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MOUNTAIN BIKE NA SERRA DA CANASTRA

Kalapalo 05/08/2011 0

Relato escrito por mim em 2005 e publicado na revista Aventura e Ação, na sessão Vida Dura. Revisado e atualizado para esse blog.

A proposta

Na verdade para pedalar não é preciso proposta alguma, só uma boa desculpa, qualquer uma que cole com a patroa… No meu caso, para ficar dois dias e meio sumido, só pedalando, inventei que precisava criar um roteiro para uma revista do segmento aventura. Colou. Fui.

O roteiro

Circular. É sempre legal começar e terminar num mesmo ponto, facilita a logística. Escolhi Delfinópolis, MG, primeiro porque não conhecia a cidade, mas principalmente porque arrumei uma carona que me levou até lá. Uma carona no mínimo exótica: um caminhão adaptado para passageiros puxando um hotel sobre rodas a reboque – o Exploranter. Na Internet descobri empresas de ecoturismo e pousadas locais que me auxiliaram com informação, mapas e, na última hora, até um guia-atleta para me acompanhar.

O guia

André trabalha como pedreiro, bate enxada na roça, é trabalhador braçal. Depois do expediente ele pega a bike e pedala 30 km todo dia, menos aos domingos, que é dia santo. Depois de pedalar ele ainda nada, rema e corre, todos os dias, intercalando esses treinamentos auxiliares. Ele quer ser corredor de aventura. Na verdade ele já é. Rolou uma prova na região, organizada por gente de São Paulo, com equipes de ponta superpatrocinadas e o André mais um companheiro local chegaram em primeiro lugar. Verdadeira “prata da casa”. Ou seria “ouro da terra”?

Primeiro dia

Saímos de Delfinópolis às 14:00 de uma quinta-feira. André pegou mochila emprestada de um, barras energéticas de outro e a benção de todos. Eu ia numa bike full suspension de 11 kg e ele numa rígida de uns 18 kg. Partimos da frente da Pousada Rosa dos Ventos, onde a Mariangela desenha ótimos mapas da região em guardanapos de papel. Esse primeiro dia foi mais de subidas do que de descidas e nós tínhamos um pouco de pressa, para não pedalarmos muito tempo à noite. Depois de 51 km quase sem parar, em ritmo de competição, faltando cerca de 5 km para o vilarejo de Sete Voltas, onde nós passaríamos a noite, paramos para colocar as luzes nas bikes. Já estava escurecendo. Puxei um gel energético da mochila. Olhei a data de validade porque a embalagem estava bem surrada e li “Set 02”. A bagaça estava vencida há dois anos e meio. Cururu que sou, pensei: “Ah! Esse troço sintético não envelhece nunca!”… E mandei pra dentro. O gosto era o mesmo de sempre, medonho, mas a consistência estava estranha, granulada. Dez minutos depois comecei a sentir enjôos, fraqueza, ânsia de vômito e tontura. Deitei no canto da estrada de terra e não levantei mais. Acabamos fazendo esses últimos 5 km de carona em um caminhão de gado, André empoleirado em cima da carroceria e eu confortavelmente dentro da boléia, temendo vomitar no motorista.

Números do dia: 56 km percorridos em 4 horas e 40 minutos.

Primeira noite

Conseguimos uma alma caridosa que nos preparou um Miojo. Isso e mais duas Coca-Colas conseguiram colocar meu estômago no lugar e eu finalmente “desci da roda gigante”… Ai, ai, ai. Pedimos permissão para dormir no vestiário abandonado do campo de futebol da vila. Imundo, fezes secas por todo lado, empoeirado, faltando parte do teto e com um buraco enorme em uma das paredes (um caminhão deu ré ali). Não levávamos barracas ou sacos de dormir, só redes de dormir e cordins. Bivaque total. Passamos um frio rasgado enrolados em cobertores de emergência. Parecíamos batatas assadas. Para compensar, entre as telhas que faltavam, eu via estrelas.

Segundo dia

De Sete Voltas pedalamos até a portaria 3 do Parque Nacional da Serra da Canastra, também conhecida como “portaria Sacramento”. Passamos por um acampamento do MST perto de uma área de reflorestamento. Conheci gente que vive a 4 anos de acampamento em acampamento de sem-terra por todo o Brasil. Isso é que é vida dura!

Uma vez dentro do parque ficamos atentos para os animais silvestres. Em outra ocasião ali tive o privilégio de pedalar ao lado de um lobo-guará adulto enorme. Uns 200 metros a menos de 5 metros dele. Dessa vez não vimos nem tamanduá. Chegamos no topo da cachoeira Casca D’Anta, principal marco natural da nascente do Rio São Francisco. Carregando as bikes nas costas descemos a trilha de 3 km que liga a parte alta à parte baixa da cachoeira, por onde saímos do parque.

Números do dia: 81 km pedalados em 8 horas e meia.

Segunda noite

Se a primeira noite foi bivaque total, a segunda foi maloca total. Saudosa maloca! Sem ganchos onde pendurar nossas redes, pedimos ao dono de um restaurante e camping que deixasse a gente dormir nos bancos do refeitório, depois que a cozinha fechasse. “Cês que sabe”, disse ele, dando a permissão. O problema foi que o restaurante bombou até bem depois da meia-noite. O povo comia, bebia, ria e festejava, enquanto eu e o André roncávamos desbragadamente deitados sobre os bancos de madeira.

Terceiro dia

Um dia de serras! Mal saímos do tal restaurante e encaramos uma subida de uns 5 km. Ganhamos 450 m de altitude nesse trecho. Mas como tudo o que sobe, eventualmente desce, pegamos em seguida um downhill de uns 2 km nervosos. E subimos de novo. E descemos de novo. A paisagem era tão bonita que eu não sabia se pedalava ou fotografava. Os dois ao mesmo tempo não rolou.

Serra da Babilônia, Serra da Gurita, Serra do Cipó. Entre cada serra um vale. Sobe e desce. Sobe e desce. Na parada para o almoço cruzamos com um grupo de 13 trilheiros de moto. Mountain bikers e trilheiros não se bicam muito, mas os caras eram engraçados e acabamos rindo muito juntos. Antes de ir embora fiz uma foto com eles, só para mostrar “quem carrega quem no colo” pelas trilhas do Brasil. Quem sabe não convenci algum deles a largar a moto e fazer um esporte de verdade… (he, he, he).

Delfinópolis no final do dia. Nem um pneu furado, nem uma gota de chuva, nem um acidente sequer. Um dos melhores pedais da minha vida!

Números do dia: 67 km pedalados em 9 horas e meia.

Conclusão

Êta vida dura! 205 km de mountain bike em 51 horas e meia. Uma noite dormida em ruínas e outra “sem moleza”. Todo o tempo minha maior preocupação na vida era se o protetor solar precisava de outra demão. Aos menos preparados e mais afortunados (por terem mais tempo) sugiro essa volta em cinco dias, acampando na portaria Sacramento e dormindo na pousada da Wanda, além dos pontos onde eu dormi. Existe ainda todo o lado norte do parque para explorar, de São João Batista até São Roque de Minas… Tá esperando o que? Já pedalou hoje?

Glossário

Bivaque [do alemão Beiwache através do suíço Biwatch e do francês bivouac] s. m. Exército, área ou modalidade de estacionamento em que a tropa só dispõe de abrigos naturais, especialmente árvores. ao ar-livre; (militar) espécie de barrete e sobre o comprido; 2) Tropa que está bivacando.