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MAPEAMENTO BLUGRAMA AINDA DE MOLHO…

Kalapalo 24/09/2011 0

Esperar o clima melhorar nas Serras Gaúchas não é fácil, especialmente para quem não toma chimarrão, como eu… Olhando pelas janelas da sala de estar/jantar da Pousada Fazenda Potreirinhos vejo um grupo compacto de eucaliptos se deitar com o vento. O céu parece o tampo de uma mesa de mármore. Cada estalo do fogão a lenha perto de mimm traz um misto de alegria e ansiedade ao meu peito… Alegria pelo óbvio conforto físico, ansiedade pelo desejo de pedalar, mapear e terminar esse projeto.

O trabalho de produção de um livro de trihas é assim mesmo, um diálogo com o clima, o relevo, a vegetação, a poulação local, uma troca constante, uma constante dependência e interdependência. Não é fácil, mas quem disse que o que é difícil é ruim?

Essa parte em campo do meu trabalho, como autor de livros de turismo aventura, me ensina todo dia que o excesso de conforto e de comodismos da vida contemporênea urbana corrói rapidamente nossa força de vontade e nossa capacidade de criação e produção. Ficamos limitados por esses confortos, vendidos como valores pela mídia de massa. Rapidamente passamos a acreditar que o carro é essencial, que “casa boa é casa grande”, que sem televisão e internet a felicidade não é possível, que o luxo é um direito adquirido, que existe segurança no dinheiro, que o mundo é um conjunto de possibilidades e expectativas e não uma sequencia de causas e efeitos diretamente relacionados às nossas ações e atitudes.

No isolamento urbano e tecnológico dos grandes centros urbanos fica fácil acreditar, por exemplo, que o clima chuvoso, frio e nublado que enfrento agora é “ruim”. O “bom” é um ano de 365 dias de sol e clima ameno. Fórmulas vazias de “felicidade” acabam por incluir uma cama quentinha, fogo na lareira no inverno e ar condicionado no verão, mesa exageradamente farta, preguiça e todas as vontades realizadas… Ou ainda noções etéreas de saúde eterna, juventude inesgotável, amor perfeito, segurança plena e plena previsibilidade… Como se a felicidade fosse uma fotografia recortada da revista Caras.

Não tenho a fórmula da felicidade e não faço o menor esforço em econtrá-la simplesmente porque não acredito que ela exista. E isso me deixa mais feliz.

Entre uma rajada e outra de vento polar, cortante e impiedoso, sinto que o calor artificial do fogão a lenha me distancia mais e mais da realidade. Um buraco  nas nuvens deixa mostrar o céu azul e um raio de sol grita na paisagem como se fosse um chamado. Um lembrete que tudo está em movimento e que eu também deveria estar.

Quer saber? Vou pegar minha mochila, minha bike e sair daqui voando! Vou seguir viagem agora mesmo, antes que a preguiça e o comodismo ganhem espaço no meu DNA. Um pouco de frio e desconforto vão apenas somar à satisfação do meu trabalho, vão dar mais vida às minhas fotos e ao meu texto, vão emprestar mais vida à minha vida.

Fui.