive princípios de câimbras nas virilhas dentro da barraca. 

09 DE OUTUBRO (SEXTA-FEIRA)


Muito frio de manhã. Só consegui sair do saco de dormir às 7:30, mesmo tempo despertado às 6:00 em ponto. O céu estava esquizofrênico, não sabia se desabava em tempestade ou rachava de sol. As montanhas vizinhas, nevadas nos topos e verdejantes nas encostas, eram pintadas com manchas de luz e sombras conforme as nuvens faziam sua dança no céu. Apostei em estiagem e comecei a pedalar de camiseta e bermuda. O frio cortante logo iria embora, na serra adiante. Aposta arriscada, que deu certo. Não choveu o dia todo.


Depois da serra, que me tomou 50 longos minutos com duas ou três pausas-relâmpago para fotos, o caminho ficou plano até praticamente o destino final. O vento vinha por trás como um par de mãos me empurrando fortemente para frente, a ponto de causar algum desequilíbrio. Mantive média de velocidade acima de 20 km/h por longos e longos trechos. Fiz meia hora de pausa para o almoço na cabana bem aquecida de um grupo de trabalhadores rurais chilenos, que colhiam madeira morta nos vastos bosques para lenha. Nessa região os bosques têm uma aparência caótica, repletos de árvores quebradas, tombadas ou apoiadas em outras árvores, como depois da passagem de um cataclismo. Fiquei com a forte sensação que era o último sobrevivente em um mundo devastado… Fiz uma nota mental que preciso parar de assistir filmes de tragédias.


Consegui chegar à Villa O’Higgins às 15:00, bastante cansado, depois de pedalar 68 quilômetros o mais rápido que consegui. 

CONDORES E EU

Em determinado ponto desse percurso de três dias, sem razão alguma, olhei para o céu bem acima de mim – coisa que nunca faço, porque estou sempre ocupado olhando para o horizonte à minha frente, para os lados, para trás ou para meus inúmeros aparelhos eletrônicos no guidão da bike. Havia um grupo de seis condores circulando acima da minha cabeça. Exatamente acima de mim, em círculos bem fechados. A primeira coisa que me veio à cabeça foi… “Sai prá lá, bando de urubus obesos, não sou carniça ainda!”. E ri sozinho da minha própria piada… Mas, em seguida, me lembrei de uma conversa recente…


Um guia de aventura e empreendedor local me mostrou um grupo ainda maior de condores no céu, em uma região que ele pretende explorar com a criação de um vasto parque turístico, com hospedagem, alimentação, loja de souvenires e uma versão 4×4 de teleférico. Ele contava sobre esse projeto e, ao mesmo tempo, criticava a iniciativa de Douglas Tompkins na implantação do Parque Patagonia (ver posts anteriores).  Foi quando me mostrou as aves e disse: “esos son mis cóndores, están siempre a mi disposición para verlos e enséñalos a los turistas”… (Esses condores são meus, estão sempre à minha disposição para ver e mostrar aos turistas).

Algo não me soou bem no discurso dele, mas não entendi exatamente o que na hora, vim a entender só agora, depois do esforço desses três últimos dias de pedal…


Enquanto eu dava tudo de mim para cumprir minha programação, exercitava constantemente certo distanciamento da natureza que me cercava. Não queria que a chuva, as subidas, a lama, o frio e as demais características do local e do momento se tornassem “meus inimigos” – obstáculos a serem combatidos e vencidos. Não queria que um vício egocêntrico maculasse a paisagem à minha volta. Eu estava onde estava, mas tudo à minha volta não existia em função da minha presença. Explorando a sensação e o conceito (a gente tem muito tempo para elucubrar teorias pedalando oito horas por dia), concluí que o mundo que me cerca não é uma projeção de mim mesmo, não existe unicamente como interlocutor do meu discurso, da minha passagem por ele. Foi uma experiência bastante rica. Esse distanciamento me proporcionou grande satisfação, porque conseguia enxergar a natureza simplesmente como natureza, não como potencial positivo ou negativo em relação a mim.

Foi quando me lembrei do tal guia e seu discurso.

Minha conclusão final foi… Se observarmos o mundo e as pessoas à nossa volta como oportunidades, peças que podemos ou devemos manusear para transitar melhor pela vida, criamos um ambiente de frustração e ansiedade sem fim. Tudo e todos passam a ter valor quantitativo, passam a representar perda ou ganho. Se, ao invés, observarmos tudo como elementos de um grande quebra-cabeça do qual somos apenas mais uma peça, conseguimos enxergar certa ordem, mesmo não conseguindo classificá-la e ordená-la sistematicamente. O atrito entre nós e o mundo vem da cobrança em ocupar espaço, conquistar, derrotar, possuir, subjugar, exercer nossa presença e personalidade sobre tudo. Ou seja… Projetar nossa imagem por todos os lados.


Os condores circulando acima da minha cabeça não me viam como carniça. Foi o mau hábito de projetar minha imagem em tudo que me cerca que criou essa confusão (e a piada, também). Mesmo exercitando conscientemente a não-projeção de mim mesmo, bastou um segundo de desatenção para eu rapidamente voltar ao condicionamento habitual. 

Então, caro amigo guia… Os condores não são seus, as montanhas não são suas ou de Douglas Tompkins, mesmo que documentos de propriedade digam o contrário. Se não acredita em mim, tente tomar os condores e as montanhas e enfiá-los em seus bolsos e levá-los para outro lugar, ou ainda, tente imaginar que você não existe por um segundo – o que no final acontece com todos nós, quando morremos – e você entenderá que condores e montanhas não dexarão de existir, simplesmente seguirão seu caminho natural…

Aos interessados em conhecer mais sobre o projeto, leiam os posts anteriores no blog e visitem os links abaixo para mais informações sobre a EXPEDIÇÃO TRANSPATAGÔNIA

Link para a APRESENTAÇÃO
http://clubedaaventurakalapalo.blogspot.com.br/2012/07/transpatagonia-apresentacao.html

Link para o CHECKLIST DE EQUIPAMENTO
http://clubedaaventurakalapalo.blogspot.com.br/2012/09/expedicao-transpatagonia-equipamento.html 

Link para o CRONOGRAMA ESTIMADO
http://clubedaaventurakalapalo.blogspot.com.br/2012/09/cronograma-estimado-expedicao.html

  1. Anonymous 10/11/2012 at 20:50 - Responder

    Comentário: As fotos estão lindas, os relatos vão dando uma idéia do que significa estar aí, com tudo isso aí e a tua BARBA ESTÁ BRANCA !!!!!! Siga sua viagem com a lembrança dos amigos que te admiram. Abração, Fá

  2. Dhanapala 11/11/2012 at 13:38 - Responder

    Comentário: Excelente relato como sempre!

  3. Dhanapala 11/11/2012 at 13:39 - Responder

    Comentário: E não esquece de comer verduras e frutas! rsrs

  4. Comentário: Olá, lendo seu relato vou lembrando dos lugares por quais passei em dezembro de 2011, fomos eu e meu marido de carro. Mas, desejo muito ir de bike e comungar mais a natureza.
    Vc é uma inspiração.
    E por falar em comer verduras, vc já provou naica em compota? Naica são aquelas folhagens enormes que vemos na beira da estrada, parecem plantas da época dos dinossauros, rs. Uma senhora no café de Puerto Yungay faz e vende as compotas e explicou que a naica é uma folhagem muito consumida pelos locais. É uma opção de alimentação mais saudável.
    Continuo acompanhando sua aventura, boa sorte, e obrigada pelos relatos.