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MAPEAMENTO CARRETERA AUSTRAL 14

Kalapalo 26/12/2009 0

Villa Cerro Castillo, Chile

20 de dezembro de 2009 / 22° dia de viagem / 6.953 km rodados
A travessia em trekking da Reserva Nacional Cerro Castillo começou com a nossa chegada à Villa Cerro Castillo – um pequeno amontado de casas em meia dúzia de ruas à beira da Carretera Austral e bem em frente à montanha homônima. Se nós acreditássemos em presságios eu diria que a mensagem era clara: não subam à montanha!
Era domingo, 20 de dezembro, dia do único rodeo chileno da aldeia e o segundo evento de maior importância no calendário local. A cidade só não estava abandonada porque havia um cachorro em quase toda casa. Exagero, claro. O centro de informação turística estava aberto e havia duas adolescentes de plantão para distribuir folhetos. A única informação de verdade que elas puderam nos dar foi que havia um rodeio na vila e todos estavam na festa.
Tentamos (sem exagero) todos os albergues e campings do local (que obviamente não são muitos) e estavam todos lotados ou não havia uma viva alma para dar informações. Chovia fino e frio. A fome já dava sinais, que no meu caso se traduzem em um puta mal humor. Desenganados pela expectativa que se concretizava de sermos obrigados a acampar na praça central, decidimos visitar o tal rodeio. Se não se pode vencê-los, una-se a eles…
Mal humor, fome, cansaço, desespero, tudo foi pulverizado assim que estacionamos o carro e vimos homens de todas as idades vestidos de bombachas, poncho quadrado e curto, chapéus de abas redondas e muito largas (igualzinho ao usado pelo Zorro da Sessão da Tarde), botas e enormes esporas redondas de incontáveis dentes. Cavalos para todos os lados. Em um galpão havia um palco e uma banda tocando música folclórica em violão elétrico, bateria e teclado também elétrico. Um grupo de senhores grisalhos, impecavelmente vestidos a caráter e também impecavelmente bêbados, conversava cheios de cerimônia em torno de uma mesa com diversas garrafas vazias de vinho nitidamente barato. Não resisti, me aproximei deles, saudei-os o mais gentilmente que pude e pedi que me permitissem tirar algumas fotos. Fui convidado para tomar um copo. Titubeei e lembrei do sabor intragável do Sangue de Boi brasileiro. Surpresa. Mesmo o vinho de mesa adocicado mais barato chileno é de extrema qualidade e muito saboroso. As fotos ficaram ótimas e meu humor melhor ainda.
Deixamos o galpão e fomos à arena onde acontecia o rodeio. Nada de cavalos bravos ou touros saltitantes. Um novilho era solto e “perseguido” de muito perto por dois cavaleiros que tinham de “guiar” o bovino assustado para lá e para cá. Tudo muito elegante e prático. Um exemplo esportivo da lida diária desses camponeses ressequidos pelo sol e pelo vento patagônico. Devo ter feito 50 fotos.
Voltamos para a cidade e entramos no melhor camping e montamos nossa barraca em um espaçoso pasto com meia dúzia de grandes cavalos. Meia hora depois apareceu alguém e disse que estava tudo bem, que podíamos ficar e que o dono do camping estava participando do rodeio. Mais uma hora e aparece o dono, feliz da vida porque havia tirado primeiro lugar no rodeio. Seu garanhão já estava no estábulo patendo as paredes e relinchando de orgulho e excesso de energia. Um problema a menos. Faltava apenas saber um pouco mais de informação sobre a travessia de quatro dias que tínhamos pela frente… Mas isso fica para o próximo post.