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MOBY DICK – UMA CRÔNICA

Kalapalo 17/01/2011 0

No meu bairro tem um ambulante que vende livros usados. Na verdade ele não deveria ser chamado de “ambulante”, porque fica parado sempre no mesmo lugar, no meio do quarteirão, entre uma perfumaria e uma loja de lingerie. Os livros são expostos no chão, sobre um pedaço de papelão, e em uma estante improvisada de ripas de madeira, fixa em uma parede. Eu sempre o cumprimento quando passo rumo ao banco, academia ou correio. Ele tem um cachorro por companhia, uma cadelinha branca, vira-lapa de poodle com numseioq, mais dona da calçada que qualquer transeunte. Foi nessa estante improvisada, um final de tarde, que vi um exemplar de Moby Dick em inglês. Edição de bolso, em papel jornal, novinha em folha, provavelmente nunca folheada. Eu nunca havia lido esse clássico e achei que não deveria perder a oportunidade. Perguntei o preço. Cinco reais. Titubeei alguns segundos não sei porque. Ele fez por três reais. O preço de um cafezinho. Levei o livro.

Semana passada, um mês e meio depois da compra, eu estava parado esperando o ônibus no mesmo quarteirão. Eu lia as últimas 100 páginas do livro quando um senhor alto, entre 65 e 75 anos de idade, decentemente vestido mas faltando alguns dentes na boca, parou do meu lado e esticou o pescoço para ver o que eu lia. Senti um arrepio de incômodo. Mas eu já estava incomodade havia algum tempo. Uma mendiga ocupava os assentos do ponto de ônibus, cercada de sacolas e sacos plásticos e pares de sapatos velhos. Seus pertences. Mas a fronteira de sua presença era demarcada por um cheiro forte, azedo, ácido e afiado de urina velha e seca. Ninguém ousava se aproximar muito do ponto de ônibus, tamanho o fedor.

Concidentemente eu lia uma passagem no livro que narrava a captura e processamento de baleias a bordo de um navio no meio do século XIX, em pleno oceano. Baleias mortas há semanas que resurgem na superfície do mar, inchadas por gazes de seus corpos em putrefação. Herman Melville não poupava adjetivos para descrever o fedor que irradiava a milhas de distãncia e contava que os marinheiros inclusive acreditavam que tal cheiro trazia doenças pulmonares e até a morte. Achei que a situação enriquecia a experiência de leitura. Pensei, se os marinheiros de navios baleeiros em 1850 aguentavam estoicamente semanas de cheiro de peixe podre, por que eu, metido a aventureiro, não posso suportar quinze minutos de catinga de urina enquanto o ônibus não chega? Vou resistir. Mas eu terminava dando um passo mais para longe da mendiga a cada minuto. Eu já estava até um pouco tonto e confuso, sem saber se estava a bordo de um navio ou trancado em um mictório público qualquer. Foi quando o tal senhor parou do meu lado.

“Você gosta de poesia”, ele perguntou. Depois leu o título do meu livro e alguma coisa da quarta capa. Percebeu que estava escrito em inglês. “You like poetry?”, ele completou com um sotaque mais brasileiro que jaboticaba e saci-pererê.

Respondi que não, monossilabicamente. Odeio ser interrompido quando estou lendo. Acho um desrespeito absoluto, igual a parar alguém em plena oração dentro de uma igreja. Aliás, a comparação é perfeita! Eu não tenho religião, mas venero livros somo se fossem divindidades.

O senhor insistiu em puxar conversa e disse que havia visto ao filme Moby Dick recentemente na TV a cabo. Senti outro arrepio de desconforto. Eu também havia visto, ou começado a ver o filme não fazia nem uma semana. Mas parei na metade porque não queria estragar a experiência da leitura. Não queria saber o final, embora eu meio que me lembrava como terminava, já que a história é clássica e bem conhecida, mas principalmente não queria influenciar minha imaginação com as imagens do filme.

“No final, o capitão… e a baleia… e o navio… e todo mundo…”, e o homem contou em uma sentença rápida e sem respiro como terminava o filme e o livro. Assim, sem mais nem menos. Tudo envolto no fedor de urina velha, em pé na calçada esperando o ônibus que não chegava.

Não tive reação. Não esmurrei o tal senhor, não dei risada da situação cômica, não passei sermão, não agradeci a gentileza. Foi um desses momentos ao mesmo tempo rico e vazio de conteúdo, repleto de humanidade. Uma história na história da minha história com a história do livro… Se é que dá pra entender.